Jean Wyllys deixou o Brasil por ter recebido ameaças de morte. Com os caminhos abertos, David Miranda agora assume como deputado federal em Brasília representando o Rio de Janeiro. Nascido no Jacarezinho, uma das maiores favelas do Brasil, Miranda foi peça-chave na revelação de documentos que mostravam a espionagem realizada pelo governo dos Estados Unidos em 2013. Ao lado do jornalista Gleen Greenwald e do whistleblower Edward Snowden, o caso é emblemático e virou marco no mundo da cibersegurança.

Você pode assistir dois filmes para se aprofundar no tema: Citizenfour e Snowden

O TecMundo aproveitou a visita de David Miranda à São Paulo, na última quinta-feira (31), para discutir algumas questões que o agora deputado federal vai encontrar. Além disso, para descobrir detalhes de como foi o seu papel na revelação dos documentos obtidos por Snowden quando trabalhava na Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA).

Essa é a primeira entrevista que o TecMundo vai realizar em uma nova série que abordará assuntos comuns aos cidadãos brasileiros. Você, em breve, vai encontrar ideias e opiniões de executivos e políticos das mais variadas áreas que lidam com tecnologia.

Sobre a entrevista de David Miranda, você pode se aprofundar no tema assistindo ao documentário Citizenfour ou ao filme Snowden, dirigidos por Laura Poitras e Oliver Stone, respectivamente.

  • TecMundo: David, agora você substitui o Jean Wyllys como deputado federal, eu queria saber como você chegou aqui, desde a sua nascença até este momento.

David Miranda: Eu sou um jovem negro, LGBT, que vem do Jacarezinho (RJ). Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos de idade e minha tia teve que me criar. Uma mulher guerreira, faxineira, que cuidou de seis filhos sozinho — o marido dela morreu. Aos 9 anos de idade eu comecei a trabalhar entregando panfletos para um dentista. Quase chegando aos 10 comecei a trabalhar em uma locadora de videogame e fiquei até os 13 anos de idade. Foi quando eu saí de casa.

Eu adorava pegar ônibus e conhecer a cidade. Então eu matava muita aula e isso complicou minha relação com minha tia, aí eu decidi sair de casa aos 13 anos. Fiquei um período na rua, comendo lixo e dormindo embaixo de marquise. Foi um período complicado. Depois disso eu fui morar com mais dois primos meus, na casa de outra tia minha.

A partir daí fui trabalhar no centro da cidade, trabalhei como engraxate, entregador de panfleto, faxineiro de loteria, officeboy e virei caixa da loteria, despachante dos boys e cheguei ao telemarketing. Aí eu fui ao estrelato, né? Aos 19 anos, conheci o Gleen [Greenwald, advogado e jornalista] e voltei a estudar. Ele é o amor da minha vida e vamos fazer 14 anos de casados agora. Parece 50 anos na verdade [risos]. Com o Gleen eu tive a oportunidade de voltar, então eu fiz aqueles vestibularzinhos que você pegava apostila e fazia prova e também fiz supletivo.

Passei em duas faculdades grandes no Rio de Janeiro, PUC e ESPM. Nesse momento que o Gleen começou a escrever jornalisticamente.

  • TecMundo: Então quando vocês se conheceram ele ainda não trabalhava com jornalismo?

David Miranda: Não, ele era advogado. Lembro ainda das 100 primeiras pessoas no blog, as primeiras 1 mil, 10 mil. Quatro meses depois a gente assinou o primeiro contrato do livro dele. Foi em dezembro de 2012 que o Edward Snowden [whistleblower, ex-analista da NSA] entrou em contato com a gente.

Ele mandou uns emails e parecia um cara meio louco. Sabe, ele falava de criptografia e ninguém entendia disso em 2012, só aquela galera mais ‘nerdzona’. A gente achou que era balela.

Depois que eu coloquei o Gleen no The Guardian, em outubro, eu estava conversando com o Oliver Stone [cineasta norte-americano] para fazermos uma série de documentários sobre a Prisão de Guantánamo. Então estávamos nós três para fazer os documentários. Nesse momento a Laura [Laura Poitras, cineasta e escritora norte-americana] entrou em contato com a agente em abril de 2013 em Nova York e mostrou alguns arquivos pra gente [referentes ao caso Snowden]. Aí vimos que aquilo era real.

David MirandaDavid Miranda

  • TecMundo: Nesse momento vocês já tiveram a dimensão do que era, do PRISM, de tudo que poderia ser? Ou vocês só estavam pensando que tinha algo estranho por ali?

David Miranda: Não, ele [Snowden] mandou apenas uma amostra para demonstrar que ele realmente tinha isso, e que eram documentos reais. Foi em maio que o Snowden partiu para Hong Kong (China). Nesse momento, eu e o Gleen tivemos uma conversa muito longa para entender o que estávamos fazendo, lutando contra um governo, espionagem e mostrar tudo isso. Eu só não fui pra Hong Kong porque estava no período final da minha faculdade.

Eu sabia que o Gleen tinha que publicar a história antes de todo mundo, então decidimos escrever uma carta para ele renunciar ao cargo no The Guardian, que estava muito lento para permitir a publicação dos documentos. Então, iríamos publicar em qualquer blog e arranjar ativista no mundo inteiro para proteger, advogados...

  • TecMundo: Nesse momento, vocês já estavam preocupados com as autoridades em cima de vocês ou ainda não tinha passado...

David Miranda: A gente não tinha publicado. A minha preocupação era: a gente tinha esses documentos e o público não sabia. Quando publicássemos, as pessoas saberiam e teríamos uma proteção. Se acontecesse qualquer coisa, as pessoas saberiam que foi o governo provavelmente. Você acha que governos não matam pessoas? Com certeza eles matam pessoas.

Precisámos da segurança das publicações. Uma vez que é público, eles não podem tocar na gente. E também porque iria render o maior prêmio de jornalismo ao meu marido, pensando no marketing e na comunicação, eu sabia que ele teria que quebrar a história primeiro.

Foi neste momento que criamos a ideia do The Intercept. Queríamos um lugar no qual pudéssemos fazer jornalismo do mundo inteiro.

Quando publicamos a história foi aquele negócio no mundo inteiro... A gente se falando, o Gleen sem dormir 24 horas, bebendo café e aquela primeira semana... Depois da primeira semana, o Snowden desapareceu do hotel. Depois, o Gleen desapareceu.

gleenGleen (esquerda) e David (direita)

O Gleen desapareceu quando pegou um avião para vir ao Rio de Janeiro. Nesse dia, tem a história mais bizarra do mundo que eu vou te contar:

A gente morava no Alto da Boa Vista, lá é um lugar no meio da floresta e tal. Nesse dia, a Light [companhia de eletricidade] cortou a minha luz. Eu não conseguia falar com meu marido. O que eu pensava? Mataram o Snowden, mataram o Gleen e agora tão vindo... Então eu pensei, cara, eu vou pra casa de alguém. “Se eu for pra casa de alguém, essa pessoa vai ser morta junto comigo”, pensei. Tinham meus cachorros, “eles vão invadir minha casa e matar meus cachorros”.

Eu imaginava que aquela noite eu ia morrer e que ele estava morto

Contatei a Light e eles afirmaram que não havia problema na minha conta de luz, eles só falaram que poderiam religar em 48 horas, aí eu voltei pra casa e fiquei lá sentado com meus cachorros. Passei a madrugada inteira chorando, imaginando que o Gleen tava morto, foi uma das piores noites da minha vida. Foi foda. Aí de manhã o filho da puta me passa pelo corredor e os cachorros começam a ladrar e quando vi o Gleen eu saí correndo, abracei ele e comecei a chorar. Eu imaginava que aquela noite eu ia morrer e que ele estava morto. Foi muito sinistro — depois ele explicou que não entrou em contato por medida de segurança e porque já sabia que estávamos grampeados.

Um dos arquivos que o Snowden mandou para gente estava corrompido, sobre o sistema de inteligência da Inglaterra. A Laura Poitras conseguiu arrumar, mas não tinha como enviar porque poderiam interceptar. Não tinha como o Gleen sair do país aquela época porque a gente sabia que eles poderiam prendê-lo, já que o governo dos EUA estava fazendo ameaças. Não tinha mais ninguém para buscar esses arquivos. Então eu falei: eu vou.

  • TecMundo: Nesse momento, que vocês já têm noção do que tão lidando. Vocês tinham essa paranoia de achar que o governo estava acompanhando vocês?

David Miranda: Sem sombra de dúvidas. A gente estava sendo perseguido na rua.

  • Mesmo fazendo jornalismo, não terrorismo ou espionagem...

David Miranda: Sim, sim. Tinha pessoas que eu via em Ipanema e depois via no centro da cidade a mesma pessoa, tipo assim. Tinham pessoas com certeza seguindo a gente. Carros passando na nossa rua, e a nossa rua era muito deserta, residencial, no meio da floresta. Bateu aquilo né.

Tomamos algumas medidas de segurança, criptografia nos emails etc. Mas também tínhamos aquela noção de que se eles fizessem algo com a gente, seria um tiro completamente no pé. Rolaria uma investigação. O que podiam fazer era ameaçar.

Então, eu decidi ir lá buscar o arquivo que ninguém mais poderia.

Fiquei lá, fizemos reuniões, vimos como seria feito o filme [Citizenfour]. Fiquei um tempo na casa da Laura Poitras e, depois de um tempo, fui para a casa de outra amiga em Londres e voltaria logo em seguida ao Rio de Janeiro. O primeiro problema veio quando liguei e não conseguia mudar minha passagem para o Brasil. Fui até o aeroporto e ouvia “senhor, não podemos modificar sua passagem”. A British Airways não mudou minha passagem porque o governo não deixou — eles não me falaram isso na época. Isso porque no dia 16 de agosto de 2013 o governo da Inglaterra já havia comunicado a Casa Branca que me prenderiam no dia 18.

O que eu pensei? “Quer saber, vou fazer aquelas coisas de filme: fui pra estação de trem, vou comprar uma passagem para qualquer lugar, tô aqui na Alemanha, não conheço nada desse país...”

SnowdenSnowden

  • TecMundo: Mas nesse momento você estava tranquilo?

David Miranda: Eu tava tranquilo.

  • Já estava esperando um movimento?

David Miranda: Não, não estava esperando um movimento. Só estava achando: “porra, não deu pra trocar porque deve ter dado algum problema na passagem na forma que foi comprada”. Cheguei na estação de trem e também não conseguia comprar uma passagem. Então resolvi pegar um hotel por ali mesmo. Comprei um monte de junkie food e fiquei no hotel assistindo Anime com saudade de casa e hibernando. Eu sou pagão, parece que eu sabia, que eu estava me preparando porque iria chegar domingo.

Chegou domingo, peguei meu primeiro voo, quando o avião parou na primeira escala em Heathrow eu estava com os arquivos em um pendrive pendurado no meu pescoço. Quando o avião chegou já falaram “todos os senhores passageiros, saiam com os passaportes em mãos”. Eu já pensei: “Fodeu, é agora”.

Saí do avião e já tinham três agentes. Pegaram meus passaportes me levaram como medida de segurança. Pedi explicações e falaram que estavam me levando com base na lei antiterrorismo 2000. Dentro de uma sala no aeroporto, eles falavam que era algo rotineiro e que eu ficaria no máximo 30 minutos. É... Eu fiquei 9 horas.

  • David Miranda: E os documentos? Eles recolheram?

David Miranda: Recolheram tudo. Eles me despiram, me apalparam, pegaram meu celular, meu casaco, pegaram tudo e me deixaram só com a roupa do corpo.

Sentaram dois agentes comigo. Eles me explicaram a lei e disseram que eu teria que entender quatro coisas: primeiro, só poderiam me deter por até 9 horas — depois disso, ou me prendem ou me liberam; segundo, eu teria uma ligação para um advogado — eu liguei para o advogado do The Guardian; terceiro, ligar para uma pessoa terceira para cuidar de outras coisas — liguei para o meu marido; e o quarto, que eu não tinha a lei do silêncio. Se eu não cooperasse com um agente, eles poderiam me prender.

Sabendo disso e sabendo da história da Prisão de Guantanamo, eu sabia que iria parar em Guantanamo. Estava exatamente isso na minha cabeça.

  • TecMundo: É até uma forma de coação, né...

David Miranda: É uma forma de terrorismo o que eles fizeram comigo. Dentro disso, eu resolvi que iria matar as nove horas. O Gleen tá lá fora, a Laura tá lá fora, e eles vão mover o mundo para me tirar daqui de alguma forma.

O advogado chegou lá depois de quatro horas e eu só fui atendido depois de oito horas e 15 minutos. Fui interrogado por sete agentes diferentes direto por 8 horas e 15 minutos. A partir da primeira hora, começou um jogo: eles me perguntavam o meu nome, eu perguntava o nome deles. Eles perguntavam onde eu morava, eu perguntava onde eles moravam. “O que você estava fazendo em Berlin?”, eu respondia que estava “visitando uma amiga, uma cidade muito bonita”. “Qual seu envolvimento com as publicações”, eu respondia que “não tenho envolvimento com as publicações”.

Agora a gente precisa falar pro mundo o que aconteceu e lutar contra esse governo. Vamos derrubar eles

Se eu não respondesse ou mudasse de assunto, eles me lembrar da lei de cooperação e ameaçavam com prisão. E eu precisava matar nove horas. E matei.

Perguntaram se eu queria beber algo, comer algo, ir ao banheiro. Não quis nada. Foi uma guerra ali. Meus advogados pegaram o release que eles mandaram, eles tiraram muita parte do interrogatório. Mas eu dei o pior tempo da vida deles, eles tinham que trocar de agente porque eles cansavam. Pra mim, eu estava indo para Guantanamo com toda certeza. Então eu resolvi fazer um inferno na vida desses caras.

Quando eu pude ter contato com meu advogado, disse que não falaria com ele naquela sala porque tinha câmera — mesmo os agentes falando que a câmera estaria desligada. Fui para outra sala e falei com meu advogado.

Bateu nove horas e eles não poderiam me manter mais ali. Então eles me levaram para o saguão principal de Heathrow para carimbar meu passaporte e eu passar a noite ali com os agentes. Então eu pensei: “é agora que eu vou sumir, não vou entrar aqui”.

Aí o favelado baixou em mim. Comecei a gritar: “eu quero falar com minha embaixada!”, “eu quero falar com meu advogado!”, “eles tão me prendendo!”. Comecei a gritar e um cara que ficava do lado de fora vendo os agentes entrando na sala veio falar comigo e pediu para eu ficar quieto. Eu deixei claro que se eu entrasse, naquele momento, dentro da Inglaterra, eu iria em todas as emissoras de TV e falaria o que eles fizeram comigo. O mundo inteiro saberia disso. “Eu vou voltar pro meu país agora”. Ficamos assim por três horas, andando de um lado para o outro no aeroporto.

Depois de 12 horas no total, fui parar na porta da TAM e me entregaram meu passaporte. Quando eu caminheiro, a primeira coisa que eu falei com o comissário foi “olha, eu fui detido por 12 horas. Meu marido está desesperado, eu preciso de um telefone”. Não consegui falar com o Gleen, mas passei o número do voo para um amigo que avisei que estava voltando ao Brasil.

Eu lembro que eu sentei — detalhe: coloquei a Rainha para pagar Business para mim [risos] — e chorei. Sabia que a TAM era brasileira, que o pessoal era brasileiro. Voltando para o Brasil eu chorei muito e não acreditava que estava voltando. Cheguei no aeroporto, milhares de jornalistas falando, gravação... Aquele ‘auê’ todo.

Cheguei em casa, dormi 3 horas e falei: vamos lá. Agora a gente precisa falar pro mundo o que aconteceu e lutar contra esse governo. Vamos derrubar eles. Agora a gente vai fazer todas as publicações e vai foder com essa porra de governo. Mesmo.

Snowden Snowden

  • TecMundo: Não te deu um pouco de medo? Vocês estavam lidando com uma ferramenta de reconhecimento de pessoas no mundo inteiro, e o Snowden está na China que é um país muito conhecido por também ter uma vigilância, e depois ir para a Rússia, que também tem problemas com isso...

David Miranda: Foi uma coincidência. Hong Kong foi uma escolha pessoal do Ed [Snowden]. Ele achou que seria mais seguro fazer as publicações de lá. O Ed é um dos caras mais inteligentes que existe na face da Terra. No TOP 5 existe ele, meu marido e eu não vou falar o resto [risos]. Mas só cara crânio, eu respeito muito. Pode tirar a parte do meu marido, por favor? [risos].

O Ed é um estrategista. Ele iria vir para o Equador, mas depois acabou ficando preso na Rússia com aquele rolo todo. Pelo menos são países que batiam de frente com um império, né?

  • TecMundo: Saindo um pouco disso, o pessoal do PSL foi até a China para conhecer uma ferramenta de reconhecimento facial. O que você pensa sobre isso aqui no Brasil, é interessante trazer essas ferramentas de vigilância? O que você acha do tema vigilância x segurança?

David Miranda: Esse é um tema complicado. Existe um número crescente de crimes na sociedade, mas eu acho que é um debate complicado. A sociedade civil tem que ter papel nisso e os governos não podem estar tomando decisões pela população porque é o que aconteceu nos EUA, que eles estavam coletando todas as informações e entregando para empresas, e também fazendo isso para espionagem industrial. Fizeram espionagem na Petrobrás, de líderes de estado, de política e espionagem de massa para entender comportamento de população.

Agora, se o governo brasileiro quer fazer uso de uma tecnologia, essa tecnologia precisa ser debatida pela população. Se a população quer ou não aceitar, e ter regras claras de como vai ser utilizado. A sociedade civil precisa de um conselho para ser participativa e entender como vai ser isso; se for para nossa segurança, né?

Esse debate precisa ser muito mais aprofundado, mas pela galera que está indo lá, eu acho que o caminho está sendo bem para outro. Acho que para um sistema de vigilância de comportamento de traçar... Você pode traçar trajeto da pessoa, localização, pessoas que essa pessoa está próxima... Você consegue fazer uma análise de tudo dessa pessoa. E quem for oposição ao governo e isso tiver na mão de um governo? Eu não confio em governos. Não confio em governos para ter um poder desse e poder fazer isso. É muito poder para deixar na mão de um governo.

  • TecMundo: Você acha que o povo pode ser uma boa ferramenta de fiscalização disso?

David Miranda: Eu acho que sim. Veja, eu acho que não dá para frear a tecnologia e elas devem avançar. O que a gente pode fazer é que implementemos conselhos, que sejam pessoas que entendam disso, que participem e tenham um debate na sociedade civil. Precisamos de uma sociedade capacitada nesse assunto e que possa também ser propositora. Se tiver esse link, governo, estado, sociedade e terceiro setor, talvez seja um ciclo que talvez dê para funcionar. Algo nesse sentido pode funcionar. Mas entregar esse poder para um governo é abuso de poder que vai acontecer.

  • TecMundo: Você também tem o Mandato Coletivo, aquele aplicativo de smartphone. Pode explicar o que que é ele?

David Miranda: O Mandato ele é Coletivo de qualquer forma. Você pode ir no gabinete ou pode acessar nossas redes. Fomos os percursores disso no Rio de Janeiro ao lançar o aplicativo, que vocês podem baixar nas principais plataformas, e lá você pode enviar documentos, conversar com o mandato, receber notícias. Isso é uma ferramenta que queremos aprimorar ainda mais para que os cidadãos possam entrar em contato e se sentir parte da política ainda mais. Há muito tempo esses caras acreditam que eles são donos da política, eles acham que são donos da democracia, mas democracia de verdade é o movimento Ele Não que botou milhares de pessoas nas ruas, é o Occupy Wall Street que botou milhares de pessoas na rua, são todas essas revoluções que a gente vê na rua nesse momento no mundo inteiro... Ter uma tecnologia facilitando que as pessoas entrem em contato com você é algo diferente do que fazem os outros políticos.

David MirandaDavid Miranda

  • TecMundo: Fechando nossa conversa, o Jean infelizmente sofreu ameaças de morte e teve que deixar o Brasil. Se você for ameaçado, você vai deixar o Brasil?

David Miranda: Eu já fui ameaçado. Eu não vou deixar o meu país. Eu já disse: eu venho da favela do Jacarezinho, primeiro corpo estendido que eu vi eu tinha oito anos de idade. A morte me rondou todo tempo. Eu sou três vezes mais o cara que morre na estatística. Eu nasci na favela, as pessoas da favela tomam tiro o tempo todo. Eu nasci negro, os negros são os primeiros que tomam tiro na favela. Eu sou LGBT no país que mais mata LGBTs no mundo. Eu sou ameaçado pela minha própria existência dentro da sociedade.

Então, as ameaças que eu já ouvi na rua.... Que já foram enviadas por mensagens, e que vocês vão ver nos comentários, não vão me bater. Uma hora o copo enche, você sente, eu tento evitar, tento não responder isso ou aquilo.... Vão ameaçar? Eu vou tomar medidas de segurança.

Eu vou com medo, vou com força, mas eu não vou sozinho não

Mas, irmão, se em um momento como esse, que a nossa democracia está sofrendo para caralho, que a nossa democracia está sofrendo com esses caras eu lá, eu que venho da favela, eu que fui eleito para poder estar lá defendendo as pessoas e ser uma voz no meio daquelas vozes ali, que querem confundir que querem falar um monte de coisa e acabar com a classe trabalhadora... Se eu não tiver coragem, eu não botar meu peito lá, quem é que vai subir lá e fazer isso agora? Quem é que vai?

Então, assim, eu vou com medo, vou com força, mas eu não vou sozinho não, cara. As mensagens que eu recebi essa semana, tudo que todo mundo vem falando pra mim, eu tenho certeza: todo mundo está indo para Brasília comigo. E essa luta, vai ser uma luta pela democracia, porque esses caras não vão conseguir se manter. A gente está mais unido do que nunca e eu vou para Brasília batendo o pé e tendo diálogo com todo mundo — se tiver que ter diálogo. Mas se eles precisarem de enfrentamento, eu não vou estar sozinho.

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