Fazer dezenas de coisas quase simultaneamente talvez já seja tão comum que nem mesmo seja necessário dar um nome. Afinal, qualquer pessoa razoavelmente ativa, seja com trabalho ou com estudos, normalmente desdobra a atenção em dezenas de atividades menores — boa parte delas apadrinhada pela onipresença da tecnologia atual.

A maior parte de nós hoje é capaz de, simultaneamente, checar emails, responder a mensagens variadas, participar de fóruns, falar ao telefone... Enquanto ouve música clássica “para relaxar”. (Este que vos escreve, por exemplo, acaba de receber a contragosto um curioso vídeo de um sujeito capaz de equilibrar um botijão de gás sobre a cabeça enquanto anda tranquilamente de bicicleta).

Embora a tentação do orgulho por “assobiar e chupar manga ao mesmo tempo” seja grande, fato é que o multitasking não necessariamente faz bem ao nosso cérebro. Na verdade, de acordo com a ciência, essa nova postura não apenas é capaz de comprometer o foco como também pode causar stress e diminuir as capacidades cognitivas — sem papas na língua: pode nos emburrecer a todos mesmo.

Ilusão de eficiência

A despeito da soberba embutida quanto alguém lhe diz algo como “Eu faço dezenas de coisas ao mesmo tempo”, ainda não é esse sentimento que transforma o agir multitarefa em algo prazeroso. Na verdade, trata-se de um raro prazer e também de um vício para a sua massa cinzenta — o mesmo que determina que até os seus momento de entretenimento sejam retalhados em atividades diversas, como ouvir rádio enquanto lê um livro.

Em artigo escrito para o blog da empresa de recursos humanos Seed Jobs, o diretor de vendas e marketing da companhia, Ben Slater, descreveu como o nosso cérebro consegue se enganar magistralmente quando atua em diversas tarefas simultaneamente. “O nosso cérebro é excelente para nos enganar e nos fazer pensar que estamos sendo eficientes”, escreveu Slater.

Basicamente, vários estudos atestam que a execução de atividades paralelas leva a liberações massivas de dopamina no organismo — o próprio “hormônio da felicidade”, conforme normalmente é chamado. “Nós ficamos ansiosos por nos recompensarmos por conseguir fazer tanto de uma vez só.”

“Embora o centro de recompensas do cérebro seja satisfeito quando nós trocamos de tarefas, cada vez que nós olhamos para um belo novo email, um tweet ou uma mensagem de texto, nós liberamos pequenos impulsos de prazer.” Mas há um preço por todo esse festim multitasking.

Uma parte do cérebro pena com isso

O grande problema dessa busca pelo Santo Graal multitarefa é que, enquanto nós passeamos alegremente por uma miríade de janelas abertas no navegador, a parte do nosso cérebro destinada a nos ajudar a manter o foco acaba bastante penalizada. Como resultado, há o stress iminente.

“Foi provado que o multitasking é responsável pela liberação do hormônio cortisol no organismo, o qual afeta tudo, desde a sua capacidade mental até a densidade dos seus músculos.” No longo prazo, portanto, é um adeus ao cubo de Rubik e à barriga de tanquinho.

Um coquetel de dopamina e cortisol para o cérebro

Em números, um indivíduo estressado por tarefas simultâneas pode perder até 10 pontos em uma avaliação de Q. I. (coeficiente de inteligência). E há uma comparação igualmente curiosa. “Nós às vezes discutimos os efeitos da maconha sobre a nossa habilidade de pensar claramente — e o mesmo estudo mostra que o multitarefa pode afetar as habilidades cognitivas de forma ainda mais negativa.”

Rápido, mas pouco criterioso

Voltando ao sujeito orgulhoso por fazer dúzias de coisas ao mesmo tempo, surge a pergunta inevitável: alguém pode ser realmente bom em desenvolver múltiplas tarefas? Afinal, convenhamos, boa parte da noção de produtividade atual acaba (subjetiva e objetivamente) ligada à capacidade de se desdobrar em ações simultâneas; isso faz com que nos sintamos mais produtivos, certo?

Mas aí vem novamente a ciência. Estudos mostram que pessoas acostumadas a desenvolver ações multitarefa normalmente tem algum comprometimento na capacidade de filtrar informações — caso se comparasse com um cérebro devidamente focado. “Há alguns casos isolados que parecem exemplos de ‘supertaskers’, sendo capazes de arcar com essa quantidade de trabalho, mas, por via de regra, parece que a ideia é evitar o multitarefa.”

O que nos distrai?

Embora a tecnologia moderna tenha facilitado o acesso à informação e também tenha “encurtado distâncias”, como se costuma dizer, é fato que essa mesma tecnologia, por ser cada vez mais presente, tem alimentado distrações constantes para o cérebro. Em seu artigo, Ben Slater enumerou vários motivos pelos quais a rotina atual parece nos conduzir irremediavelmente ao multitasking.

As pessoas querem respostas... Já!

É claro que a troca de cartas é algo muito anterior a qualquer coisa remotamente relacionada às tecnologias atuais. Entretanto, a prática antiquíssima de enviar missivas por meios físicos parece se distanciar dos emails e, de forma geral, dos formatos de mensagens eletrônicas atualmente em voga.

“No mundo digital de hoje, nós estamos sempre disponíveis”, escreveu Slater. Estejamos nós no escritório, em casa (no banheiro?), há hoje uma expectativa social imediatista. Se antes era comum esperar semanas ou meses por uma resposta em carta, hoje alguns minutos podem ser o suficiente para aborrecer um remetente ansioso — o qual, por sua vez, também pode ter uma resposta cobrada por outra pessoa.

Mail vs. Email

Aí vai uma pergunta para qualquer um que já tenha enviado uma carta a alguém um dia: qual era a probabilidade de a missiva ser enviada por engano a outro destinatário? Ou, ainda, qual era a probabilidade de você enviar aquela carta para alguém que mal conhecesse? “Emails são suficientemente impessoais para que nós não nos importemos em enviar centenas de mensagens para pessoas com quem nunca nos encontramos”, disse Slater.

Naturalmente, se filtrar e catalogar cartas já podia ser algo penoso em papel, o que dizer de uma caixa de entrada superlotada com dezenas, centenas ou mesmo milhares de mensagens? Embora com expectativas menores, as pessoas ainda querem respostas — e isso nos distrai.

Ademais, há ainda a concentração de forças adicional do cérebro despendida pela necessidade de decisões rápidas, já que, dado o montante, o seu tempo de decisão sobre cada mensagem acaba sendo incrivelmente reduzido.

Como controlar o multitarefa

A resposta mais rápida aqui provavelmente seria algo como “basta evitar as distrações”. O problema é que isso não necessariamente funciona. Na verdade, a simples existência de estímulos em potencial já é suficiente para despejar uma bela dose de cortisol no seu cérebro.

Entretanto, há práticas que podem minimizar a postura multitarefa, dando um descanso para o cérebro. Assim como Ben Slater, você pode começar a conter as distrações com duas tarefas relativamente simples.

  • Planeje o seu dia: pela manhã, estipule metas ligadas a horários de execução, definindo o máximo possível as atividades que precisam ser concluídas até o fim do dia — e tenha certeza de concluí-las antes de começar a saltar entre o Facebook, o Twitter, os emails etc.
  • Alterne “foco” e “distração”: tempos definidos para atenção focada e relaxamento normalmente ajudam. De fato, um cérebro descansado é muito mais capaz de manter o foco em uma atividade. Slater sugere a alternância de “25 minutos de trabalho focado” e “5 minutos de descanso”.
  • Reserve um horário para mensagens e emails: defina um horário durante a sua rotina diária para checagem de emails e demais formas de comunicação. Também pode ser particularmente útil desativar as notificações do smartphone, para não atrapalhar a rotina. Fora desses intervalos, o ideal é manter quaisquer canais fora do alcance imediato — mesmo correndo o risco de protelar a leitura daquela mensagem particularmente “urgente”.

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