Serviço de microblog tem escritório para autocensura. (Fonte da imagem: Divulgação/Sina)

Se você é leitor do Tecmundo há algum tempo, já deve ter lido algo sobre o Sina Weibo, o Twitter chinês. A rede social é um microblog que, assim como todas as outras no país asiático, censura o conteúdo publicado pelos usuários. Isso não é uma opção para as empresas de internet na China, mas sim uma condição para que continuem funcionando, segundo as determinações do governo local.

O sistema de censura do maior microblog da China funciona com uma equipe de cerca de 150 homens auxiliados por um programa automatizado que seleciona mensagens consideradas sensíveis entre os milhões de “tweets” que os chineses postam a cada minuto. Para tal, o programa da Sina vasculha todas as palavras de todas as mensagens e, quando encontra termos cadastrados como suspeitos, manda o post para um dos censores analisar o contexto.

Muito trabalho para pouca recompensa

Essas informações foram divulgadas pela Reuters, que conversou com três ex-censores do serviço. Eles não quiseram ser identificados em momento algum da reportagem por temerem serem responsabilizados por divulgar os detalhes. De qualquer maneira, o grande motivo para esses rapazes comentarem com a agência de notícias sobre seus antigos postos no Sina Weibo foi o de relatar as condições de trabalho no local.

Todos comentaram que o trabalho de censura é desgastante e paga mal. Um censor comum do Sina Weibo ganha ¥ 3 mil  por mês, cerca de R$ 1090 na cotação atual. Isso por jornadas noturnas ou diurnas praticamente ininterruptas de 12 horas. Esse salário é muito semelhante, segundo as fontes da Reuters, aos pagos para marceneiros iniciantes assistentes de imobiliárias na mesma cidade, Tianjin, nos arredores de Pequim.

Não vale a pena

Apesar de sofrerem com a pressão diária de ter de analisar cerca de 3 mil mensagens por hora, os censores do Sina Weibo tem ainda a responsabilidade pelos posts que deixam passar. Assim, se uma mensagem considera inaceitável pelo governo passar por um censor e continuar no ar, ela pode resultar na punição do funcionário, inclusive com a sua demissão. Em datas comemorativas ou especiais de alguma forma, a pressão aumenta ainda mais, já que os chineses postam mais comentários agressivos ao Partido Comunista. Nessas situações, as pessoas chegam a trabalhar 24 seguidas no escritório de censura do serviço para dar conta da demanda.

Além de ter que aguentar essa barra, os funcionários da censura do Weibo não vêm muitas oportunidades de crescimento na empresa. Esse motivo é um dos principais apontados pelas fontes da Reuters para o abandono da função.

Ainda assim, os rapazes acreditam que seu trabalho é ou era fundamental, inclusive para as pessoas que eles censuram. "Nosso trabalho impede que o Weibo seja fechado e oferece às pessoas uma grande plataforma na qual podem se pronunciar. Não é tão livre quanto idealmente preferiríamos, mas permite que as pessoas desabafem", comentou um dos ex-funcionários do escritório de censura.

Jovens em cubículos

A Reuters chegou a visitar a sede da Sina que concentra o pessoal da censura do Weibo. A empresa mostrou as grandes salas ondes os funcionários trabalham limitados em pequenos cubículos amarelos e afastados dos visitantes por paredes de vidro, criando corredores no escritório.

Todos os trabalhadores são homens, mas não idosos radicais do partido comunista. Bem pelo contrário. São jovens na casa dos 20 anos, recém-formados na universidade que aceitam o emprego para ter algo como uma primeira experiência de trabalho, mesmo que seja mal remunerado.

Aperfeiçoamento

Além de julgar e apagar conteúdos impróprios na rede social, os censores precisam ainda atualizar o sistema automático que capta as mensagens sensíveis no Weibo. Isso é necessário porque, sabendo da censura automática, os usuários inventam sinônimos para se remeter a termos proibidos. Aí, quando um dos censores percebe o feito, é necessário cadastrar as novas palavras.

Os funcionários podem ainda dar punições aos usuários do Weibo que pegarem muito “pesado” no microblog. É possível bloquear a conta da pessoa por determinado tempo ou até mesmo deletar o perfil e expulsar o cidadão do serviço.

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