A conturbada situação da guerra civil que desola a Síria há anos voltou a ganhar destaque no mundo todo depois que a intensificação das batalhas na cidade de Aleppo – a segunda maior do país – fez a população local ficar presa em meio a uma situação desesperadora. Enquanto o exército de Bashar al-Assad avança para eliminar os remanescentes rebeldes, militantes não combatentes, jornalistas e vítimas do conflito compartilharam relatos chocantes por meio das redes sociais.

“Acho que isso é um adeus. Obrigado a todos que ficaram ao nosso lado e rezaram por nós, mas agora está quase tudo acabado e faltam apenas horas para eles nos matarem”, disse o repórter e ativista sírio Rami Zien. “Estamos encarando um tipo desconhecido de morte, mas é certamente morte, já que nos deixaram sozinhos #minhasultimaspalavras”, acrescentou em outra postagem, pouco antes de saber de um cessar-fogo temporário que salvou sua vida.

Defensora da chamada “Revolução Síria”, Lina Shamy instigou todas as pessoas do mundo a agir a fim de “parar o genocídio”. “Para todos que puderem me ouvir, estamos aqui expostos a um genocídio na cidade cercada de Aleppo. Este pode ser meu último vídeo. Mais de 50 mil pessoas que se rebelaram contra o ditador Bashar al-Assad são ameaçadas com execuções em campo ou morte em bombardeios”, afirmou em uma gravação.

Apelo por ajuda

Em meio a montes de outros relatos similares, um vídeo em particular ressoou com o público do mundo inteiro. Nele, crianças que acabaram se tornando órfãs devido à guerra fazem um apelo para que organizações internacionais se esforcem e os ajudem a conseguir sair da cidade, onde vivem enclausurados em meio às batalhas armadas e aos bombardeios.

A jovem Yasmin Kanuz, de 10 anos, ressalta para a câmera que a mensagem em questão pode ser a última vez que ela será vista caso não consigam ser evacuados da zona de combate. “Essa é uma mensagem [para pedir que organizações de] direitos humanos e infantis do mundo inteiro nos ajudem a sair de Aleppo agora. Há 47 crianças aqui comigo e eu considero todos meus irmãos e minhas irmãs. Nós precisamos de água e comida. Estamos famintos e com medo dos ataques aéreos”, afirma a garota.

Outro medo da população local levantou uma polêmica ainda mais sombria. Relatos informam que, com receio de que suas esposas e irmãs sejam estupradas e torturadas pelo exército sírio, pais de família questionaram o líder religioso Muhammad Al-Yaqoubi para saber se poderiam matá-las antes que isso acontecesse.

A situação despertou uma mobilização nas redes sociais, com pessoas demonstrando tristeza e revolta pelo sofrimento da população da cidade sitiada. “Você não tem que ser sírio para sentir a dor deles, basta ser humano. Erga sua voz por Aleppo”, afirmou um usuário do Twitter. “Criança alguma deveria viver assim”, acrescentou outra pessoa na rede social.

Como chegou a esse ponto?

Bashar al-Assad está no poder desde o ano 2000, quando sucedeu seu pai na liderança da Síria. O conflito atual começou quando, em março de 2011, adolescentes que picharam mensagens contra o governo foram presos e torturados pelas forças nacionais de segurança. O ocorrido gerou protestos que, também reprimidos violentamente, originaram uma escalada na disputa e a criação de um grupo de rebeldes que exigem a saída de Assad.

Não demorou muito até que a rebelião armada da oposição passasse por transformações, com o número de simples opositores ao governo da Síria sendo gradualmente superado pelo de grupos fanáticos religiosos. O Estado islâmico entrou no meio da história, mas assumiu uma posição ambígua que os coloca em conflito tanto com rebeldes mais moderados quanto com jihadistas.

A cidade de Aleppo já sofre com o conflito prolongado

A partir de 2014, Estados Unidos, Reino Unido e França passaram a realizar bombardeios no país, mirando alvos terroristas e evitando atacar as forças do governo sírio – ao mesmo tempo, apontam Assad como culpado por muitas atrocidades e exigem sua renúncia. A Rússia, por sua vez, começou a fazer os próprios ataques aéreos no ano passado, visando estabilizar o governo atual do país e apoiando a permanência do governante atual.

E agora?

Outros países da região, como Arábia Saudita, Irã e Turquia, por exemplo, também se envolveram na guerra civil – alguns apoiando Assad, outros do lado dos rebeldes. Com toda essa pressão e interferências externas, não é de se estranhar que o conflito continue mesmo após tanto tempo. Atualmente, a ONU estima que a tragédia já resultou em 400 mil mortos e mais de 4,8 milhões de refugiados.

Embora outras áreas da Síria estejam em situação bem melhor do que a cidade que é centro da disputa atual, nem tudo está funcionando perfeitamente por lá. O nosso redator Paulo Bonilauri, que conhece pessoas que estão no país, afirma que a comida é escassa e falta eletricidade mesmo em áreas onde a guerra teve menos efeitos. “Antes faltava força uma ou duas vezes por dia, geralmente à noite. Agora é mais frequente e está até mais difícil manter contato, já que os blackouts acontecem a cada 2 horas e duram 4 horas”, afirma.

Sem escapatória, a população de Aleppo vive em meio a ruínas

Como nenhum dos lados consegue eliminar o outro completamente, a única solução que pode dar certo é um acordo entre os dois com termos decididos com consentimento mútuo. Negociações de paz vêm sendo tentadas pela comunidade internacional há algum tempo e resultaram em períodos de trégua, mas que até agora acabaram durando pouco. Por enquanto, o futuro continua incerto para os moradores de Aleppo e da Síria como um todo.

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