Quando discutimos os limites da privacidade digital, ainda não temos noção completa sobre os rumos que o assunto vem tomando. Hoje, o Google — alimentado pelas redes sociais — serve como provedor inicial de informação sobre praticamente qualquer pessoa.

Detalhes sobre amizades, familiares, preferências, trabalho e escolaridade são publicados e muitas vezes fotografados pelos usuários. Mas, mesmo com as configurações para restringir acessos, quem garante que os dados ali colocados estão 100% seguros?

Até o momento, o que é preciso para saber um pouco mais sobre uma pessoa é o seu nome completo. Contudo, este conceito está em plena evolução. De acordo com novas pesquisas, daqui a algum tempo uma singela foto tirada via smartphone poderá ser capaz de exibir uma ficha detalhada sobre um indivíduo.

Tecnologia sem maquiagem

O raciocínio para saber como esse processo de reconhecimento facial avançado ocorreria é simples: basta imaginar que atualmente o banco de dados online com referências sobre um sujeito é acessado a partir de dois índices (o nome e o sobrenome).

Dessa maneira, se um sistema for capaz de relacionar particularidades e traços de faces a nomes (ou ao banco de dados propriamente dito), seria possível descobrir informações sobre alguém através de apenas uma imagem do rosto.

Esse tipo de tecnologia começou a ser desenvolvida pelo Google e acabou abandonada. Por quê? Segundo o CEO Eric Schmidt, a iniciativa era muito perigosa para ser liberada para o mundo.

Deixando o Google para trás

Todavia, o excesso de zelo da gigante da internet abriu brechas para que outros interessados se dedicassem ao assunto. O professor Alessandro Acquisti, da Universidade Carnegie Mellon, vem desenvolvendo a ideia e defende que não há nada o que temer a respeito dela.

Durante a conferência de segurança Black Hat, que ocorre anualmente em Las Vegas, o pesquisador falou sobre a possibilidade de se conseguir um dossiê integral sobre desconhecidos. Imagine só: usando um software de detecção de faces e acessando um banco de dados virtual através de um smartphonem ficaria muito mais fácil saber quem é aquele barman tatuado ou a garota estranha da mesa ao lado.

AmpliarPrivacidade ou segurança? (Fonte da Imagem: Baixaki)

No começo, claro, há controvérsias — como, por exemplo, bater uma foto de um estranho sem que ele perceba? E a questão de resolução e iluminação? Até que ponto poderá se confiar na acuidade de um sistema desses?

Convergência tecnológica

Acquisti realizou três experiências para validar seus estudos. Primeiro, ele combinou um conjunto de fotos não identificadas de um site de encontros com as imagens públicas disponibilizadas nos perfis de todos os usuários do Facebook. Como resultado, conseguiu descobrir informações extras sobre quem são 10% das pessoas do site de encontros.

Em seguida, as conclusões foram ainda mais animadoras. Através de um comparativo entre fotos de alunos universitários tiradas por meio de uma webcam e o mesmo banco de dados do Facebook, o pesquisador conseguiu uma porcentagem de correspondência próxima a 35%.

Indo ainda mais longe, o último experimento capturou imagens de pessoas nas ruas e tentou predizer algumas características dos rostos envolvidos. Algoritmos avançados foram capazes até de supor o número do Seguro Social (SSN — controle de identificação americano, semelhante ao nosso CPF) de quem passou pela câmera.

Resumindo: embora os estudos ainda estejam no começo, sabe-se que existem várias maneiras de se combinar o método de reconhecimento facial com outras tecnologias para aplicações totalmente inéditas — só o tempo e a evolução das pesquisas poderão dizer aonde chegaremos.

Mais um na multidão

Mensalmente, são postadas 2,5 milhões de fotos no Facebook e cerca de 50% dos 750 milhões de usuários acessam diariamente o conteúdo da rede social. Caso as coisas continuem desse jeito, as chances de se estar em uma imagem digital na internet — seja no Facebook, Google Images, Linkedin ou qualquer outra fonte do tipo — só tende a aumentar.