Milhares de sul-coreanos foram às ruas nos últimos dias para pedir a saída da presidente Park Geun-hye. Mas o motivo não é um escândalo de corrupção ou mesmo um mal desempenho do governo. A situação é bem mais bizarra: aparentemente, a líder do país estava sob a influência de uma conselheira ligada a uma seita religiosa — e essa organização seria responsável por várias decisões políticas de Park, incluindo editar discursos, escolher o vestuário e definir

A tal conselheira — que é comparada pela imprensa internacional a Rasputin, o monge vilanesco da Rússia pré-Revolução que exercia forte influência sob o czar Nicolau II — se chama Choi Soon-sil e é a melhor amiga da presidente há 40 anos. Quando o pai de Park foi assassinado, ela foi "adotada" pelo pai da moça, Choi Tae-min, fundador e líder da "Igreja da Vida Eterna". Trata-se de um culto que mistura elementos do cristianismo com o budismo e o xamanismo da Coreia do Sul. Alguns veículos citam até que um grupo de sacerdotisas da igreja, conhecidas como "As Oito Fadas", tinham acesso livre aos aposentos presidenciais e eram as principais responsáveis por discutir aspectos políticos com Park.

O Twitter Moments abaixo ajuda mais ou menos a explicar o caso em português.

Segundo a Reuters, após a divulgação de toda essa história, a população local passou a defender que a presidente "traiu a confiança" dos eleitores a partir dessa irresponsabilidade de receber conselhos de uma pessoa sem cargou ou experiência.

O que a tecnologia tem a ver com isso?

Três coisas! A primeira delas é que esse caso inteiro não aconteceria se não fosse por causa de um tablet. Um Galaxy Tab abandonado de Choi Soon-sil foi descoberto em um escritório antigo da amiga da presidente. Sem qualquer traço de criptografia ou proteção, o aparelho continha todas as provas do escândalo, incluindo discursos editados e emails trocados entre ela e o gabinete. Uma selfie de Choi serviu como prova ainda maior de que o dispositivo pertencia a ela.

Os jornais locais divulgam a selfie de Choi, que comprovou a ligação dela com materiais da presidente.

Além disso, a fabricante também foi prejudicada nessa brincadeira. Aparentemente, Choi usou a sua influência com a presidente para pedir doações milionárias de grandes empresas de tecnologia baseadas na Coreia do Sul, incluindo Samsung, Hyundai e outras, para duas organizações aparentemente filantrópicas pertencentes a ela. Ela nega que tenha usado a verba para uso pessoal.

Choi usou a sua influência com a presidente para pedir doações milionárias de grandes empresas de tecnologia

E esses fatos não são exatamente inéditos. Em 2007, conversas vazadas pela WikiLeaks já mostravam que a Embaixada dos Estados Unidos na Coreia do Sul suspeitava que o líder religioso "tinha controle completo sobre o corpo e a alma da presidente Park" durante todos os anos que ela passou sob os cuidados do pai de Choi Soon-sil. Porém, só agora toda essa especulação foi de fato levada a sério, já que a história vai bem mais a fundo.

O desenrolar da novela

Por enquanto, Park apenas demitiu boa parte de seus funcionários e se desculpou por "aceitar conselhos limitados" de uma pessoa não ligada ao governo.

Há a possibilidade da presidente da Coreia do Sul deixar o cargo.

Choi estava na Alemanha quando a história estourou e retornou recentemente à Coreia do Sul, provavelmente para esclarecer o assunto e contar o seu lado da trama. Os protestos ainda não cessaram — incluindo manifestantes vestidos de titereiros e fantoches, simulando a influência sofrida pela presidente — e investigações internas devem revelar mais detalhes sobre o quanto de fato Park era "aconselhada" por Choi e a igreja.

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