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The BRIEF

O Brasil está comprando poder computacional, mas o desafio é transformá-lo em inovação

Opinião do Colunista - Investimento em supercomputador representa um avanço para a soberania tecnológica do país, mas seu impacto dependerá do acesso à infraestrutura, da formação de profissionais e da capacidade de converter processamento em soluções rea

Avatar do(a) autor(a): Felipe Matos - Colunista

schedule27/08/2026, às 20:00

O anúncio de um novo supercomputador dedicado à IA no Rio Grande do Norte, com investimentos públicos de R$ 1,06 bilhão, é um passo importante para o desenvolvimento tecnológico brasileiro. Porém, apenas ter poder de processamento não é suficiente.   

Há muito trabalho para transformar essa infraestrutura em inovação real. O investimento responde a um dos maiores gargalos da corrida global pela IA: a capacidade computacional. Treinar e operar modelos avançados exige grandes quantidades de processamento, armazenagem de dados, energia e equipamentos especializados.   

Atualmente, essa estrutura está concentrada em poucas empresas e países, o que limita a capacidade de universidades, startups e instituições públicas brasileiras desenvolverem tecnologias próprias.  

Nesse sentido, o supercomputador pode ampliar o acesso de pesquisadores e organizações nacionais a uma infraestrutura que seria cara ou mesmo inviável de se contratar individualmente, além de reduzir, ao menos um pouco, a dependência estrangeira e permitir o desenvolvimento de modelos mais alinhados ao idioma, cultura e às necessidades do Brasil.   

Para essa máquina potente produzir inovação de fato, é preciso construir as pontes que vão transformar o poder de processamento em pesquisas, empresas, produtos, empregos e melhorias nos setores público e privado.   
 

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O acesso a infraestruturas de supercomputadores é essencial para que startups e universidades brasileiras desenvolvam novos modelos de IA. (Fonte: Getty Image)

Um supercomputador é útil para realizar bilhões de operações por segundo, mas não consegue escolher quais problemas devem ser enfrentados, muito menos forma profissionais, ou aproxima universidades de empresas, nem garante que uma pesquisa se transforme em uma solução utilizada pela sociedade.   

O primeiro ponto, portanto, será definir quem poderá utilizar essa infraestrutura e em quais condições. Startups brasileiras, especialmente as que desenvolvem soluções de IA, enfrentam dificuldades para acessar capacidade computacional em escala. O custo de GPUs e de serviços de nuvem se torna um obstáculo para a criação de novas tecnologias e aplicações próprias.  

A formação profissional constitui outra peça fundamental. Um supercomputador exige equipes capazes de operá-lo, mantê-lo e utilizá-lo em projetos complexos, compostas por engenheiros de machine learning, cientistas de dados, especialistas em segurança, pesquisadores, profissionais de infraestrutura e pessoas capazes de compreender os problemas específicos de cada setor.  

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Entretanto, o Brasil não precisa formar apenas especialistas altamente técnicos. Para transformar capacidade computacional em ganhos econômicos, também serão necessários profissionais que consigam conectar tecnologia e negócios. 

São pessoas que entendam os problemas reais da sociedade e conseguem traduzi-los em oportunidades viáveis de produtos e serviços baseados em IA aplicada.  E esse profissional não se forma na academia tradicional. É forjado pela experiência prática na interseção entre mercados, negócios e possibilidades tecnológicas.

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A soberania tecnológica do Brasil exige transformar a capacidade de processamento em soluções práticas para saúde, educação e mercado. (Fonte: Getty Image)

Outro desafio será transformar pesquisa em produto. O Brasil possui universidades e pesquisadores extremamente qualificados, mas historicamente encontra dificuldades para converter produção científica em inovação disponível no mercado.   

O supercomputador precisa estar conectado a mecanismos de financiamento, ambientes de experimentação, programas de transferência tecnológica e compras públicas de inovação - que ultrapassem as etapas de P&D e viabilizem a chegada real de novas soluções ao mercado. O governo pode exercer um papel relevante como primeiro usuário de soluções desenvolvidas a partir dessa infraestrutura, por exemplo.   

Projetos bem estruturados em saúde, educação, fiscalização, meio ambiente e atendimento ao cidadão podem demonstrar resultados, gerar aprendizado e criar demanda para empresas nacionais.  

E é importante garantir que os recursos não fiquem só na infraestrutura de pesquisa, mas possam apoiar atividades de desenvolvimento de produto, estruturação de proposta de valor clara, desenvolvimento de modelos de negócio e de canais de comunicação e  relacionamento com clientes reais.   

Historicamente, muitas iniciativas de fomento à pesquisas inovadoras se concentravam a financiar apenas as fases de pesquisa e desenvolvimento, com pouco ou quase nenhum recurso para as fases de inserção efetiva das tecnologias no mercado, estrangulando a capacidade de dar o passo final de aplicação real pela sociedade.  

A discussão sobre soberania tecnológica também precisa ser conduzida com realismo. Instalar equipamentos no território nacional e controlar parte da infraestrutura reduz vulnerabilidades, mas não elimina a dependência externa. Chips, componentes, softwares e conhecimentos estratégicos ainda são produzidos por um grupo restrito de jogadores internacionais.   
 

Soberania, portanto, não deve ser entendida como isolamento ou independência absoluta. Ela significa ampliar a capacidade brasileira de escolher parceiros, operar tecnologias, desenvolver soluções próprias e evitar a dependência excessiva de um único país ou fornecedor. 


O anúncio do supercomputador mostra que o Brasil começou a compreender que inteligência artificial não se desenvolve apenas com boas ideias. Ela exige infraestrutura, investimento de longo prazo e capacidade de execução. Agora, será preciso garantir que esse poder computacional chegue a quem pode convertê-lo em valor.  

O sucesso do projeto não será medido somente pela quantidade de operações que a máquina conseguirá realizar, mas pelo que o Brasil conseguirá fazer com ela. O supercomputador pode fornecer a força de processamento. Mas serão as pessoas, as instituições e as empresas que precisarão transformá-la em inovação.

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