O mais novo capítulo da série de história da tecnologia é sobre uma fabricante que tá na pior fase possível e que pouca gente dá valor, mas que é bem maior e mais poderosa do que você imagina.

Estamos falando da ZTE, e você vai saber abaixo de onde ela veio, por que ela é tão importante para o mercado atual e também para onde pode ir depois de acontecimentos recentes.

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O começo discreto

A ZTE foi fundada em 1985 em Shenzhen, na China, por um grupo de investidores da área aeroespacial. O nome original era Zhongxing Semiconductor, e ela já começa como várias empresas de tecnologia do país: ligada ao governo e com contratos em ministérios. Ela ficou dois anos só no setor público atuando com pesquisa, desenvolvimento e exploração espacial.

A palavra Zhongxing é uma cidade e significa restauração ou ressurgimento. Ela se refere a dois episódios históricos da China, um deles a retomada da dinastia Xia ao poder no território.

Pessoas sentadas.

Só em 1987 sai o primeiro produto da marca em telecomunicações. É o ZX-60, um controlador para terminais telefônicos. Até o fim dos anos 80, ela lança mais componentes pra centrais de telefonia e faz o nome na área.

Fazendo o nome

Em 93, ela finalmente muda o nome para Shenzen Zhongxing New Telecommunications Equipment, e adota a sigla ZTE. No ano seguinte, lança um terminal telefônico pra 2.500 linhas que vira um fenômeno em hotéis, empresas e estações. E em 95, vira a primeira empresa da China com certificação ISO 9001 de qualidade de equipamentos.

Um terminal telefônico.

O ano de 1997 é marcado pela primeira oferta de ações da marca na sua terra natal e um marco: a primeira empresa pública na área que vira independente economicamente via fundo privado. Já em 98, ela é a primeira chinesa a assinar um contrato de telefonia no Paquistão. Ela também abre um centro de pesquisa nos Estados Unidos pra software e componentes.

No fim de 99, a ZTE apresenta um telefone celular chamado ZTE 189, o primeiro chinês com duas frequências de transmissão. Em 2000, ela lança o primeiro dispositivo CDMA do mundo com cartão SIM destacável.

Dois celulares.

CDMA significa Acesso Múltiplo por Divisão de Código e é uma tecnologia alternativa ao GSM pra telefonia, mais recomendada pra arquivos e transmissões multimídia. A ZTE era dona de 40% dos pedidos globais pra redes CDMA, mas também investiu em GSM e chegou a ser a terceira do mundo nesse segmento.

Agora é mundial

Só em janeiro de 2002 ela abre a divisão de smartphones com foco em mercado internacional. Pois é, até aqui, a ZTE era uma companhia de atuação puramente na Ásia e ainda sem lançar o que mais fez ela ficar conhecida pelo público, que são telefones inteligentes. Buscando reconhecimento internacional, o nome muda de novo, agora só pra ZTE.

Uma logo.

Ela faz uma oferta global de ações em 2004 e traz números recordes em tecnologia sem fio, terminais e telefonia. Ainda em 2004, ela lança o GoTa, ou Global Open Trunking Architecture, uma tecnologia de backbone pra telefonia forte na Ásia e na Europa baseada em CDMA.

Em 2005, ela vira a maior fornecedora de equipamentos sem fio da China, e até ao fim de 2007 registra cerca de 12 mil patentes.

Lançamentos curiosos

E a ZTE fez parcerias exclusivas com países emergentes. O Vergatario, de 2009, foi vendido só na Venezuela e apresentado pelo presidente Hugo Chavez. Também de 2009, o S212 foi o primeiro da ZTE com carregamento solar e chegou ao Brasil.

Um celular.O Vergatario.

O Orange Rio, de 2010, foi lançado em poucos mercados e era uma alternativa aos BlackBerry. Nesse mesmo ano apareceu o ZTE Racer, que de corredor não tinha nada e era um Android bem modesto. Ele só é lembrado porque foi o antecessor do ZTE Blade, também de 2010, um nome que deu origem a uma linha inteira de telefones da marca que durou vários anos.

Um smartphone.O ZTE Blade.

Já em 2011, a ZTE lança dois smartphones que merecem destaque. O primeiro é o ZTE Fashion, que ironicamente foi considerado brega pela indústria tanto em aparência quanto em recursos. Nessa época, as fabricantes apostavam nesses aparelhos ligados com moda, tipo o LG Prada. O LG Skate era mais pé no chão e focava no segmento "bom e barato".

Um celular.

Em 2012, sai o primeiro ZTE com Windows Phone, o Tania. Esse também foi o ano do Orbit, que tinha Windows Phone 7.5 e foi o primeiro do sistema da Microsoft com NFC.  Só que eles não conseguiam competir contra os Lumia, da mesma faixa de preço, mas melhor qualidade de fabricação. O ZTE Era ficou marcado pelo processador quad-core Tegra 3 da NVIDIA.

O catálogo só cresce 

Com tantos lançamentos, em 2012 ela é a quarta maior vendedora de telefones do mundo. E nesse ano ela passa a abrigar uma subsidiária. É a Nubia, que começa a lançar smartphones e se torna independente em 2015. Ninguém menos que Cristiano Ronaldo é o atual garoto propaganda e promoveu o Nubia 17 e 17S.

Vários smartphones.

Em tablets, a ZTE foi mais modesta, mas também apostou no mercado de baixo valor. Dá pra falar aqui do V9, de 2011, e do V81, de 2013. O ZTE Grand S tinha um visual bem interessante e foi o primeiro grande sucesso da marca nos Estados Unidos.

Mas as estranhezas retornam com o ZTE Open, um smartphone de entrada pra desenvolvedores que queriam testar apps no Firefox OS, e vendido só na Espanha. E pra não dizer que ela fica só em celular, em 2014 saiu o Android Projector Hotspot, que como o nome diz, mistura dois aparelhos bem diferentes: um projetor de imagem e um hotspot de conexão.

Um projetor.

O ano de 2015 marca a estreia da família Axon, a principal linha da ZTE nos últimos anos. E também o lançamento do Grand S3, primeiro do mercado com bloqueio via leitura de retina.

Os filhos mais novos

Em 2017, a ZTE apresenta o ambicioso smartphone Axom M, com duas telas divididas ao meio. Ele foi elogiado pelo funcionamento, mas tinha problemas de uso.

Um celular.

Nesse ano, ela ousou ainda mais com o projeto Hawkeye, um celular colaborativo que teve as características escolhidas pela comunidade, como rastreamento do olho e traseira autoadesiva, e foi financiado via Kickstarter. Só que no fim das contas, ele ficaria caro demais. A ZTE teve que cancelar o crowdfunding e baixar as especificações técnicas. Ele está atualmente no limbo.

Uma pessoa.

A empresa fornece produtos e serviços pra mais de 140 países e 500 operadoras, e esses acordos garantiam que ela sempre estivesse bem financeiramente. Ela também lançou um laboratório em conjunto com a Texas Instruments, Intel, IBM, Qualcomm e Microsoft.

A ZTE ainda foi uma das pioneiras da plataforma Android GO de baixíssimo custo. O smartphone Tempo GO, de 2018, custa 80 dólares e foi o primeiro do segmento no Ocidente.

E o Brasil?

Mas antes de falar de hoje, é hora de vir pro nosso território. A ZTE estudou vir pra América Latina em 2001 e chegou no final de 2002. O país é chave pra treinamento, suporte técnico e atendimento ao cliente em toda a região. O ano de 2006 é considerado o primeiro com presença local fortalecida e já rendeu faturamento anual nacional de 20 milhões de dólares.

Além de trazer vários aparelhos de entrada, a ZTE lançou no fim de 2011 os celulares R236 personalizados pra times de futebol, com cores de grandes clubes e especificações modestas. Tem também o R228 Barbie, todo rosa e personalizado.

Quatro celulares.

Nesse ano, Dilma Rousseff anunciou uma fábrica da ZTE em Hortolândia pra lançar tablets. E tem outra novidade nesse ano que marcou muito o brasileiro: o V821 saiu em 2011 e foi o primeiro dual chip Android do país. Dois anos antes, ela trouxe o primeiro brasileiro com NFC, o R233.

Em 2012, ela parou de vender celulares no Brasil até cerca de 2016, por conta de erros estratégicos e dos altos impostos. Ela voltou em 2016 com cinco smartphones de uma vez, incluindo o Blade A510 e Blade L5. O foco seria o de smartphones mais acessíveis.

Um smartphone.O Blade A510, parte do renascimento da marca no Brasil.

Por aqui, a ZTE tem soluções em redes tradicionais e sem fio, além de tecnologia CDMA e GSM. Em 2014, assinou com a TIM pra trazer a Ultra Banda larga móvel ao país. A matriz e a principal fábrica ficaram em São Paulo, mas ela teve escritórios em outras capitais.

É o fim?

Só que a crise bateu forte a partir de 2017 por causa de uma prática comercial, e em 2018 deu tudo errado de uma vez. Tudo começou com uma denúncia de que ela e a também chinesa Huawei estariam vendendo tecnologias e componentes pra Coreia do Norte e Irã, países com bloqueios comerciais dos Estados Unidos.

A ZTE é chinesa, mas o mercado norte-americano é o maior dela em produto e em importação de componentes. Para você ter ideia, 9,5% do mercado de smartphones por lá é dela, ficando em quarto lugar.

A punição saiu em abril de 2018: multa pesada e a proibição de comprar componentes de empresas dos Estados Unidos. 

Ela até poderia ser proibida de usar o Android. Como consequência, em maio, a ZTE anunciou que encerraria as operações principais de produto, e tirou toda a loja norte-americana do ar. Nas fábricas na China, os funcionários ou participam de treinamentos ou simplesmente ficam sem nada pra fazer. A ZTE estuda o que fazer e deve continuar forte em infraestrutura, mas em telefones pode ser o fim dessa empresa.

Duas pessoas se cumprimentandoTrump e Xi Jinping.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e da China, Xi Jinping, estudam atualmente uma forma de não deixar um nome tão pesado simplesmente desaparecer, mas a negociação vai ser uma novela e pode envolver ainda mais multas — atualmente, o valor está em US$ 1 bilhão e envolve a troca da diretoria, mas o Senado norte-americano rejeitou a atual proposta. Isso ainda vai longe.

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E essa é a história da ZTE, uma marca chinesa que é gigante, mas a gente acaba sabendo muito pouco sobre ela. E pelo que tá acontecendo atualmente, isso pode não ter um final feliz. Se você quiser ver a história de uma empresa, produto ou serviço contada aqui na série, é só deixar a sugestão nos comentários.