Nós, que estamos imersos no mundo da tecnologia, tendemos a ficar impressionados com novas funcionalidades em smartphones. Quanto mais exótico e futurista, melhor. A gente raramente se importa com o trabalho que pode ser aprender a lidar com essas novidades e até achamos isso interessante. Só que nós somos a minoria. Analistas de mercado e estudiosos há muitos anos perceberam que o grande público não gosta tanto assim de inovação, apesar de esperar um pouquinho de novidade aqui e ali.

Designers deveriam implementar mudanças em seus produtos com cautela para não exagerar na mão

Foi pensando nisso que o designer Raymond Loewy criou a logo da Coca-Cola e também como ele cunhou o termo “Princípio MAYA”. MAYA, na verdade, significa “Most Advanced, Yet Acceptable” ou “o mais avançado, porém aceitável” em português. De acordo com esse princípio, designers — de qualquer tipo de produto — deveriam implementar mudanças em seus produtos com cautela para não exagerar na mão. A ideia é aqui é encontrar um equilíbrio entre novidade e familiaridade, uma vez que este segundo é mais importante.

Loewy pregava que o usuário médio não está disposto a adotar um produto que parece muito complicado ou muito diferente daquilo com o que ele já está acostumado. Dessa forma, o designer precisa implementar pequenas mudanças gradualmente para fazer seus consumidores se acostumarem aos poucos com alguma coisa.

interaction designEvolução do iPod ao longo dos anos

No campo dos eletrônicos, a Apple vem sendo mestre nessa arte do Princípio MAYA. Após lançar o iPod original, a empresa foi implementando mudanças graduais ano a ano, aumentando a tela e diminuindo os comandos físicos. Eventualmente, o iPod se tornou um aparelho que era quase que completamente tela e, em seguida, ganhou conectividade celular.

Foi aí que nasceu o iPhone, a partir de um processo gradual que a Apple foi desenvolvendo com os anos, entregando novidades aos usuários aos poucos. A empresa também tomou o cuidado de manter a interface desses produtos minimamente familiar, para facilitar a transição. Com o passar dos anos, a marca mudou muito pouco seus iPhones, levando vários anos para modificar significativamente o design tanto do hardware quanto do software.

phonearenaEvolução dos iPhones ao longo dos anos

Os iPhones de 2018 ainda possuem essencialmente o mesmo design dos iPhones de 2014, com apenas algumas mudanças pontuais. Isso porque a Apple não é exatamente a empresa que tem como objetivo atrair os aficionados em tecnologia, que gostam de adotar novidades antes de todo mundo. Em 2017, entretanto, a empresa lançou o iPhone X, que representa um grande salto evolutivo, totalmente fora do Princípio MAYA. Esse dispositivo foi feito para anunciar como seria o futuro do iPhone para o grande público e também para agradar os aficionados, que estavam em grande parte ficando cansados da mesmice.

A chegada do iPhone X foi uma forma dar um grande salto, mas a existência dos iPhones 8 mostra que a empresa não quis abandonar a massa

Talvez a Apple levou o MAYA muito a sério por muitos anos e, eventualmente, ficou muito para trás de suas concorrentes. A chegada do iPhone X foi uma forma dar um grande salto, mas a existência dos iPhones 8 mostra que a empresa não quis abandonar a massa que prefere mudanças pequenas e graduais. Eles se tornaram um plano B, para o caso do iPhone X não se tornar um sucesso estrondoso.

Muita gente atribui o sucesso da Apple ao cuidado da empresa em seguir o Princípio MAYA e, com isso, ter mais tempo para polir seus produtos a fim de oferecer sempre uma experiência de uso muito agradável e consistente.

O lado verde da força

Por muitos anos, os smartphones Android sempre foram produzidos para superar o iPhone do momento, o que impedia as fabricantes de aparelhos do Robô de seguir o MAYA. O objetivo principal para essas empresas era chamar a atenção do consumidor. Assim, criou-se a corrida das especificações e também das funcionalidades diferentes. Mas, como o grande público prefere o familiar, os iPhones ainda são os smartphones mais vendidos do mundo.

galaxy note edgeO Galaxy Note Edge foi o primeiro aparelho da Samsung com tela curva.

A Samsung, contudo, se cansou de correr na competição das especificações e, há alguns anos, começou a seguir o MAYA. Um bom exemplo é a introdução das telas curvas em seus dispositivos. O primeiro modelo a trazer esse recurso foi o Note Edge de 2014. Na época, ele tinha apenas um lado da tela curvo e ainda existia uma versão tradicional, com tela plana. Gradualmente, a coreana foi incluindo telas curvas em todos os seus top de linha até que, em 2017, todos eles tinham os dois lados da tela curvados. Ainda assim, a curvatura dos aparelhos de hoje é bem menor do que vimos no início.

Em função disso, a Samsung se estabeleceu como a maior fabricante de aparelhos móveis do mundo

Também é possível perceber o Princípio MAYA nos aparelhos da Samsung no restante do design. Agora, eles implementam mudanças graduais de um ano para o outro. A adoção das câmeras duplas também demorou a ocorrer nos aparelhos Samsung por conta do MAYA. Em função disso, a Samsung se estabeleceu como a maior fabricante de aparelhos móveis do mundo. Sua única concorrente real é a Apple, mas a Maçã — ainda que muito bem-sucedida — vende uns 30% a menos que a coreana.

No fim das contas, o mercado de smartphone, e praticamente qualquer outro tipo de indústria, precisa seguir esse princípio. Lançar novidades sempre que for tecnicamente possível agrada muito aos early adopters, mas esse grupo é muito diminuto em comparação com o restante da população. É por isso que novas marcas sempre surgem tentando agradar esses aficionados e, gradativamente, vão abandonando nos abandonando em favor da grande massa, que é onde está o lucro de verdade.

Galaxy S9Ambas as bordas de todos os top de linha da Samsung agora são curvadas

Aparelhos da Apple e da Samsung não nos interessam mais porque essas empresas não estão fazendo celulares para o nosso grupo

É por isso também que a nossa comunidade é tão fascinada com aparelhos chineses, que são muito inovadores e diferentes. Aparelhos da Apple e da Samsung — e cada vez mais os da Motorola, da Sony e de outras marcas estabelecidas — não nos interessam mais porque essas empresas não estão fazendo celulares para o nosso grupo, mas sim para a massa.

Entendeu agora porque a grande maioria das pessoas adora a Apple e a Samsung? Essas empresas já construíram uma marca muito reconhecível, que é familiar para muita gente. Quem está comendo pelas beiradas começa a chamar a nossa atenção, mas, eventualmente, temos que partir para outra.

A questão que fica é: quando OnePlus, Xiaomi e outras marcas do tipo vão deixar de atrair a atenção da comunidade aficionada em tecnologia?

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