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Cerca de 30% das pessoas nos EUA já namoraram uma IA? Não é bem assim

Pesquisa que circulou em sites fala de tema sério e que já traz consequências, mas tem dados limitados e uma metodologia imprecisa

Avatar do(a) autor(a): Nilton Cesar Monastier Kleina

schedule03/10/2025, às 17:00

updateAtualizado em 11/02/2026, às 08:52

O tema inteligência artificial (IA) está quente na indústria e gera algumas preocupações sérias, mas pode também vir acompanhado de desinformação ou interpretações equivocadas. É o caso de um estudo que circulou nos últimos dias envolvendo chatbots e a vida afetiva nos Estados Unidos.

De acordo com a pesquisa, 28,16% dos adultos no país disseram "ter ao menos uma relação romântica ou íntima com uma IA". Além disso, pessoas mais jovens são as que mais tendem a engajar em um romance virtual com chatbots, enquanto aquelas com ao menos 60 anos são mais propensas a pensar que esse tipo de relacionamento não é traição.

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O estudo aponta ainda que "mais da metade" dos estadunidenses "disse ter algum tipo de relação" com um sistema de chatbot, o que pode significar também amizade, companheirismo ou confidência. Entre os 30 serviços citados, o ChatGPT e a Character.AI foram as mais listadas, seguidos por Alexa, Siri e Google Gemini.

Tanta gente assim se relaciona com IAs?

Após a viralização da pesquisa, entretanto, alguns questionamentos pertinentes começaram a surgir a respeito da metodologia utilizada.

  • O estudo foi encomendado e realizado pelo Vantage Point, um serviço de aconselhamento e terapia localizado no Texas que oferece serviços inclusive sobre relacionamentos;
  • Ao todo, foram entrevistados 1.012 adultos moradores dos EUA, que responderam a um questionário do SurveyMonkey sobre o tema;
  • Como o texto não está em formato de artigo científico, ela não foi revisada por outros pesquisadores e também não é transparente sobre como essas pessoas foram encontradas, o que traria mais dados sobre distribuição geográfica e faixa etária, por exemplo;
  • O tipo de abordagem e a instituição responsável pela pesquisa levanta a dúvida sobre os participantes serem todos clientes da empresa — o que gera uma tendência para que essas pessoas estejam passando por algum problema nos relacionamentos, algo também não identificado no texto original;
  • Pesquisas mais complexas trazem resultados bem diferentes: um estudo da Family Studies/YouGov diz que só 1% das pessoas abaixo dos 40 anos "já têm uma companhia de IA" e 7% estariam abertos a isso. Outra, conduzida pelo Match.com com o Kinsey Institute, indica que 15% dos entrevistados “já interagiram com uma IA como uma companhia romântica”.

Relação afetiva com IAs é tema sério e exige cuidados

De qualquer modo, nos próximos anos vários outros estudos com as mais diversas metodologias e amostragens deve trazer um cenário mais completo sobre o atual nível de dependência emocional de pessoas em relação a chatbots — e esses dados já são importantes para trabalhos de prevenção de regulamentação.

Nos últimos dois anos, há casos como de dois jovens moradores dos EUA que, com menos de um ano de diferença entre as histórias, tiraram a própria vida depois de meses interagindo com um chatbot de ficção que atuava como namorada, além do idoso que se acidentou ao sair para um encontro em um endereço fornecido por uma IA com quem ele mantinha conversas amorosas.

 

Plataformas como o ChatGPT reduziram a tendência a paquerar usuários recentemente, em especial após as denúncias ou processos movidos contra as empresas. O mesmo vale para a relação desses sites com crianças, já que o comportamento dos chabots pode ser manipulado para se tornar até criminoso.

Você sabe o que são realidades sintéticas e qual pode ser o papel do Brasil nessa área cheia de potencial? Confira a resposta neste artigo!

Perguntas Frequentes

É verdade que quase 30% dos adultos nos EUA já namoraram uma IA?
Não exatamente. A pesquisa afirma que 28,16% dos adultos entrevistados disseram "ter ao menos uma relação romântica ou íntima com uma IA", mas o estudo apresenta limitações metodológicas e não foi revisado por pares, o que levanta dúvidas sobre a representatividade e precisão dos dados.
Quem realizou a pesquisa sobre relacionamentos com IA?
A pesquisa foi encomendada e realizada pelo Vantage Point, um serviço de aconselhamento e terapia localizado no Texas, que também atua na área de relacionamentos. O questionário foi aplicado por meio da plataforma SurveyMonkey.
Quantas pessoas participaram da pesquisa e como foram selecionadas?
Foram entrevistados 1.012 adultos residentes nos Estados Unidos. No entanto, o estudo não detalha como essas pessoas foram selecionadas, nem fornece informações sobre distribuição geográfica ou faixas etárias, o que compromete a transparência e a confiabilidade dos resultados.
O que significa "ter algum tipo de relação" com uma IA, segundo a pesquisa?
A expressão pode incluir diferentes formas de vínculo, como amizade, companheirismo ou confidência, além de relacionamentos românticos. Mais da metade dos entrevistados afirmou ter esse tipo de relação com um chatbot.
Quais são os chatbots mais citados na pesquisa?
Entre os 30 serviços mencionados, os mais citados foram o ChatGPT e o Character.AI. Outros nomes populares incluem Alexa, Siri e Google Gemini.
Há diferenças geracionais na forma como as pessoas se relacionam com IA?
Sim. A pesquisa indica que pessoas mais jovens são mais propensas a engajar em romances virtuais com chatbots. Já os adultos com 60 anos ou mais tendem a considerar que esse tipo de relacionamento não configura traição.
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