Você sabe o que é o “Efeito Streisand”? Ele acontece quando alguém tenta censurar um conteúdo na internet e, em vez de conseguir, faz com que o assunto seja ainda mais popularizado. Ele foi batizado em 2003 quando a cantora Barbra Streisand brigou para que uma foto de sua residência fosse apagada, gerando um número absurdo de visualizações da imagem. No Brasil, isso já aconteceu com artistas como Xuxa e Daniela Cicarelli. O exemplo mais recente desse efeito ocorreu em nível mundial, tendo a Coreia do Norte e o filme “A Entrevista” como protagonistas.

A comédia estrelada por Seth Rogen e James Franco conta a história de dois jornalistas que recebem da CIA a missão de assassinar o “Grande Líder” da Coreia do Norte, Kim Jong-un, enquanto visitam o recluso país. O desenrolar da história na vida real você provavelmente já sabe: o político não curtiu a sátira e, de acordo com o FBI, encomendou um ataque hacker massivo aos servidores da Sony Pictures, causando o vazamento de filmes, emails e roteiros do estúdio, além de muito prejuízo e a ordem para proibir o lançamento da película.

Mas, afinal, Kim Jong-un tem motivos para reclamar de “A Entrevista” e tentar sabotar uma empresa inteira para impedir que o filme veja a luz do dia? O TecMundo conferiu o polêmico longa-metragem, que estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos e foi vendido online em serviços como YouTube e Google Play.

Alerta de spoiler

Antes de entrarmos em detalhes específicos da trama, vale uma pausa para deixar o alerta: esta crítica contém spoilers. Se você continuar lendo, pode saber de alguma informação que acabará estragando o aproveitamento do filme. Nós avisamos.

Uma viagem muito louca

A dupla Seth Rogen e James Franco é uma das mais surtadas de Hollywood. Eles já estrelaram juntos comédias como “É o Fim” e “Segurando as Pontas”, cheias de referências ao uso de drogas e viagens alucinógenas diversas. Em “A Entrevista”, não há essa apologia, mas o roteiro parece fruto de uma bad trip intensa.

Franco vive Dave Skylark, popular apresentador de um talk show especializado em humilhar os convidados e só promover temas inúteis. Rogen é o produtor Aaron Rapaport, que, dos bastidores, conduz a atração e faz com que ela seja um sucesso — tendo até o ditador Kim Jong-un (Randall Park) como um dos fãs. Convocados primeiro para entrevistar o político e depois para matá-lo, os dois se envolvem em muitas confusões para ao menos saírem vivos do país.

Não dá para negar que o roteiro é criativo e muito maluco. Ele é recheado de piadas, claro, mas há espaço para uma verdadeira salada de subtramas, como o desenvolvimento dos personagens (especialmente a amizade da dupla) e, na metade final, muitos tiros, explosões e até dedos decepados. Essa loucura é surpreendente e joga a favor do filme: você espera cenas mais tranquilas e, de repente, dá de cara com uma perseguição envolvendo um tanque e um helicóptero militar. Sensacional!

Com relação à comédia em si, não adianta generalizar: você não vai explodir de tanto rir, mas também não vai passar as quase duas horas de projeção de cara amarrada. O problema é o mau gosto de certas tiradas e o exagero de piadas com o órgão genital masculino ou com a higiene pessoal do ditador.

Em alguns momentos, a primeira piada da cena é excelente, mas ela se alonga tanto que fica constrangedora. Você ainda vai passar por alguns déjà vu ao jurar que a mesma coisa já havia sido dita minutos antes no filme. Talvez o maior culpado aqui sejam os diretores. Rogen e Evan Goldberg (parceiro de longa data da dupla) sabem filmar, mas parece que o ego às vezes passa dos limites.

Isso tira tempo de conteúdos que poderiam ser mais bem explorados. Temas como o conteúdo da televisão dos Estados Unidos e a necessidade de o país de interferir militarmente em outras nações são interessantes, mas passam voando como um míssil norte-coreano pela trama, que insiste em vários minutos de Franco cantando a agente Lacey (Lizzy Caplan) ou Rogen tentando se envolver com uma assessora norte-coreana durona (Diana Bang). As referências a Katy Perry também se repetem demais, mas o uso da canção “Firework” na trilha sonora e em um dos diálogos é uma bela sacada.

Explorando a “Melhor Coreia”

A ambientação da Coreia do Norte é engraçada: a cidade retratada aparece “maquiada”, com um mercado cheio de alimentos falsos, pessoas aparentemente felizes ou saudáveis e muitas homenagens ao ditador. Militares que trabalham para Jong-un são retratados com desconfiança em relação ao jovem líder, e a população, enganada pela imprensa local, acha que a vida no país está boa.

Essas críticas são todas bastante pertinentes, mas já são feitas há anos em documentários, reportagens e artigos sobre a Coreia do Norte. Ou seja, embora toque em pontos importantes, não há novidade no conteúdo, e tudo é tratado de forma rasa — apesar de ofensiva, claro.

Quando o assunto é zoar outro país, o filme lembra muito “Borat”, com a diferença de que o Cazaquistão não ameaçou bombardear Sacha Baron Cohen depois da estreia, e “Team America – Detonando o Mundo”, que tira muito mais sarro de Kim Jong-il, pai do atual ditador.

Kim Jong-un, um sujeito bacana

Randall Park é talvez o ator que mais mereça destaque aqui. Ele conseguiu retratar um Kim Jong-un que não se parece em nada com o que vimos nas escassas imagens públicas do ditador — e, por isso mesmo, transforma o “Grande Líder” em alguém simpático e gente boa.

A fragilidade e a insegurança do político, assim como os momentos de raiva, rendem situações cômicas. Para gerar um drama, ele desenvolve uma amizade com Dave após uma noite de festa e tenta “converter” o jornalista. Franco também brilha na interpretação e faz um apresentador frenético, mas de bom coração.

Muito barulho, muito dinheiro

Só nas vendas online, a Sony Pictures já lucrou mais de US$ 31 milhões (cerca de R$ 83 milhões) com o longa-metragem. O filme ainda vai estrear em cinemas de todo o mundo e ganhar lançamento em mídias físicas, mas dificilmente vai pagar todos os gastos (quase US$ 80 milhões, aproximadamente R$ 214 milhões) – mesmo assim, a arrecadação não deixa de ser comemorada pelo estúdio.

No fim das contas, a maior piada de “A Entrevista” é que se a Coreia do Norte não interferisse, o filme provavelmente passaria quase despercebido pelos cinemas, com críticas majoritariamente negativas e uma bilheteria no máximo razoável — mas toda a polêmica envolvendo a Sony Pictures o fez bombar e ganhar muito mais publicidade do que merecia. Vale lembrar, entretanto, que a invasão hacker causou prejuízos e constrangimentos à empresa.

Quer matar a curiosidade de saber o fim de Kim Jong-un sem ter que ver o resultado completo, que é nada mais que razoável? O filme, agora vendido exageradamente como “o mais controverso de todos os tempos”, já teve a cena final divulgada na internet. Clique aqui para assistir.

 “A Entrevista” estreia nos cinemas brasileiros em 29 de janeiro de 2015.

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