Depressão: mulher é tratada com sucesso usando implante cerebral elétrico

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Imagem: John Lok | UCSF 2021
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A depressão é considerada o mal do século por muitos especialistas. Terapias e medicamentos são receitados com frequência, mas há pacientes graves que não reagem da forma esperada e desenvolvem uma forma resistente e debilitante da doença. Agora, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, conseguiram tratar com sucesso uma paciente com depressão severa por meio do uso de um implante cerebral elétrico.

Os pesquisadores acessaram o circuito cerebral específico de Sarah — como a paciente de meia-idade pediu para ser chamada —, encontrando seus padrões depressivos e os redefinindo. A equipe modulou o circuito exclusivamente para os sintomas dela, o que aponta para a possibilidade de personalização do tratamento conforme a configuração cerebral de cada paciente. O estudo foi publicado no dia 4 de outubro, na revista científica Nature Medicine.

Sarah, paciente em ensaio clínico, em consulta com a pesquisadora Katherine Scangos, MD, PhD, no Instituto Psiquiátrico Langley Porter, na UCSFSarah, paciente em ensaio clínico, em consulta com a pesquisadora Katherine Scangos, MD, PhD, no Instituto Psiquiátrico Langley Porter, na UCSFFonte:  Maurice Ramirez | UCSF 2021 

Segundo um comunicado da universidade, o sucesso da equipe é resultado de um esforço de anos para aplicar os avanços da neurociência no tratamento de transtornos psiquiátricos. "Este estudo aponta o caminho para um novo paradigma que é desesperadamente necessário na psiquiatria", afirmou, no comunicado, o professor de psiquiatria Andrew Krystal.

”Ensaios clínicos anteriores mostraram sucesso limitado no tratamento da depressão com estimulação cerebral profunda tradicional (DBS), em parte porque a maioria dos dispositivos só pode fornecer estimulação elétrica constante, geralmente apenas em uma área do cérebro. Um grande desafio para o campo é que a depressão pode envolver diferentes áreas do cérebro em pessoas diferentes", explicou Krystal.

"O que tornou este ensaio de prova de princípio bem-sucedido foi a descoberta de um biomarcador neural — um padrão específico de atividade cerebral que indica o início dos sintomas — e a capacidade da equipe de personalizar um novo dispositivo DBS para responder apenas quando reconhecer esse padrão", afirmou o professor. O dispositivo desenvolvido na pesquisa é capaz de estimular uma área diferente do circuito cerebral, "criando um tratamento imediato sob demanda".

"A abordagem customizada aliviou os sintomas de depressão do paciente quase imediatamente", disse Krystal. Segundo o professor, os efeitos duraram por mais de 15 meses, tempo em que Sarah teve o dispositivo implantado. "Para pacientes com depressão resistente ao tratamento de longo prazo, o resultado pode ser transformador", afirmou o professor.

E Sarah confirma: “Eu estava no fim da linha. Eu estava gravemente deprimida. Eu não poderia me ver continuando se isso fosse tudo que eu seria capaz de fazer, se eu nunca pudesse ir além disso. Não era uma vida que valesse a pena”, disse, no comunicado.

Mapeando o cérebro depressivo

A pesquisa começou após outro estudo da universidade, que buscou entender a depressão e ansiedade em pacientes submetidos a tratamento cirúrgico para epilepsia, nos quais transtornos de humor são comuns. A equipe descobriu padrões de atividade elétrica do cérebro que se correlacionam com estados de humor e identificou novas regiões cerebrais que poderiam ser estimuladas para aliviar o humor deprimido.

Com esses resultados como guia, Krystal e a primeira autora do novo estudo, Katherine Scangos, em parceria com o autor do estudo anterior, o neurocirurgião Edward Chang, desenvolveram uma estratégia baseada em duas etapas que nunca havia sido usada na pesquisa psiquiátrica: mapear a depressão de um paciente.

Para personalizar a terapia, Chang colocou um dos eletrodos do dispositivo na área do cérebro onde a equipe havia encontrado o biomarcador e o outro eletrodo na região do circuito de depressão de Sarah, onde a estimulação melhora os sintomas de humor. O primeiro eletrodo monitorava constantemente a atividade; e quando detectava o biomarcador, sinalizava ao outro eletrodo, que administrava uma pequena dose (1mA) de eletricidade por 6 segundos. Isso fazia a atividade neural mudar.

Segundo o comunicado da UCSF, Sarah obteve progresso real após anos de terapias fracassadas. “Nos primeiros meses, a diminuição da depressão foi tão abrupta, que eu não tinha certeza se duraria”, disse ela. Mas durou. Segundo a equipe, a combinação deu a ela uma perspectiva sobre gatilhos emocionais e pensamentos irracionais pelos quais ela costumava ser obcecada. “Agora esses pensamentos ainda surgem, mas é só ... puf ... o ciclo para”, afirmou a paciente.

A equipe adicionou mais dois pacientes no ensaio clínico e espera adicionar mais nove em breve. A ideia agora é observar as variações entre indivíduos. Embora o estudo aponte caminhos para o tratamento da depressão severa, a aprovação para uso por agências reguladoras ainda tem um grande percurso pela frente, como lembrou o professor Krystal. Mas agora, o caminho já foi pavimentado.

ARTIGO Nature: doi.org/10.1038/s41591-021-01480-w.