Asteroide que matou dinossauros segue moldando a vida onde caiu

3 min de leitura
Imagem de: Asteroide que matou dinossauros segue moldando a vida onde caiu
Imagem: Fonte: Freepik/kjpargeter/Reprodução.
Avatar do autor

O asteroide que causou a última extinção em massa na Terra segue impactando a vida em seu entorno, pois os microrganismos que habitam as rochas nas profundezas da cratera onde ocorreu o impacto que dizimou os dinossauros, em Chicxulub, no México, ainda são influenciados pelo evento – mesmo 66 milhões de anos depois.

Local do impacto do asteroide em Chicxulub, na Península de Yucatán, no México.Local do impacto do asteroide em Chicxulub, na Península de Yucatán, no México.Fonte:  Gulick et al. (2008) / Reprodução. 

Em um artigo publicado no dia 24 de junho, no jornal científico Frontiers in Microbiology, pesquisadores da Universidade Curtin, em Bentley, na Austrália, contam como usaram sequenciamento de genes, contagens de células e experimentos de incubação para estudar as comunidades de microrganismos da cratera de Chicxulub.

Microrganismos estudados a fundo

Bettina Schaefer, autora do estudo e candidata a PhD pelo WA-Organic and Isotope Geochemistry Center (WA-OIGC) de Curtin, explicou ao site Phys que enquanto os impactos de asteroides causaram grandes mudanças nos organismos e ecossistemas que viviam na superfície, a cratera resultante pode ter-se tornado o lugar perfeito para nutrir uma nova vida. "O calor e a pressão do impacto criaram uma área esterilizada que causou a extinção localizada dos micróbios residentes", disse Schaefer.

Segundo a pesquisadora, cerca de um milhão de anos após o impacto, a cratera esfriou novamente, retornando a temperaturas baixas o suficiente para que a vida microbiana pudesse voltar a existir e evoluísse isolada da superfície da Terra pelos últimos 65 milhões de anos.

Microrganismos da cratera de Chicxulub passaram por diversos experimentos.Microrganismos da cratera de Chicxulub passaram por diversos experimentos.Fonte:  Pexels/Edward Jenner/Reprodução 

O geomicrobiologista Marco Coolen, professor associado do WA-OIGC, disse que o estudo encontrou bactérias pobres em nutrientes nas rochas graníticas fraturadas pelo impacto e ainda relativamente quentes – cerca de 70 °C, nas partes mais profundas da cratera. Essas bactérias eram significativamente diferentes das presentes na camada de entulho que encheu o local imediatamente após o impacto e dos micróbios presentes nos sedimentos marinhos depositados na cratera milhões de anos depois.

O estudo apontou que, enquanto em ambientes próximos à superfície os impactos de asteroides mostraram aumentar a porosidade e permeabilidade das rochas, aumentando a colonização microbiana, nas rochas sedimentares, a porosidade, que muitas vezes já é acessível para os micróbios, pode ter sido reduzida pelo impacto, resultando em uma perda de espaço para colonização.

Repercussão do estudo

"As descobertas nos deram uma visão sobre a vida microbiana em ambientes extremos e de que maneira a vida se recupera desses grandes eventos, como colisões de asteroides", disse Coolen. O professor seguiu: “Como a biosfera microbiana profunda desempenha um papel importante no ciclo global do carbono, é interessante investigar como as comunidades microbianas foram capazes de se recuperar desse evento geológico catastrófico".

Com a crescente preocupação de que um possível desastre ecológico gerado pelo homem aconteça, ou mesmo outro asteroide caia, os pesquisadores acreditam que estudos sobre de que modo a vida na Terra respondeu às principais mudanças ambientais, ecológicas e evolutivas – como extinções em massa do passado geológico – são cruciais para uma maior compreensão da resiliência da vida na Terra, que é tema de uma pesquisa maior, liderada pelo coautor John Curtin, diretor e fundador do WA-OIGC.

Marte é a próxima fronteira

Segundo os cientistas, as observações feitas têm aplicação na busca por vida em outros planetas – particularmente em Marte. O subsolo profundo em Chicxulub mostra que grandes impactos geram interfaces geológicas profundas, que favorecem o fluxo de fluido, o que aumenta a diversidade mineral e, portanto, a acessibilidade tanto de nutrientes quanto de energia no subsolo.

"Um número substancial de grandes crateras de impacto em Marte foi preservado desde sua história inicial devido à falta de placas tectônicas", segundo a conclusão do estudo. Embora em contraste com Chicxulub, a crosta marciana seja basáltica, a subsuperfície fraturada e porosa das grandes crateras de impacto em Marte são lugares propícios para focalizar missões de exploração científica em busca de ambientes habitáveis – e até mesmo testar a hipótese da presença de vida em Marte.

Asteroide que matou dinossauros segue moldando a vida onde caiu