Pesquisadores sequenciam DNA de mamute de 1,2 milhão de anos

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Imagem: Gleb Danilov/Divulgação
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Em 1970, o paleontólogo russo Andrei V. Sher encontrou, na terra eternamente congelada da Sibéria (chamada por isso de permafrost) restos mortais de inúmeros mamutes; um deles, os pesquisadores estimaram que havia morrido há 1,2 milhão de anos. Foi preciso meio século para que pesquisadores recuperassem o que de mais precioso esses restos guardavam: seu DNA, o mais antigo do mundo.

"Esta é a primeira vez que o DNA de espécimes de milhões de anos foi sequenciado e autenticado, e extraí-lo dos dentes molares foi um desafio", disse o paleontólogo e geneticista evolutivo Love Dalén, do Centro de Paleogenética, ligado ao Museu Sueco de História Natural e à Universidade de Estocolmo. Os outros dois mamutes cujo DNA foi analisado têm um milhão e 700 mil anos.

Os dentes do mamute de 1,2 milhão de anos, uma espécie até agora desconhecida.Os dentes do mamute de 1,2 milhão de anos, uma espécie até agora desconhecida.Fonte:  Naturhistoriska riksmuseet/Reprodução 

Mesmo que “mamute” seja para muita gente o Manny de A Era do Gelo, existiram 17 espécies por todo o planeta – Manny era um mamute imperador, frequentemente confundido com o mamute columbiano, que habitou a América do Norte durante a última era glacial, enquanto o mamute lanudo andava por onde hoje é o Canadá. Há um milhão de anos, porém, nenhum deles existia. Na Sibéria, havia apenas o mamute das estepes – ao menos, era o que se pensava.

Único das Américas

"Foi uma completa surpresa: nossas análises de DNA mostram que havia duas linhagens genéticas diferentes", diz o autor principal do estudo, o geneticista e evolucionista Tom van der Valk, acrescentando que esse animal pode ter sido o único de seu gênero a habitar as Américas por muito tempo.

A nova espécie recebeu o nome de mamute Krestovka, por ter sido encontrado perto desse pequeno vilarejo siberiano; os pesquisadores acreditam que a nova espécie divergiu da linhagem então predominante há mais de dois milhões de anos.

O mamute Krestovka.O mamute Krestovka.Fonte:  Centre for Palaeogenetics/Beth Zaiken/Divulgação 

Foram necessárias condições especiais para que o DNA sobrevivesse para ser analisado pela equipe internacional de pesquisadores, liderada por geneticistas da sueca Universidade de Uppsala. De humanos, o mais antigo já sequenciado tem 15 mil anos; de neandertais, 120 mil anos, enquanto de um animal o recorde vai para um ancestral do cavalo, que correu sobre o que hoje é o solo congelado do território canadense de Yukon há 700 mil anos.

Tesouro de fósseis

O permafrost (o congelamento profundo da terra) retarda a degradação química daqueles que terminam sepultados nela. Mesmo assim, obter DNA dos espécimes é trabalhoso: no caso dos três mamutes, os pesquisadores extraíram amostras do dente molar de cada um (dois gramas de material).

O material genético estava, porém, degradado em bilhões de sequências, curtas e fragmentadas. Para montá-las, foi usado o genoma de um elefante africano (um parente próximo), o que terminou por alinhar todos os pedaços de DNA na ordem correta.


Ao comparar os três genomas com o do mamute columbiano, que andou sobre a Terra até 12 mil anos, os pesquisadores descobriram que ele resultou do cruzamento do mamute lanoso com a nova linhagem desconhecida. "Ninguém sabe onde e por quanto tempo essa nova linhagem de mamutes prosperou. Seria incrível se descobríssemos mais espécimes desta linhagem”, disse van der Valk.

Para Love Dalén, “há também a possibilidade de reconstruir DNA cada vez mais antigo. Não recriaremos Jurassic Park, mas modelos teóricos sugerem que o DNA pode sobreviver por até alguns milhões de anos. Acho que ainda não chegamos a um limite”.

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