O nono e penúltimo episódio da série Gênios do Brasil traz a personagem mais nova e mais recente que vamos tratar nessas matérias. Brasileira natural de Belo Horizonte, a jovem professora da UFMG é um prodígio no que diz respeito à química biológica medicinal.

Focando seus estudos no desenvolvimento de fármacos, mais especificamente na área de triagem virtual, planejamento de fármacos, enzimologia e biologia estrutural, a cientista mineira só tem olhos para doenças que a indústria farmacêutica ignora ou negligencia, geralmente por não enxergar possibilidades de lucro, mas que fazem um grande mal para parcelas da população, como a Doença de Chagas e até o vírus da Zika.

Gênios do Brasil: Rafaela Salgado Ferreira

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Rafaela é uma das sete brasileiras agraciadas na 12ª edição do prêmio Para Mulheres na Ciência, criado para dar impulso ao trabalho de cientistas do sexo feminino

Nascida na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, há apenas 35 anos, Rafaela Salgado Ferreira graduou-se em Farmácia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com uma passagem pela Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos. Logo em seguida, partiu diretamente para o doutorado, dessa vez na Universidade da Califórnia em São Francisco, e cursou pós-doutorado novamente no Brasil, na Universidade de São Paulo (USP).

Destaque em uma área onde ainda poucas mulheres desenvolvem trabalhos, Rafaela é uma das sete brasileiras agraciadas na 12ª edição do prêmio Para Mulheres na Ciência, criado para dar impulso ao trabalho de cientistas do sexo feminino nesse campo. Além disso, a mineira também recebeu o prêmio Rising Talents, em Paris, concedido pela Fundação L’Oréal em parceria com a Unesco.

Essa premiação recompensa as 15 melhores jovens cientistas do mundo, selecionadas entre as 250 vencedoras das edições nacionais do programa Para Mulheres na Ciência da Fundação L'Oréal, que já haviam sido escolhidas entre cerca de 10 mil candidatas. Além disso, o evento oferece 15 mil euros, ou R$ 60 mil, para pesquisas às cientistas premiadas.

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Doenças negligenciadas

Todos esses prêmios foram muito bem dados, visto a importância da pesquisa realizada por Rafaela. A cientista é a responsável, dentro da UFMG, pelo laboratório de modelização molecular e de concepção de medicamentos. Como a falta de recursos para o desenvolvimento dessas pesquisas é uma realidade no Brasil, Rafaela faz os testes e experimentos usando computador, o que evita o alto custo do desenvolvimento de remédios.

Para enfrentar esse mal, Rafaela faz simulações computadorizadas de moléculas que possam inibir uma proteína responsável pela ação do protozoário Trypanosoma cruzi, o causador da doença de Chagas

O foco da pesquisa da cientista é o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes para a doença de Chagas, que ainda infecta cerca de 1 milhão de pessoas no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Descoberta e sistematizada por Carlos Chagas – outro personagem de nossa série –, a doença é grave e pode causar problemas sérios no coração e nos pulmões. Apesar disso, ela consta em uma lista da Organização Mundial da Saúde de doenças tropicais negligenciadas que, juntamente com outras, mata cerca de 500 mil pessoas por ano no mundo todo.

Para enfrentar esse mal, Rafaela faz simulações computadorizadas de moléculas que possam inibir uma proteína responsável pela ação do protozoário Trypanosoma cruzi, o causador da doença de Chagas: “Assim eu consigo reduzir o número de experimentos, o que torna a pesquisa muito mais barata”, explicou a pesquisadora em uma entrevista para a BBC.

Os 13 pesquisadores liderados pela cientista já tiveram um grande sucesso na busca de um tratamento melhor para a Doença de Chagas: identificaram dois compostos – AMB7 e AMB12 – que podem prejudicar a ação do protozoário inibindo a proteína do Trypanosoma cruzi. Segundo Rafaela, a medicação usada atualmente para enfrentar a moléstia é antiga, da década de 1970, e além de ser pouco eficaz, ainda pode trazer efeitos colaterais graves para o paciente. Seu objetivo é desenvolver algo que substitua esse tratamento reduzindo o número de pacientes da doença.

aRafaela ao centro com seu grupo de pesquisa

Um mundo de homens?

Já ouvi casos de um grupo de mulheres que submeteu um artigo para análise e o orientador sugeriu que elas acrescentassem um homem ao grupo

Rafaela conta que, apesar de trabalhar em um ambiente com maioria masculina, sempre foi respeitada. “Nunca senti que ser mulher foi um peso na minha carreira. Meus orientadores de pesquisa eram homens, a maioria dos meus professores também, mas nunca me senti desrespeitada”, a pesquisadora afirma.

Ainda assim, a cientista reconhece que a luta das mulheres é constante e que o preconceito, muitas vezes, é velado: “Já ouvi casos de um grupo de mulheres que submeteu um artigo para análise e o orientador sugeriu que elas acrescentassem um homem ao grupo, por exemplo”, relata Rafaela. “É uma questão que vai além da ciência em si, porque as mulheres têm o direito de seguir qualquer carreira que elas quiserem”, ela conclui, sem esquecer de ressaltar que, no mundo todo, apenas 30% dos cientistas são mulheres. No Brasil o número é melhor: quase metade dos pesquisadores da área são do sexo feminino.

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A luta continua

Rafaela hoje é professora Adjunta do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, orientadora do quadro permanente dos PPGs em Bionformática e Bioquímica e Imunologia da mesma universidade e continua sua luta contra a falta de investimentos em pesquisas científicas que podem ajudar tanta gente não apenas no país, mas no mundo todo.

“A disputa por recursos para pesquisa é bem intensa”, diz a cientista. “É cada vez mais difícil obter financiamentos no Brasil. E mesmo quando eles são concedidos, muitas vezes o dinheiro não chega”. Assim, ela continua com métodos que funcionam com menos fundos, mas que mesmo assim apresentam o sucesso que deseja enquanto as coisas não mudam. Para Rafaela, desistir é um verbo que não existe.