A segunda parte da série Gênios do Brasil vai trazer um nome muito mais atual – contemporâneo, na realidade –, contrariando quem acha que o país não produz mais grandes pensadores que influenciam as ciências no mundo inteiro. Vamos falar sobre um físico cujos campos de estudo são a interface entre a cosmologia (que estuda o universo como um todo) e a física de partículas (que estuda os menores constituintes materiais do Universo), e a origem da vida na Terra e a possibilidade de vida em outras partes do Universo. Resumindo: como as substâncias químicas inorgânicas se tornaram entidades vivas na Terra primitiva?

Professor e pesquisador de uma universidade norte-americana, nosso personagem de hoje é autor de oito livros – e vencedor do Prêmio Jabuti por dois deles –, membro da Academia Brasileira de Filosofia, da American Physical Society e ganhador do prêmio Presidential Faculty Fellows Award, dado pelo ex-presidente norte-americano Bill Clinton na Casa Branca e pela National Science Foundation dos Estados Unidos.

Confira as outras partes da série aqui:

Gênios do Brasil: Marcelo Gleiser

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Gleiser decidiu mudar um pouco de rumo e escolheu a Física para melhor compreender a natureza

Marcelo Gleiser nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 19 de março de 1959 e, durante sua juventude, não era lá muito ligado em matemática, física ou ciências em geral. Porém, sua admiração pela natureza despertou nele o interesse pela química, que disputou lugar em seu coração com a música, sua primeira opção de curso superior, que acabou sendo deixada de lado como uma opção pouco promissora profissionalmente.

Com praticamente 2 anos de curso de Engenharia Química, Gleiser decidiu mudar um pouco de rumo e escolheu a Física para melhor compreender a natureza. Fez sua formação de graduação e mestrado na cidade do Rio de Janeiro, na PUC-Rio e na UFRJ. Para coroar sua formação, concluiu o doutorado na King's College da Universidade de Londres, na Inglaterra.

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As três origens

Gleiser estuda o surgimento de estruturas complexas da natureza para descobrir o sentido do mundo e nosso lugar no grande esquema das coisas. Para isso, ele tem como foco questões muito fundamentais relacionadas ao que chama de “três origens”: o cosmos, a vida e a mente. Em 1991, cinco anos após ter obtido seu doutorado, tornou-se professor de Física e Astronomia na Dartmouth College, nos Estados Unidos.

O físico brasileiro lançou livros em que algumas teorias científicas são explicadas com exemplos corriqueiros

Um dos maiores méritos de Gleiser é tornar teorias complexas de física muito mais acessíveis para leitores que não possuem conhecimento prévio na área. Assim como fez Stephen Hawking, o físico brasileiro lançou livros em que algumas teorias científicas são explicadas com exemplos corriqueiros, usando analogias e metáforas do dia a dia, histórias das quais as pessoas possam fazer parte, como ele mesmo gosta de afirmar.

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A lei é a imperfeição

É impossível criar uma teoria final porque nunca vamos saber tudo. Temos de aprender a ser humildes com relação a nosso conhecimento de mundo, que sempre será limitado

Uma das principais críticas de Gleiser é em relação a posturas perfeccionistas para a compreensão e o estudo do Universo. Em um de seus livros, “Criação Imperfeita”, o cientista afirma categoricamente que a crença de que existe algum sentido ordenado por trás da existência do Universo é apenas uma contaminação da religião sobre a ciência.

Segundo ele, é necessário que os especialistas parem de procurar uma “teoria final” ou “teoria de tudo” que explicaria de maneira reunida o funcionamento das coisas que existem. “Nós conhecemos o mundo por causa de nossos instrumentos. O problema é que toda máquina tem uma precisão limitada. É impossível criar uma teoria final porque nunca vamos saber tudo. Temos de aprender a ser humildes com relação a nosso conhecimento de mundo, que sempre será limitado”, afirma o físico.

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Inimigo de Deus? Muito pelo contrário

Marcelo Gleiser declara-se como ateu quando questionado sobre sua religião. Esse assunto sempre é muito presente nos trabalhos do cientista, e ele possui uma posição bastante clara nesse sentido: nada de atentar contra as religiões ou negá-las, fazendo da ciência uma posição tão radical quanto a de fanáticos religiosos.

Gleiser já afirmou em entrevistas ser agnóstico, ou seja, não ter a capacidade de provar a existência ou a não existência de Deus

Para ele, extremismos e intolerância de quaisquer naturezas são sempre danosas, independentemente se tratamos de uma religião específica ou de um posicionamento ateísta fanático. “A mecânica universal não precisa de Deus! As pessoas podem precisar de Deus! São duas coisas completamente diferentes”, afirmou o cientista. “A ciência é obviamente nosso melhor modo de se explorar e entender o mundo, mas não é o único nem é ilimitado”, ele conclui.

Gleiser já afirmou em entrevistas ser agnóstico, ou seja, não ter a capacidade de provar a existência ou a não existência de Deus. Para ele, esse é o posicionamento mais compatível com o método científico e, certamente, menos ofensivo para as pessoas que possuem suas fés particulares, o que não necessariamente contradiz qualquer teoria da ciência.

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Mais próximo das pessoas

Apesar de o Brasil ser um país com pouca tradição de peso na ciência, grandes nomes têm se destacado contemporaneamente. Muito disso a Marcelo Gleiser, que abriu caminho para diversos outros físicos e especialistas em outras áreas apresentarem seus trabalhos para o mundo. Infelizmente, o investimento do país no desenvolvimento de ciência e tecnologia ainda deixa muito a desejar, e esses nomes acabam se destacando apenas no exterior, onde se tornam mais reconhecidos do que aqui.

Mesmo assim, Gleiser teve a oportunidade de chegar ao grande público com seus livros de fácil acesso a teorias científicas e, ainda mais, por sua participação em séries televisivas, veiculadas em canais aberto e pagos, onde narra documentários baseados em suas obras sobre física, astronomia e, claro, a origem da vida.