A indústria automotiva está a todo vapor, seja na produção de carros autônomos para testes extensivos ou no desenvolvimento de novas tecnologias para esse segmento. A sensação que se tem é de que existe a possibilidade de termos carros dirigindo sozinhos por aí bem antes do que a gente espera. Mas a realidade, no entanto, pode ser outra.

Isso porque os países que estão encabeçando esse movimento perceberam que não é tão simples assim colocar um carro autônomo para rodar e isso não tem nada a ver com a mecânica, mas com a parte legislatória da coisa toda. O próprio governo norte-americano está, segundo relatos, completamente perdido no que diz respeito a desenvolver leis sobre esse tipo de veículo.

Em especial, um dos principais problemas é definir de quem é a culpa no caso de um acidente acontecer envolvendo um veículo autônomo. Se houver uma fatalidade, quem será responsabilizado? O proprietário, que supostamente não estava no comando do carro? Ou então a montadora, que programou tudo?

Não existe resposta fácil para essa pergunta e, por isso, o FBI está montando um comitê que vai deliberar a respeito de questões relacionadas ao assunto e ajudar a encontrar uma definição para que as leis possam, finalmente, ser elaboradas.

A informação foi dada por Anthony Foxx, secretário de transportes dos Estados Unidos, durante um AMA no Reddit. Ele afirmou que os membros que farão parte desse comitê serão anunciados em breve.

Mas, afinal, de quem vai ser a culpa?

Antes de os reguladores determinarem quem será o culpado no caso de um acidente, as montadoras ainda estão tendo problemas em definir como o carro vai se comportar diante de uma situação de risco. A Mercedes, por exemplo, havia decidido que a prioridade será sempre resguardar os ocupantes de seus veículos, mas voltou atrás, dizendo que “é claro que nem os programadores e muito menos sistemas autônomos podem pesar o valor da vida humana”.

A “ética dos carros autônomos”, como a questão está sendo tratada, define quem vai morrer e quem vai viver no caso de um acidente inevitável. Um exemplo que é dado é o seguinte: uma pessoa tropeça numa rodovia em frente a um veículo autônomo se movendo em alta velocidade. O carro tem a opção de desviar da pessoa e colidir com uma barreira de segurança, com grande probabilidade de matar seu ocupante, ou ir reto e atropelar o pedestre. O que fazer?

“Para garantir de verdade a segurança dos pedestres, um carro autônomo deveria reduzir drasticamente sua velocidade até quase parar toda vez que uma pessoa se aproxima na calçada – tudo para garantir que seja possível parar caso alguém resolva se jogar na frente do veículo”, explica Noah Goodall, cientista do Conselho de Pesquisa de Transportes de Virginia.

Como não se trata de uma solução muito prática, o problema fica na mão dos programadores desses automóveis, mas eles não estão conseguindo fazer muito e o que está acontecendo é que muitas montadoras estão evitando tocar no assunto enquanto não existe uma solução satisfatória para o problema. Sendo assim, a decisão, por hora, é de... Bem, não tomar uma decisão.

Uma consideração é de que um acidente quase nunca é binário, portanto uma possibilidade é de que o sistema seja capaz de calcular em milissegundos uma forma de minimizar os danos quando uma colisão for iminente. Isso vai de encontro com uma patente registrada Google que define que, diante de uma decisão entre bater em um caminhão ou um carro, o veículo da empresa sempre vai priorizar o menor objeto. Depois de uma melhoria, a lógica passou a ser: evitar colisões com ciclistas e passageiros e, depois, tentar evitar bater em objetos móveis.

De qualquer forma, o tema ainda deve ser alvo de uma discussão densa e que será fundamental para definir não apenas como, mas quando os veículos autônomos vão chegar ao mercado de uma vez por todas.

Além disso, os especialistas já dizem que, quanto antes esses automóveis forem adotados, mais vidas serão salvas – mas isso deverá ser considerando todos os desafios psicológicos e tecnológicos, para que nós possamos evoluir de um sistema que é perigoso (e muitas vezes entediante) que foi criado a mais de um século.