Imagem de Twin Mirror
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Twin Mirror

Nota do Voxel
85

Twin Mirror: o começo de uma nova jornada para a Dontnod?

A primeira coisa que vem à mente quando ouvimos "Dontnod" é Life is Strange. Hoje, é difícil não associar. Não por menos, o queridinho da desenvolvedora se fez grande e colocou a empresa de vez sob os holofotes. Tanto que, por causa dos lançamentos e do estilo que a empresa seguiu, ficou difícil não conectar o criador a suas criações.

Depois do sucesso de público e crítica, acompanhamos o nascimento de algo próprio, marcado por narrativas bem contadas, escolhas morais e pitadas bem generosas de forças sobrenaturais. Foi assim com a história de Chloe e Max e seguiu por pelo menos três jogos narrativos com estrutura e formato bem parecidos.

Agora, acompanhamos o lançamento de Twin Mirror, que chega com a reputação dos games narrativos anteriores, mas também com o fardo da fórmula, que foi mantida como uma receita, em que poucas coisas, a não ser a trama, mudam.

Quando jogamos a preview de 2 horas de Twin Mirror, foi possível perceber que a empresa quis explorar novas ideias e se distanciar um pouco do que já foi feito, porém sem deixar de lado o caminho que percorreu com seu público. A pergunta que fica é: será que o game conseguiu manter essa ideia até o fim?

A tentativa que deu certo

Vamos direto ao ponto: a Dontnod conseguiu fazer um jogo que funciona sozinho, com uma narrativa mais desgarrada de suas origens, mas com elementos suficientes para manter a conexão com os fãs. Essa parece ter sido a vontade da empresa desde que decidiu que Twin Mirror ia ser seu primeiro jogo autopublicado. Todos os detalhes que vieram depois só ajudam a complementar a impressão que o título deixou.

Tanto que esperávamos mais uma jornada episódica, que escancara suas decisões a cada seção da história, mas o jogo é um da chegada de Sam à cidade da infância até as cenas finais. As escolhas de roteiro iniciais já pareciam acertadas: protagonista mais maduro, trama investigativa e thriller psicológico existiam desde o começo, preparando o terreno.

Essa ruptura com a fórmula, mesmo que superficial, foi suficiente para empolgar nas primeiras horas de jogo. A expectativa era se isso fazia de Twin Mirror um bom jogo, mesmo com a tentativa da Dontnod de reinventar alguns sistemas, o que acabou dando certo.

Bom, mas não bombom

A história cheia de acertos não é genial, talvez nem a mais surpreendente entre os jogos narrativos da Dontnod, mas foi bastante saborosa. Ela não deixa pontas soltas nem enrola demais, principalmente por ser mais curta.

Sam é um personagem antissocial, mas que consegue passar empatia, especialmente durante as interações com seu "gêmeo" e nos momentos em que revive memórias em seu palácio mental.

Os poderes não são meras ferramentas para "passar de fase" e têm a própria maneira de desenvolver a trama e o personagem, o que é muito interessante. Sem contar que eles são responsáveis por confrontar e até mesmo influenciar as escolhas, se você não tiver cuidado.

Sam é mais maduro, mais inteligente e tão interessante quanto esperamos como investigador. A análise dos objetos e dos cenários por meio dos poderes é uma dinâmica prazerosa — e bem simples — de acompanhar. Ao mesmo tempo em que analisamos as possibilidades, conseguimos visualizar a cena e tirar conclusões.

Apesar de deixar você meio perdido, sem saber o que fazer em alguns momentos, andando pelo local sem rumo, observando dez vezes a mesma coisa, não frustra. Mesmo na tentativa de ser mais desenrolada (no bom sentido), a Dontnod continua premiando os jogadores mais pacientes com detalhes e itens extras, ainda que em um jogo menor.

Sem pressa, você pode ir a fundo nos diálogos, desbloquear detalhes na agenda e, é claro, jogar mais de uma vez para entender como as escolhas afetaram a sequência da história. Sobre isso, mesmo que o jogo não separe as escolhas fundamentais em capítulos, dá para sentir que as decisões fazem a diferença. Não são escolhas morais mais difíceis do que a final de Life is Strange, mas são aproveitáveis.

O toque de mudança mais promissor vem a partir da segunda metade, quando se começa a experimentar mais da mente difusa, surrealista e assustadora de Higgs, trabalhada com elementos visualmente agradáveis que dão uma sensação de clausura e medo.  São cenas curtas, como o próprio game, mas bastante promissoras, como seu protagonista, que é muito identificável.

E o veredito?

A sensação que fica depois de terminar Twin Mirror é de muita expectativa. Não há nenhuma revolução na fórmula, mas não dá para negar que é um novo passo para a Dontnod.

Enquanto o jogo vai avançando, ficando mais intenso, principalmente na mente conturbada do jornalista, isso vai ficando mais claro. A história de Sam Higgs tinha potencial na preview e parece continuar tendo potencial depois de acabar.

Ao final, depois de momentos mais surreais, gráficos bonitos e algumas novidades, foi impossível não pensar em como seria uma continuação da história, um Twin Mirror 2, mais ambicioso, que não desse as costas para Higgs, um dos melhores elementos da trama.

A chance de fazer um segundo jogo sempre existe. E poderia ser uma virada de chave para a desenvolvedora, que tocou a borda com Twin Mirror, mas poderia muito bem entrar de cabeça em uma revolução.

Porém, o maior dos problemas parece ser o preço, um pouco salgado para uma aventura tão curta, distanciando fãs e interessados que poderiam enxergar o mesmo potencial que tivemos a oportunidade de acompanhar.

Twin Mirror foi gentilmente cedido pela Dontnod para a realização desta análise.

Twin Mirror ainda segue o padrão Dontnod de fazer jogos narrativos, com várias mecânicas conhecidas dos fãs, mesmo sem grandes inovações

Nota: 85

Pontos Positivos
  • Thriller psicológico com trama investigativa
  • Várias novidades para a fórmula
  • Cenas surrealistas e visualmente bonitas
  • Protagonista bem construído
  • Narrativa sem pontas soltas
Pontos Negativos
  • História pouco genial
  • Jogabilidade ainda engessada
  • Preço alto por jogo mais curto