Carrion traz o “terror reverso” de forma divertida, criativa e perturbadora

A videoanálise de Carrion está em produção e será postada em breve.

Não é segredo que a Devolver apoia desenvolvedoras bem singulares e sempre traz à mesa o que a indústria de games frequentemente evita fazer em prol de jogos com escopos maiores. Carrion tem essa essência em seu DNA e mostra o respiro criativo que pequenos grupos de devs podem fazer com ideias bem executadas.

Para quem não está por dentro do novo game, Carrion traz uma proposta curiosa: em vez de caçar o monstro em um título de terror, somos a criatura que deve fugir do laboratório e matar todos que passarem pelo caminho. A ideia é ótima, mas será que a execução acompanha a proposta criativa? Veja nossa análise completa.

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Parece que o jogo virou, não é mesmo?

A grande sacada de Carrion é, de fato, controlar o monstrengo simbiótico que tem poder e velocidade imensuráveis para andar nos corredores claustrofóbicos de uma grande instalação científica. Nesse aspecto, o jogo não se difere muito da sensação de Hotline Miami, por exemplo: ande e mate sem parar.

A diferença é que há um contexto: você é uma criatura que parece ter vindo de filmes como O Enigma de Outro Mundo, e não há o que entender, pois é o instinto. Sentir isso é bastante divertido pelo simples motivo de o controle do simbionte ser muito bem-feito.

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Existem muitas mecânicas que vão além de se mover assassinando cientistas e soldados. Assim como a criatura do longa-metragem A Bolha Assassina, conforme consome humanos, o corpo do simbionte vai aumentando. O objetivo geral do game é o que você pode esperar: espalhar o material genético por onde passar e se reproduzir.

O que torna Carrion tão divertido é que a maneira como puzzles, combate e obstáculos são apresentados encaixa como uma luva nas mecânicas do controle do monstrengo. É preciso deixar de lado parte da sua massa corporal para usar certas habilidades, alcançar locais de formas distintas com variadas skills e por aí vai.

Ao longo da jornada de mais ou menos 8 horas, foi legal estraçalhar cientistas e soldados com um combate simples, mas muito eficiente. Basicamente, o jogador pode puxar os inimigos com os tentáculos e sacudir para rasgá-los ao meio — e, quando não houver armaduras, devorá-los para fazer um lanchinho que recupera a vida.

Galeria 1

Não há uma variedade gigantesca de adversários na campanha, totalizando quatro ou cinco, mas, como não é um jogo muito longo e há outras atividades para fazer, é legal ver a dificuldade progredindo com oponentes mais bem equipados e ganhar habilidades especiais para contornar os desafios, que incluem até alguns chefões. Ainda assim, não seria ruim ter mais inimigos distintos.

Um metroidvania diferente

Carrion é um metroidvania? Bem, mais ou menos. Você tem um mapa grande e conectado, habilidades para desbloquear, trechos travados por não ter as skills certas e coisas do tipo, então está mais para um game de ação com alguns elementos do gênero.

Apesar de parecer bastante um metroidvania, com idas e vindas entre o laboratório, ele quebra alguns paradigmas e foge do rótulo. O jogo não tem um mapa, e toda a locomoção acontece com dois fatores simples, que são decorar os cenários e usar a comunicação instintiva do ser amorfo para saber onde estão os locais que já foram ou devem ser infectados.

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Como o mapa não é algo único e gigantesco e opta por cenários conectados por passagens, a navegação é relativamente fácil. Há até placas que indicam a saída, o que torna tudo mais tranquilo de navegar e não se perder muito. Contudo, pode esperar ficar perdido algumas vezes, porque nem sempre é fácil se orientar com pouquíssimas informações visuais na interface minimalista.

As partes mais legais dos elementos metroidvania são, sem dúvidas, as habilidades da criatura. Cada seção do mapa tem tanques biológicos para quebrar e ganhar mutações, trazendo skills que servem tanto para o combate quanto para desvendar puzzles do cenário.

E a sacada de Carrion nos desafios está no tamanho do monstrengo. No nível 1, você se move muito mais rápido e consegue lançar teias que são úteis para paralisar inimigos e resolver puzzles, e pode ficar invisível, que também serve para diversos propósitos. Há mais dois níveis, e cada um deles aumenta a massa corporal da criatura, trazendo novas habilidades.

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O destaque do combate e dos enigmas é que ser gigantesco não necessariamente é melhor ou pior, mas tem diferentes propósitos. Ficar pequeno garante velocidade, mas você pode morrer facilmente, já atingir níveis colossais o deixa mais forte, mas mais lento e com mais área vulnerável.

Inclusive, diversos puzzles são resolvidos ao aumentar e diminuir a massa corporal, algo que só é possível se você achar lagos ácidos para depositar parte do seu corpo — e você pode voltar e comê-la para recuperar o que perdeu. Há diversas habilidades para conquistar e muitos desafios opcionais, algo que aprimora bastante a jogatina.

Apresentação minimalista que casa com a jogabilidade

Carrion não é um jogo complexo. É a simplicidade que o torna tão divertido e dá o clima da matança desenfreada em um laboratório subterrâneo. Por conta disso, não espere grandes elementos narrativos, trilha sonora memorável ou muitas atividades.

Até mesmo a interface é minimalista e dá poucas dicas do que é necessário fazer, o que na maior parte do tempo é algo positivo, mas tem suas desvantagens. Não ter um mapa e pensar como um monstro é muito bacana, mas espere ficar confuso às vezes na navegação, sem saber para onde ir e como novas mecânicas funcionam.

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A história também não é das melhores, mas não precisa ser. Não há nenhuma linha de diálogo no jogo inteiro, e tudo o que você precisa fazer é escapar, mas há flashbacks que dão uma leve expandida no enredo — só não espere muito.

Graficamente, Carrion é muito bom. A pixel art do jogo é muito bem-feita, e os elementos do game são surpreendentemente interativos, com luzes estourando e mudando o clima, sangue dos inimigos se espalhando nas texturas e até objetos quebráveis. Jogamos no PC com uma RTX 2080 Super, mas o título é bem leve e deve rodar em qualquer máquina mais modesta.

Vale a pena?

Carrion é uma experiência bem única e que foi bem surpreendente. Não esperávamos muito do jogo, mas não paramos até zerar, de tão divertido que foi. A sua simplicidade é a chave para uma jogatina descerebrada e trará boas horas de entretenimento. Pode esperar grandes referências a filmes como A Bolha Assassina, O Enigma de Outro Mundo e Alien: O Oitavo Passageiro.

Contudo, o game não está livre de problemas, já que a simplicidade que o torna tão bom também traz desvantagens. Não ligaríamos de ter uma variedade maior de inimigos, um sistema melhor de navegação e objetivos menos confusos. Se você gosta de um bom indie para jogar sem pensar e se divertir, Carrion é uma ótima pedida.

Carrion foi gentilmente cedido pela Devolver para a realização desta análise.

Pontos Positivos
  • Matança desenfreada na pela do monstro e inverter os papeis é divertido
  • Movimentação da criatura é extremamente bem-feita e intuitiva
  • Um mapa bem grande para explorar e com atividades opcionais
  • Combate é simples, mas eficiente
  • As diversas habilidades do monstro são bem criativas e funcionam tanto para o combate quanto para puzzles
  • Campanha relativamente longa
Pontos Negativos
  • Navegação pode ser bem confusa às vezes
  • Falta variedade de inimigos
  • A história é extremamente simples