Coluna: GamerGate – sexismo, alarmismo e acusações vazias

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Quem acompanha de perto a comunidade dos jogos eletrônicos deve saber que, em um período que compreende um pouco mais de dois meses, há uma tensão palpável nesse meio. Desenvolvedores, jogadores e jornalistas estão envolvidos em um episódio que não somente tenta questionar o profissionalismo dos profissionais de mídia envolvidos no meio, como também demonstra a profunda misoginia e falta de confiança que rodeia esse universo.

Embora este colunista que vos escreve tenha severas questões quanto à validade do termo, toda a situação está ficando conhecida pela palavra “GamerGate”. Uma referência nada sutil ao caso Watergate (que resultou no fim do mandato do presidente norte-americano Richard Nixon), o caso serve como um retrato claro de uma comunidade quebrada — ou pelo menos dividida de maneira bastante clara em pontos fundamentais.

Antes de realizar uma análise mais profunda da situação, no entanto, é preciso entender quais foram as circunstâncias que resultaram nesse “escândalo” cuja resolução não parece exatamente próxima — ao menos não aos olhos de muitos “trolls” da internet. Felizmente, detectar esse “ponto de origem” é uma tarefa que não exige grande esforço.

Zoe Quinn, sexismo e ameaças

O início de toda essa discussão pode ser ligado a Zoe Quinn, desenvolvedora independente que ganhou atenção graças ao game gratuito Depression Quest. Infelizmente, o principal motivo pelo qual seu nome chamou atenção foi a perseguição que ela sofreu por alguns “gamers” que se sentiram incomodados pelo tema tratado (depressão) e, em muitos casos, por simplesmente não aceitarem que uma mulher pudesse trabalhar em um jogo eletrônico — ainda mais um de tom tão sério.

Para mostrar que toda situação ruim pode piorar, Zoe recentemente foi vítima da fúria de um ex-namorado que, em uma longa atualização em seu blog pessoal, acusou a desenvolvedora de traí-lo com várias pessoas envolvidas na indústria de games. Entre elas, estava um repórter do site Kotaku que supostamente teria sido influenciado a escrever uma análise positiva de Depression Quest por conta de seu relacionamento com a desenvolvedora.

Infelizmente, como acontece na maioria desses casos, quem foi erroneamente julgado como o “culpado” da situação foi Zoe — e não seu ex vingativo que expôs detalhes íntimos que nunca deveriam chegar ao público. A internet, agindo como a internet costuma agir, não demorou para julgar a desenvolvedora como uma “manipuladora cruel”, sem sequer se preocupar em checar os fatos — como o de que o repórter envolvido nas denúncias jamais chegou a escrever a suposta análise.

Por mais que você reprove a postura de Zoe dentro do relacionamento (postura essa que nem sequer foi realmente comprovada pelo ex-namorado magoado, diga-se de passagem), esse não é um ponto que está aberto a debates. Assim como tudo o que acontece em um relacionamento pessoal, esse tipo de discussão jamais deveria estar sendo feita pelo público, se mantendo restrita somente àqueles que participaram do relacionamento — por mais magoado que estivesse, o ex perdeu qualquer espécie de “moral” ao assumir a postura infantil que resultou na divulgação de suas “revelações”.

Zoe Quinn

Isso não somente resultou no hack do Tumblr de Zoe, como também suscitou na divulgação de dados relacionados a seu endereço e telefone pessoal, entre outros. Se aproveitando do anonimato, vários adotaram a postura agressiva de ameaçar a integridade física da desenvolvedora e de seus parentes e amigos próximos.

Entre as vítimas do fogo-cruzado que se seguiu está o polêmico Phil Fish, que teve sua conta no Twitter invadida e viu o site do estúdio Polytron sendo hackeado pelos supostos “defensores da ética” após partir para a defesa de Zoe. De maneira nada surpreendente, após o ocorrido ele novamente abandonou a rede social e declarou que está colocando à venda sua empresa e a propriedade intelectual Fez.

Outra que sofreu as consequências dos detratores da desenvolvedora de Depression Quest foi Anita Sarkeesian, conhecida pela série de vídeos “Tropes vs. Women”, no qual ela discute o papel nada lisonjeiro que os games dão a personagens femininos. Logo após a publicação do episódio mais recente de sua websérie, ela foi ameaçada de morte e forçada a procurar abrigo na casa de amigos para se proteger daqueles que acreditam que sua opinião representa uma “ameaça” ao futuro dos games — pessoas que, claramente, não percebem como esse posicionamento é danoso à imagem do meio e de seus fãs.

O tal do GamerGate

A principal defesa daqueles que acreditam ser “aceitável” o fato de que esses ataques estão ocorrendo é que o mundo da cobertura dos jogos eletrônicos seria “sujo e corrupto”, marcado por relações pouco ideais entre jornalistas e membros da indústria. O caso de Zoe Quinn, nessa situação, seria simplesmente a “gota d`água” em uma situação insustentável que estaria “corroendo” os fundamentos da indústria — uma teoria da conspiração que não pode ser considerada nada além de ridícula.

Em minha visão, o suposto “GamerGate” simplesmente é resultado do confronto de dois pontos de visão que se opõem. Enquanto muitos jornalistas da área querem deixar de lidar com jogos meramente como “produtos”, passando a vê-los como produções culturais complexas — suscitando no questionamento natural de seus temas e representações — uma parte vocal (e agressiva) do público não aceita que isso ocorra.

Muitos estão se aproveitando dessa situação com o simples intuito de demonstrar sua frustração com uma indústria que está crescendo e adquirindo maturidade — muitas vezes ao custo de experiências que eles consideram “sagradas”. Na mente de muitas dessas pessoas, é simplesmente inconcebível que seu hobby favorito esteja abandonando certas características e adotando uma posição mais inclusiva.

Infelizmente, muitos daqueles que cresceram acreditando que video games eram parte de uma contracultura que não se contentava em seguir o “estabelecido” se transformaram em conservadores. Cegos por sua paixão pelo meio, muitos acreditam que ele está ameaçado por “forasteiros” e não querem vê-lo sendo destruído por elementos que “não pertencem a ele” — como garotas ou temas que superem o mero entretenimento superficial — sem perceber que não há qualquer indício de que isso vai ocorrer, visto que o mercado meramente está ampliando sua visão, sem necessariamente abandonar o que lhe consagrou.

Há algo válido nessa polêmica vazia

Obviamente, nem tudo nesse mar de agressões deve ser considerado mera “besteira” ou “reclamação de um público que não cresceu”. A discussão sobre a ética dos jornalistas envolvidos na área é válida até determinado ponto, especialmente quando se leva em consideração o relativo “amadorismo” desse âmbito.

Quando digo “amadorismo”, me refiro ao fato de que a comunidade de escritores geralmente é formada por pessoas que, assim como eu e você, cresceram jogando e sonhando em trabalhar com esse assunto, mas não dispõem necessariamente de bases teóricas bem desenvolvidas. Também há de se levar em conta que, devido à natureza do tema, não é surpreendente que jornalistas e desenvolvedores criem relacionamentos próximos.

No entanto, acredito ser exagerado todo esse suposto “escândalo” que o caso GamerGate está suscitando. Sim, a cobertura da área de games tem muito a evoluir, mas não é através do alarmismo e da volta à postura de tratar jogos meramente como um produto que isso vai acontecer — afinal, existe espaço tanto para o público que deseja essa visão quanto para os profissionais e fãs da área que desejam um tratamento mais aprofundado e com um ponto de vista mais voltado ao jornalismo de cunho cultural.

Conforme afirmei anteriormente, há muito a se discutir sobre o tema, mas não sob a sombra do “GamerGate” — movimento que, apesar do que afirma, não cobra mais ética, mas simplesmente representa uma revolta sem direção e com uma justificativa pouco embasada. Usar misoginia, ameaças de agressão física e outra acusações vazias como base para uma discussão nesse momento não suscitaria em algo exatamente produtivo, visto que esses não são elementos desejáveis em uma indústria saudável.

Em resumo, toda essa coluna pode ser condensada em um único pensamento: se você gosta de video games e realmente quer ver esse meio crescer, não se contente somente com as experiências que você conhece. Caso o faça, não espere que outras pessoas sigam o mesmo caminho, tampouco tome atitudes agressivas contra aquelas que seguem tal caminho — afinal, ninguém quer acabar com seu hobby, que está longe de ser ameaçado pelo terrível “inimigo feminista” e outros fantasmas criados em redes sociais.

Se realmente quer que esse meio permaneça saudável, aprenda a abraçar novas ideias e pontos de vista, ciente de que adicionar mais elementos a uma fórmula não resulta em perdas Acima de tudo, não se deixe levar por polêmicas vazias e posturas agressivas que, no final das contas, em nada beneficiam a você ou aos profissionais envolvidos diretamente com a área.