Resident Evil 4: Ashley não é uma donzela indefesa, é gente como a gente

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Imagem: Capcom/Reprodução

Quem já jogou pelo menos um game com uma missão de escolta sabe o quanto esse tipo de objetivo pode ser irritante, especialmente se os desenvolvedores não tiverem trabalhado o suficiente com a inteligência artificial do personagem que nos acompanha. Com o anúncio do esperado remake de Resident Evil 4, muita gente lembrou de uma das personagens mais icônicas que tivemos que escoltar e proteger em um jogo nas últimas décadas: Ashley Graham, a filha do presidente dos Estados Unidos, que é capturada e levada a um vilarejo da Espanha pelo mercenário Jack Krauser a mando de Los Iluminados.

Nossa missão na pele de Leon S. Kennedy é exatamente resgatar e trazer a garota de volta ao seu país em segurança. No meio disso temos que lidar com os males do vírus de Las Plagas, o que torna o objetivo mais conturbado, especialmente com Ashley do nosso lado sem saber muito o que fazer e contando com Leon para instruí-la. Sim, isso poderia cair no clichê de donzela em perigo com o homem forte a resgatando, mas a verdade é que Ashley foi uma das companheiras de IA mais bem feitas de sua época e que não deixava sua falta de conhecimento em combate impedi-la de nos ajudar e tornar o game ainda mais mágico que seu antecessores.

Leon, HELP!

Tudo bem, você pode ler isso aqui e lembrar apenas dos momentos em que Ashley era capturada por um inimigo infectado e gritava em uma voz estridente o famoso “Leon, help!”. Ouvir isso múltiplas vezes realmente era bem irritante, mas era o que nos dava o senso de urgência e o nos alertava rapidinho para o fato de que Ashley corria perigo e que um possível “Game Over” estava a caminho.

Só que fora esses gritos de socorro, Ashley realmente deu um show de como futuros companheiros de IA poderiam ser, especialmente em comparação ao que veio antes e até depois de RE4 em outras franquias. Silent Hill é um dos casos mais pertinentes nesse sentido, com personagens como Maria em Silent Hill 2 ou Eileen em Silent Hill 4 agindo como um verdadeiro fardo aos jogadores e não só em um sentido proposital considerando a natureza psicológica destes jogos.

Eileen é uma personagem adorável em Silent Hill 4, mas sua IA ainda não era tão boaEileen é uma personagem adorável em Silent Hill 4, mas sua IA ainda não era tão boaFonte:  Konami/Reprodução 

Embora Eileen ainda fosse capaz de se equipar com armas e descer o cacete nos inimigos, sua inteligência artificial era péssima e tinha grandes chances de estragar o final do jogo, já que ela não podia tomar muito dano para que você tivesse um encerramento mais feliz. Infelizmente, é normal ver Eileen demorando para te seguir, ficando presa em partes do cenário, parando na sua frente quando um inimigo está atacando ou até ficando para trás quando você atravessa uma porta para outro local.

Com Ashley, esse papel de coitadinha dá uma certa guinada, mesmo que a gente não esperasse isso dela. Sim, ela era uma garota privilegiada, filha de um presidente americano e que nunca esteve em uma situação de adversidade, pelo menos não tão perigosa como essa. Até por isso, ela não tem conhecimentos de autodefesa ou combate, precisando seguir as instruções de Leon para ficar a salvo, o que, convenhamos, seria o caso da maioria de nós na situação dela.

Só que diferente de grande parte dos companheiros de IA desta época, Ashley podia acatar certos comandos, como se esconder, ficar para trás ou nos seguir rapidamente. Isso ajudava demais na hora de se preparar para combates intensos e era o mais correto a se fazer por parte de um agente especializado cujo objetivo era manter um civil a salvo. Querer que uma pessoa com medo e sem treinamento algum pegasse uma arma seria basicamente uma receita para o desastre, até para a própria segurança dela.

Mais do que protegida, Ashley era uma parceira disposta a ajudar Leon no que pudesseMais do que protegida, Ashley era uma parceira disposta a ajudar Leon no que pudesseFonte:  Capcom/Reprodução 

É claro que há momentos em que Leon e Ashley eram cercados e não havia como se esconder, te obrigando a lutar com ela do seu lado e indefesa. Só que é aí que entra outra grande demonstração de como sua inteligência artificial estava mais bem preparada do que estávamos acostumados até então. Enquanto Eileen ficava na frente dos ataques a todo momento em Silent Hill 4, Ashley se agachava quando você apontava a arma em sua direção e a maioria de suas mortes ocorriam de maneira proposital por pessoas curiosas ou por erros dos jogadores.

Outra seção que adicionava mais tensão e graça na jogatina era quando Ashley precisava manusear manivelas ao redor de um cômodo enorme no castelo enquanto tentávamos matar os zumbis que se aproximavam de nós. Aqui o trabalho em equipe era essencial e o fato de Ashley ter uma inteligência tão bem programada foi o que não tornou esse momento em algo frustrante, embora uma falta de precisão na hora do desespero na mira do jogador pudesse passar essa impressão em todos nós.

Mais corajosa que a maioria de nós

É uma pena que se você só se lembra dos gritos de Ashley, é fácil de pensar nela apenas como uma menina chorando por ajuda, mas o que ela demonstra ao longo de todo o jogo não poderia estar mais longe disso. Você pode até assistir todas as cenas em que ela aparece para refrescar a memória e ver que não há nenhuma reação exagerada, em que ela chora ou se desespera além do normal. De resto, ela segue Leon com calma, se oferece a ajudar Luis a recuperar o antídoto de Las Plagas e mantém a compostura quando ela e o agente precisam pensar no que fazer a seguir.

Você com certeza pode vê-la com medo quando um monstro gigante aparece, quando ela é presa com grades enormes, quando um inimigo a coloca nos ombros ou quando o teto está descendo rapidamente cheio de lâminas, mas tenho um pressentimento que você também se sentiria assim na pele da garota. Considerando que ela não hesita em nos ajudar e até se virar sozinha mais tarde no game, eu nunca poderia diminuí-la a um simples clichê de moça em apuros.

Afinal, quem não é salvo em Resident Evil?

Outro ponto que não podemos esquecer é que Resident Evil nunca foi uma franquia preocupada em enaltecer homens másculos prontos para resgatar menininhas em perigo. Desde o primeiro game, lançado em 1996 no PlayStation, temos personagens femininas que são bem mais interessantes que os homens da série na maior parte do tempo. Seja Jill Valentine, Ada Wong, Claire Redfield, Sheva Alomar, Rebecca Chambers, Sherry Birkin ou Helena Harper, estamos muito bem servidos de mulheres que colocam Chris Redfield, Leon Kennedy e Carlos Oliveira no chinelo, só para citar alguns exemplos.

Fora isso, temos que ser sinceros: essa série nunca teve um personagem capaz de tudo e que não precisasse de ajuda em algum momento. Sempre foi comum ver Leon sendo ajudado extensivamente por Claire e Helena ou salvo por Ada, uma agente melhor treinada e com mais experiência que o rapaz. A questão com Ashley é exatamente essa, não é alguém que se encaixa no lugar de donzela em perigo, mas sim de uma pessoa sem experiência e cuja melhor chance de sobreviver é seguir o que o agente especial lhe diz para fazer.

Comparações justas

Considerando que nós mesmos fizemos uma comparação de Ashley com outras companheiras de IA, é normal que você queira compará-la com outras personagens que fizeram ainda mais para nos ajudar, como Ellie de The Last of Us. A grande diferença é que Ellie já nasceu em um mundo cheio de seres infectados e em que o único meio de sobreviver era saber lutar, se defender e utilizar de qualquer arma possível para isso, uma existência completamente diferente de Ashley ou outro civil que viveu uma vida tranquila.

Ashley na mais doce calma do mundo enquanto zumbis colocam lâminas em sua gargantaAshley na mais doce calma do mundo enquanto zumbis colocam lâminas em sua gargantaFonte:  Capcom/Reprodução 

Dito isso, é claro que não podemos ignorar o fato de que esses dois jogos possuem 8 anos de diferença entre si e The Last of Us conta com bem mais recursos tecnológicos à sua disposição e menos limitações de hardware do que Resident Evil 4 tinha em sua época. Digo, inclusive, que sem uma Ashley em seu tempo, não haveria uma Ellie tão boa e inteligente hoje em dia para nos acompanhar.

Ainda mais claro é que não teríamos companheiras tão legais e bem construídas posteriormente na própria franquia de terror, como é o caso de Sheva, Helena e Moira, em Resident Evil 5, Resident Evil 6 e Resident Evil Revelations 2. Só vale lembrar que cada uma delas possuía algum tipo de conhecimento tático ou experiência anterior, o que nos faz apreciar Ashley bem mais, tendo em vista que ela fez o que pôde com o que lhe foi dado. Com isso em mente, acham realmente necessário que todo personagem, independente de gênero, precise mesmo ser fisicamente ou taticamente treinado para ser interessante?

Espaço para melhorias

Um fator importante que realmente incomoda na versão original de Resident Evil 4 são algumas piadas que sexualizam Ashley, como o momento em que Luis Sera comenta que a garota está bem equipada enquanto olha para os peitos da jovem ou quando o jogador controlava sua arma de maneira que fosse possível ver embaixo da saia dela. VR.

A nova Ashley foi destaque no anúncio do remake de RE4 e temos certeza que ela será ainda mais interessante nesta versãoA nova Ashley foi destaque no anúncio do remake de RE4 e temos certeza que ela será ainda mais interessante nesta versãoFonte:  Capcom/Reprodução 

Lamentavelmente, fatos assim eram bem comuns em jogos lançados entre os anos 1990 e 2000, com uma consciência maior se desenvolvendo sobre o tema nos últimos anos. Embora Ashley se defendesse do comentário de Luis e das espiadas do jogador, são cenas totalmente desnecessárias, que não adicionam nada de relevante ao jogo e estavam lá só para servir como piadas mesmo, tanto que a Capcom percebeu e as removeu da versão VR do game, lançada recentemente.

Só isso seria um bom exemplo de como Resident Evil 4 Remake pode ter excelentes melhorias não só em seu gameplay e visual, mas também como apresenta Ashley ao mundo novamente. Não se engane, não queremos que ela seja um monstro de matar zumbis, mas que tenha mais recursos para se defender ou até mais seções de gameplay dedicadas só a ela. Não esperamos que ela seja como Ethan Winters, que apesar de ser um civil comum, conseguia sobreviver às adversidades de Resident Evil 7 com a ajuda do mofo e o treinamento especial dado por Chris Redfield logo antes de Resident Evil 8.

Já até tivemos um lampejo disso na parte em que controlamos Ashley no jogo original, no qual ela tinha que usar partes do cenário para se defender ou escapar dos monstros à sua volta totalmente sozinha. Pessoalmente, eu achava essa uma das seções mais interessantes do título, afinal, ela quebrava as expectativas e tudo o que tínhamos aprendido a fazer com Leon até então.

Para mim, foi uma verdadeira aula de como uma pessoa normal poderia se comportar e sobreviver em um ambiente tão hostil e não dá para negar que Ashley lidou com graça e maestria com aquele que foi facilmente seu momento mais assustador e vulnerável. É claro que o estereótipo de donzela indefesa existe, está presente em vários games e não contribui em nada para a narrativa, além de totalmente preguiçoso

O ponto é que eu não acredito que Ashley se encaixe nessa categoria. Ela é muito mais gente como a gente em como se comporta, sendo até mais corajosa do que a maioria seria nessas situações, então se essa é uma donzela em perigo, o mesmo pode ser dito de todos nós.