Peculiar, Loop Hero promove jornada cíclica viciante

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Fiquei agradavelmente surpreso com a minha experiência em Loop Hero, produção do estúdio russo Four Quarters. Isso se deve ao fato de que o título busca influências nos mais variados gêneros, criando uma aventura cíclica que se renova, à sua maneira, a cada volta no mapa. Honestamente, eu não imaginava que o recém-lançado título publicado pela Devolver Digital pudesse ter um conceito tão original, tão singular, a ponto de me deixar viciado sem que haja muita brecha para, digamos, jogar.

De um modo ou de outro, o ciclo de Loop Hero se assemelha bastante à rotina da vida real: você percorre o mesmo caminho todos os dias, faz as mesmas atividades, mas sempre existe a chance de se deparar com algo inesperado pelo trajeto. No trabalho, por exemplo, por mais que você já conheça o processo de trás para frente, constantemente há abertura para se aprender coisas novas. O mesmo acontece em Loop Hero: ele flerta com a sensação de déjà vu assim que uma nova jornada é iniciada, só que você sempre retorna à base com alguma lição aprendida.

Complexa à primeira vista, a experiência pode parecer cheia de pormenores, mas é só aparência. Esta análise, aliás, será tão rápida e objetiva quanto o próprio ciclo vicioso do game.

Rotina de herói

Para entender melhor o que é Loop Hero, precisamos primeiro compreender seus elementos. Trata-se de uma game com toques de deck-building, RPG, roguelike, gerenciamento e idle game – este último conhecido como incremental, isto é, que se joga sozinho, sem intervenções constantes do jogador. Em Loop Hero, você assiste ao herói embarcar em uma saga para salvar o mundo de Lich, uma criatura divina que usa seus poderes para aprisionar o mundo num circuito de morte e ressurgimento. Engana-se, no entanto, quem pensa que a narrativa é rasa: com legendas em português, ela traz à tona debates filosóficos mais profundos, como questões sobre niilismo. Inclusive o visual reforça essa estética sinistra a que o enredo se propõe, mesmo com uma estética pixelada até mais simples do que eu gostaria.

Seu papel nesta jornada é gerenciar equipamentos, cards e estruturas de maneira estratégica para que o personagem tenha mais chances de sobreviver. A natureza procedural que o jogo tem contribui para que o mapa atual tenha um formato diferente em relação à jogatina anterior, embora quem defina o que estará ou não presente nele, desde inimigos a terrenos, é você. Cabe ao jogador usar seus cards de maneira inteligente na hora de preencher o mapa com monstros e estruturas, visto que a composição do cenário afeta diretamente a forma com que o pequeno guerreiro pixelado reage ao percurso.

(Steam/Reprodução)(Steam/Reprodução)Fonte:  Steam 

Entendendo o ciclo

Conforme você avança, novos cards são desbloqueados para que mundos cada vez mais dinâmicos possam ser criados, capazes de facilitar o caminho até o antagonista Lich. A carta Farol, por exemplo, quando adicionada à mesa, eleva em 40% a velocidade de movimento na área de alcance, bem como o tempo de ataque para todas as unidades. Também há a possibilidade de reforçar a rota com monstros específicos para aumentar as chances de se conseguir itens raros. A carta Bosque, uma das mais comuns no início do game, gera um lobo-rato a cada dois dias e é bem útil para farmar apetrechos de batalha.

Sempre que o herói revisita a base segura, uma espécie de checkpoint, pontos de vida são restabelecidos, ao passo que criaturas e buffs se renovam. A partir daí, você tem duas opções: retornar ao acampamento mantendo todos os espólios coletados ou se arriscar em mais uma volta, correndo o risco de perder mais da metade dos recursos encontrados. É muito legal tomar decisões difíceis assim, em momentos-chave da aventura, porque você nunca sabe exatamente o que pode surgir em uma nova etapa da expedição.

O combate se resume a assistir às ações do herói, como em um jogo ocioso, mas você pode amplificar os atributos de ataque e defesa dele, em tempo real, ao equipar armas e armaduras melhores deixadas por inimigos abatidos. Quanto mais custoso estiver o circuito, maiores as chances de se obter itens de raridade superior.

(Steam/Reprodução)(Steam/Reprodução)Fonte:  Steam 

Ainda que não exista a possibilidade de controlar o personagem durante o confronto, o sistema de batalha é hipnotizante e gostoso de se acompanhar, principalmente quando o aventureiro está abastecido de equipamentos raros. Confesso que já joguei muitos jogos incrementais na vida (ou clicker games, como preferir), mas essa foi a primeira vez que me senti atraído pela dinâmica. A diferença de Loop Hero para outros idle games é que há profundidade nos sistemas que englobam o ato de assistir, portanto, os confrontos conduzidos de forma automática não são gratuitos.

Existem duas fases distintas durante a expedição: Planejamento e Aventura. Na etapa de Planejamento, é possível gerenciar itens e ler descrições de cards e equipamentos, enquanto a Aventura representa os períodos de ação, seja andando pelo mapa ou confrontando esqueletos, gosmas, aranhas e outras criaturas típicas dos RPGs dos anos 1990. A transição de fases está ao alcance de uma única tecla, a barra de espaço, e é uma funcionalidade bem-vinda a quem pretende planejar as próximas jogadas de cards com bastante cautela.

Sistema de construção: o grande motivador

É no menu de construção que você pode melhorar os estabelecimentos do acampamento a fim de otimizar as estatísticas do herói. Aprimorar a Tenda do Herborista, por exemplo, desbloqueia terrenos e garante um número maior de poções a serem usadas na expedição, além de elevar o efeito máximo de cura. Já as melhorias da Ferraria permitem iniciar a aventura já com equipamentos básicos, que agilizam a evolução no começo do loop, quando o progresso ainda é lento. Há dezenas de instalações disponíveis, ficando a seu critério priorizar as que mais forem relevantes à estratégia adotada.

(Steam/Reprodução)(Steam/Reprodução)Fonte:  Steam 

Madeira, rocha, metal e ração são apenas alguns dos recursos que podem ser usados para confeccionar as construções, elementos mais que essenciais ao desenvolvimento do gameplay. Embora não haja um tutorial para detalhar o sistema de gerenciamento, as descrições são autoexplicativas e entregam as instruções de bate-pronto, sem burocracias. Fiquei admirado com o quão intuitivo é o ciclo, pela forma com que se apresenta, mesmo tendo minúcias.

Veredito

Lotado de grandes inspirações e ótimas referências, Loop Hero reúne dessemelhantes gêneros para compor uma experiência peculiar, tão específica que fica até difícil de explicar – só jogando para entender o real impacto que ela causa. O jogo renova os ares dessa indústria já saturada, abarrotada de ideias recicladas, com sua jornada cíclica, que transita entre idle game e deck-building, feita sob medida para drenar nosso tempo livre. Torço para que outras desenvolvedoras se arrisquem em produções autênticas como essa.

Loop Hero foi gentilmente cedido pela Devolver Digital para a realização desta análise. 

Voxel: 90

Pontos positivos

  • Complexo à primeira vista, mas intuitivo o bastante para não depender de tutoriais
  • O loop é viciante e capaz de drenar centenas de horas do nosso valioso tempo
  • Trata-se de uma mistura inusitada de gêneros, uma brisa de ar fresco para a indústria
  • Sistema de gerenciamento é o ponto-chave da experiência

Pontos negativos

  • Depois de um tempo, o ciclo dá espaço à repetição

Lotado de grandes inspirações e ótimas referências, Loop Hero unifica gêneros para compor jornada cíclica à sua maneira

Peculiar, Loop Hero promove jornada cíclica viciante