Você pode não assistir às novelas da Rede Globo ou até ter preconceito com esse tipo de produção, mas uma coisa não dá para negar: a dramaturgia da emissora abraça a tecnologia e cada episódio de uma produção pode carregar altas doses de efeitos visuais.

Isso é bem perceptível em acidentes que matam vilões de novela ou sequências de ação envolvendo o mocinho, por exemplo, e o trabalho é elogiado até por estúdios internacionais. Só que muitos deles passam despercebidos aos olhos do espectador — e vão de pequenos elementos em uma cena complexa até recriações de cenário que servem para você não estranhar uma ambientação. O mais divertido nisso tudo? Às vezes, esses efeitos sutis que são os mais trabalhosos e significativos.

A atual novela das 6, “Eta Mundo Bom”, é um exemplo que se aplica aos dois casos. Explicamos abaixo o que acontece nos bastidores para que você veja na telinha a recriação de uma São Paulo urbana e rural de décadas atrás. O TecMundo também conversou com o gerente de Operações de Tecnologia e responsável pela área de efeitos visuais da emissora, Fernando Alonso, para conhecer um pouco mais sobre esse trabalho.

Envelhecendo com modernidade

Ué, mas como uma novela de época e que se passa entre uma zona rural e uma cidade ainda não tão populosa pode apresentar tantos efeitos visuais? Acontece que o truque está justamente nessa simulação de época: tudo o que é feito para se parecer com antigamente passa por intervenções desse departamento. Carros de época, envelhecimento de edifícios, construção de elementos como o piso e o tipo de iluminação — tudo isso passa por interferência.

O primeiro desafio foi dar vida à fazenda em que o protagonista Candinho (Sergio Guizé) nasceu. O caminho fácil seria procurar um sítio para locação e começar a gravar, mas a equipe foi além: junto com o diretor, introduziu tudo isso na computação. “Gravamos uma imagem usando um drone e, a partir dela, criamos na computação as arvores e as casas de uma fazenda que é fictícia, que não existe”, explica Alonso.

O ambiente urbano também foi modificado, já que o cenário é uma São Paulo de décadas atrás. Parte das cenas foram rodadas na cidade cenográfica e outra em composição digital. Isso envolve 3D e até captação em 4K. Nesse caso, há primeiro a captação e depois uma “emenda” das imagens, resultando em um plano inteiro digital. A cidade, por exemplo, é produzida até a metade: acima dos primeiros andares é tudo digital.

Outra técnica usada é o escaneamento em 3D para realizar alterações em cenários. No caso de uma igreja em “Eta Mundo Bom”, é normal você prestar mais atenção nos personagens conversando, mas basta desviar os olhos para a decoração do local para ver o trabalho de Alonso. “Fizemos um escaneamento de uma igreja que a gente usou em uma cena e, a partir do escaneamento digital, mudamos a cara dela. Ela tinha que ser barroca, mas era moderna e aí transformamos”, explica.

Como em um video-game

Um dos orgulhos da equipe em “Eta Mundo Bom!” é uma cena de um acidente automobilístico. Na gravação, foram usados carros de coleção alugados pela emissora que não podiam sofrer qualquer dano físico. A solução? Fotografar o carro e reproduzir todo o desastre em um ambiente de computação.

O trabalho envolveu construir o carro em 3D, fazer ele se deteriorar conforme vai capotando, usar softwares para simular a lataria e também adicionar os elementos físicos, como fumaça, fogo e tudo mais que acontece no ambiente em que o objeto em questão está. Para inserir os personagens, a técnica é outra: a fotogrametria, um escaneamento 360º dos atores, que depois são colocados dentro do elemento que a gente quer.

Entrevista: Fernando Alonso, gerente de Operações de Tecnologia da Globo

TecMundo: Como é o trabalho de efeitos visuais na Globo?

Alonso: Hoje, tudo o que a gente produz tem alguma coisa que você não veja que não possua efeitos visuais, desenvolvimento em computação. O que varia é o tipo de intervenção e a complexidade dela. Temos uma série de profissionais com habilidades diferentes para fazer as encomendas que o autor escreveu. A gente fala que são dois efeitos, o que não é para ser percebido e o que é para ser percebido. Nossa maioria é do primeiro tipo, especialmente na “Eta Mundo Bom”.

É tudo criado no digital?

Tudo no digital. A gente também estuda simuladores como se fossem video-games, então a gente pode emular algumas situações. Um profissional controla o elemento, alguns têm inteligência artificial e outros se reposicionam conforme o ambiente. Em “Alto Astral” (2014) fizemos um avião caindo, por exemplo, e os carros iam desviando meio que em vida própria.

Quando tempo demora até que uma cena como a do acidente seja feita? Qual a equipe envolvida?

Tudo o que a gente faz leva tempo e quanto mais tempo a gente têm, melhor é para realizar. Toda a equipe que desenvolve a novela é de 10 pessoas e a gente começa a trabalhar em um projeto como o carro em torno de dois a três meses antes. Além do trabalho dos artistas, tem um tempo que a gente usa para ter a realidade que a gente quer. Não é só criar, é fazer com que a plataforma monte o trabalho do jeito que a gente quer. E tem a aprovação artística, o diretor acompanha a cena e dá sugestões.

Vários dos efeitos visuais você nem percebe — e a ideia justamente é essa.

Tem alguma cena que foi muito bem recebida pelo público e a equipe usa de inspiração nos próximos projetos?

“Ligações Perigosas” (2016) foi um recente, foi usado modelagem e tudo era em 4K. Nós levamos uma cena em um navio antigo, a carvão, então tudo foi feito nos efeitos visuais. Mas o que a gente trabalha agora com mais dedicação é personagens virtuais. Um exemplo é colocar um elefante no meio de uma cena. Não dava para levar um no estúdio, é difícil e a gente não tinha condições de colocar ele junto com um monte de gente. Também fizemos em um filme um papagaio todo virtual que falava, voava. Trouxemos uma profissional que trabalhou na Dreamworks há uns sete meses, a gente tem investido muito em personagens, esqueletos para serem animados. E não basta desenhar, tem que ter mobilidade.

Há cobrança ou crítica por conta do uso deles em séries de TV norte-americanas?

A maioria das técnicas que a gente usa é diferenciada e foram desenvolvidas internamente, mas a inspiração vem de séries e filmes americanos. Hoje, a gente já recebe visitas de grandes produtoras de efeitos, elas veem os nossos efeitos e falam que é incrível, então o norte é esse mesmo. Temos bom relacionamento com fornecedores e com grandes produtoras e, em paralelo, desenvolvemos técnicas próprias, não comprando umas que já são usadas. Não é competição, não, é saudável. Coisas que fazemos servem de inspiração pra eles. Recebemos uma visita recente aqui e as pessoas ficaram encantadas porque fizemos um simulador de favela em “Salve Jorge” (2012) e “I Love Paraisópolis” (2015).

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