Quando eu publiquei aqui um relato sobre o chip que eu havia implantado na minha mão esquerda, no início do mês passado, eu não poderia imaginar a repercussão que tal artigo iria ter. O texto teve dezenas de comentários e milhares de compartilhamentos – eu até fui motivo de discussão em um hilário fórum de “iluminados” que lutam contra a Nova Ordem Mundial.

Contudo, se por um lado é um tanto chato ser tratado como uma aberração na internet, por outro foi gratificante ver uma quantidade significativa de pessoas se interessando pela cultura do biohacking. Vários indivíduos me adicionaram ou me enviaram mensagens particulares para tirar dúvidas a respeito de implantes cibernéticos.

Respondi aqueles que consegui, e até mesmo criei um grupo aberto no Facebook para internautas que desejam trocar conhecimentos sobre o assunto. No último sábado, uma surpresa: uma das pessoas que veio me procurar logo após a publicação do meu relato implantou um chip em sua mão direita, após conversar um pouco comigo através da própria rede social.

O transhumanismo e o biohacking não são conceitos novos a nível global e eu não estou fazendo nada inédito por enquanto. Todavia, por falta de conhecimento, essas ideologias ainda não foram inseridas no território brasileiro, e me sinto particularmente feliz por ter a oportunidade de tratar sobre esses temas para meu público leitor – por mais que ele integre cidadãos que censuram meus atos e criticam minhas ideias. Faz parte da vida, é a liberdade de expressão. Mas críticas nunca frearam meus atos, e desta vez não foi diferente.

Um segundo upgrade para meu corpo

No sábado retrasado – dia 18 de outubro – dei prosseguimento aos meus estudos sobre biohacking e efetuei meu segundo implante, visitando o mesmo profissional que me auxiliou na inserção do chip xNT. Rafael Leão, tatuador e piercer que agora é credenciado pela Dangerous Things, me recebeu de braços abertos para inserir um pequeno upgrade sensorial dentro do meu corpo. Naquela tarde, em um pequeno estúdio de body modification localizado em Jundiaí, coloquei um ímã de neodímio dentro do dedo anelar de minha mão direita.

O ímã em questão é o m31, produzido pela Dangerous Things. Eu tive acesso à pré-venda da peça e pude importá-la por um preço promocional, mas só agora tive a oportunidade de implantá-la. Diferente de outros ímãs comumente utilizadas em implantes, o m31 é revestido de nitreto de titânio – o melhor material que você pode utilizar para cobrir uma peça que será inserida no corpo humano. Silicone exige um revestimento grosso demais, Parylene C é um tanto sensível e PFTE se desgasta rapidamente. Nitreto de titânio é uma substância biocompatível, durável e que oferece um bom nível de proteção com uma camada finíssima de revestimento.

Apesar de ser um procedimento bem mais invasivo e doloroso do que o implante de um chip, a cirurgia para a inserção do ímã foi bem rápida. Primeiramente, a peça ficou mergulhada durante uns vinte minutos em uma solução esterilizante de álcool isopropílico e gluconato de clorexidina (submeter o m31 em um aparelho de autoclave destruiria suas propriedades magnéticas).

Em seguida, a ponta do meu dedo anelar sofreu um pequeno corte de bisturi. O ímã foi inserido na abertura e “empurrado” para dentro com o auxílio de uma espécie de espátula. Como o corte não foi muito extenso, não houve necessidade de realizar uma sutura: o ferimento foi coberto com um curativo convencional, que foi mantido no lugar até o dia seguinte.

Brincando de Magneto

Leão tinha razão ao me assegurar que o corte iria curar rapidamente sem o auxílio de uma sutura ou cola cirúrgica. Meu dedo sangrou um pouco quando troquei de curativos no dia após o implante, mas está se regenerando bem até o presente momento, sem sinais de infecção ou rejeição, que são os dois principais riscos presentes nesse tipo de operação. Agora, você deve estar se perguntando: qual é a utilidade de ter um ímã de neodímio implantado no dedo de sua mão?

Bom, existem várias. O uso mais banal – e primeiro que experimentei – para o meu implante é pescar objetos metálicos com maior facilidade. Esse poder de “Magneto da vida real” pode ser aplicado em brincadeiras inocentes ou em situações realmente necessárias (sabe quando você dificuldades para segurar aqueles parafusos minúsculos na hora de consertar algum dispositivo eletrônico?).

Como você pode ver no pequeno clipe abaixo, o ímã instalado na minha mão é bem pequeno, mas forte o suficiente para levantar uma pequena tesoura cirúrgica. Contudo, como o tecido do meu dedo ainda não está completamente reposto, estou evitando levantar objetos muito pesados. Na última vez que tentei pescar uma chave, o ímã se moveu diretamente para o ferimento e quase foi expelido do meu corpo. Doeu bastante e serviu para que eu aprendesse uma lição valiosa: não brinque de X-Men enquanto seu dedo ainda está aberto.

Ver o invisível

Contudo, como eu comentei anteriormente, bancar o Magneto é o uso mais banal para implantes magnéticos. O que me motivou mesmo a passar pela incômoda experiência de ter o dedo aberto por um bisturi é o “sexto sentido” que nós, biohackers, ganhamos com a inserção de um ímã em determinadas localidades do corpo humano. Com meu m31, eu posso sentir as ondas eletromagnéticas emitidas por eletroeletrônicos comuns no nosso cotidiano – esse campo invisível é captado pelo ímã, cujas vibrações são intensificadas pelos nervos presentes na ponta do meu dedo.

Como já haviam me alertado, a “visão magnética” – como é popularmente conhecida – não surge imediatamente após o implante. Eu só experimentei minhas primeiras sensações três ou quatro dias depois da operação. Os mais estudados afirmam que o sexto sentido só atinge sua totalidade após, pelo menos, seis meses. Esse atraso ocorre por duas razões: os tecidos de seu dedo precisam se regenerar completamente do corte (readquirindo sua sensibilidade natural) e seu cérebro precisa “aprender” a interpretar os novos sinais oriundos do ímã.

Por enquanto, minha visão magnética está um tanto limitada, mas já é fascinante. Consigo sentir, por exemplo, a corrente elétrica conduzida por fios de cobre e o campo emitido pelo meu micro-ondas, disco rígido de meu PC, alguns fones de ouvido e um carregador portátil. Também já tive algumas sensações dentro de metrôs, mas ainda tenho um caminho longo a percorrer até que meu novo sentido esteja “treinado” para detectar campos mais afastados e diferenciar suas frequências/intensidades.

Um universo de possibilidades

A coisa mais impressionante dos implantes magnéticos é que eles servem como uma verdadeira plataforma para o desenvolvimento de outras soluções curiosas. O coletivo de biohackers batizado como Grindhouse Wetware, por exemplo, está trabalhando há um bom tempo no Bootlenose, um equipamento dotado de dezenas de sensores capazes de extrair informações variadas sobre o ambiente ao seu redor. Tais dados são traduzidos para ondas magnéticas e induzidas no implante do usuário, permitindo que ele “sinta” as informações captadas na forma de experiência sensorial.

Eric Boyd, cofundador do StumbleUpon e responsável pela startup Sensebridge, defende que qualquer sensor eletrônico pode ser teoricamente adaptado para emitir sinais para um implante magnético. De acordo com o especialista, é possível, por exemplo, construir um equipamento que faz um ímã implantado vibrar de forma única de acordo com o calor do ambiente, transformando seu dedo em um sensor de temperatura. As possibilidades são infinitas.

Eric Boyd; antes de convencer pessoas que implantar um ímã no dedo é legal, ele cofundou a famosa plataforma StumbleUpon

Também estão se tornando populares os projetos que visam transformar um dedo implantado em um alto-falante. Sim, isso é perfeitamente possível, como você pode conferir no vídeo logo abaixo (está em inglês, mas você conseguirá entender a situação mesmo sem dominar o idioma). Basta conectar uma fonte de áudio em uma placa amplificadora e uma bobina, cujo campo magnético faz o ímã vibrar de acordo com o ritmo dos sinais elétricos (que, por sua vez, são emitidos no ritmo da música).

O conceito é simplesmente o oposto do esquema de funcionamento de um speaker convencional, no qual um ímã permanece estático e a bobina está livre para se movimentar. Vale observar, inclusive, que um biohacker chamado Rich Lee implantou ímãs no lóbulo de suas orelhas, utilizando uma grande bobina como colar e ganhando, com isso, um par de fones de ouvido invisíveis.

Não precisamos ser tão radicais como Lee: imagine, por exemplo, um bracelete dotado de microfone e uma bobina forte o suficiente para enviar sinais para o dedo, sendo conectado ao seu celular via Bluetooth. Você poderia falar ao telefone usando o dedo como fone de ouvido, uma forma bem interessante e divertida de atender ligações.

Os riscos envolvidos

É claro que existem riscos atrelados ao implante de ímãs. Como eu disse anteriormente, você pode pegar uma infecção e a peça pode ser rejeitada de seu corpo. O maior perigo dos implantes magnéticos está relacionado aos exames de ressonância magnética: ninguém sabe ao certo o que acontece caso você passe por um desses com um ímã dentro de seu corpo (e eu não quero ser o primeiro a descobrir).

Os mais radicais afirmam que a peça explodiria seu dedo por dentro, enquanto os racionais afirmam que ela “simplesmente” seria aquecida até uma temperatura pouco confortável dentro de seu membro. De qualquer forma, os biohackers costumam simplesmente retirar seus implantes antes de passar por um exame do tipo e recolocá-los após o procedimento. Simples, rápido e (quase) indolor.

O risco do implante danificar algum objetivo magnético – como cartões de crédito e discos rígidos – é uma preocupação comum para quem não está inserido no universo do biohacking. Ímãs implantáveis são pequenos demais para causar qualquer interferência nesse tipo de item, e também não podem ser detectados por portas de bancos ou portais de raio X encontrados em aeroportos.

O que mais você pretende fazer?

Boa pergunta. Por enquanto, não penso em fazer nenhum outro implante maluco, mas continuarei pesquisando sobre invenções que dialogam com meu dedo magnético e treinando meu sexto sentido. Também está nos meus planos testar aparelhos de Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC), que visam estimular determinadas áreas do cérebro humano através da aplicação de correntes elétricas. É, eu vou dar uns choques na minha cabeça e, teoricamente, posso me tornar mais atento e sociável (por exemplo) com isso.

Além disso, a curto prazo, pretendo experimentar o Soylent, composto nutricional que pode ser usado como substituto completo de alimentos convencionais. O produto foi inventado por um programador norte-americano que afirma ter ficado mais saudável, disposto e forte após passar meses consumindo nada além de sua própria receita de nutrientes. Vários jornalistas estrangeiros já experimentaram o Soylent e confirmaram sua eficácia, mas eu não estarei satisfeito até testar a dieta com minha própria boca.

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