Logo TecMundo
Segurança

Predator catching: o submundo dos influencers que ‘caçam’ predadores sexuais

Vídeos de denúncia podem até gerar prisão de suspeitos com ‘iscas’ e chats falsos, mas especialistas apontam riscos e problemas dessa prática.

Avatar do(a) autor(a): Nilton Cesar Monastier Kleina

schedule23/07/2026, às 13:00

updateAtualizado em 23/07/2026, às 14:31

Um homem conversa com menores de idade na internet e, com o tempo, aborda temas adultos e pede fotos íntimas. Mais tarde, eles até combinam uma forma de se encontrar pessoalmente. Do outro lado da tela, porém, não está uma possível vítima de abuso sexual, mas um criador de conteúdo registrando tudo.

Esses influencers fazem uma prática conhecida como predator catching, uma espécie de investigação não profissional de crimes sexuais contra menores de idade online que vira uma denúncia em forma de vídeo. A prática começou nos Estados Unidos ainda na televisão, mas ganhou novos adeptos e públicos nas redes sociais.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

O ápice desses clipes costuma ser o encontro cara a cara com o suspeito, confrontado com a denúncia e exposto nas plataformas digitais. O problema? Esse tipo de material pode prejudicar investigações reais e dificultar a detenção dessas pessoas pelas autoridades, de acordo com especialistas consultados pelo TecMundo.

O que é predator catching?

Predator catching, ou caça de predadores, em uma tradução literal para o português, é a prática em que indivíduos ou grupos de pessoas se passam por menores de idade em ambientes online para atrair e constranger possíveis predadores sexuais.

A ideia por trás da “armadilha” é marcar um encontro presencial falso, confrontar essas pessoas com câmeras ligadas e denunciá-las às autoridades. Em tempos de plataformas de criação de conteúdo, essa ação virou um formato adotado por vários canais de influenciadores digitais.

Muitos desses influenciadores começaram no mundo das pegadinhas ou de outras fiscalizações em locais públicos, mas migraram para esse nicho — tanto sob o argumento de denúncia sobre um tema bastante sério e grave até o enorme volume de visualizações e monetização gerado por esses clipes.

Como esse fenômeno ganhou a internet?

O exemplo de maior sucesso na televisão que utilizou essa fórmula foi “To Catch a Predator”, um segmento do programa Dateline NBC. Cada episódio do projeto apresentado pelo apresentador norte-americano Chris Hansen trazia uma investigação com câmeras escondidas e atores maiores de idade fazendo o papel de vítima. Quando o suspeito aparecia no encontro presencial, ele era confrontado pelo próprio Hansen — e a polícia esperava a pessoa para detê-la logo após ela sair do local.

Feito em parceria com um grupo vigilante, o programa foi cancelado relativamente cedo depois de uma tragédia: um dos abordados tirou a própria vida após o programa, pela primeira vez gerando questionamentos sobre os métodos da equipe e acusações sobre a espetacularização de crimes na TV.

chris-hansen-to-catch-a-predator
Um trecho de confronto de Hansen com um suspeito. (Imagem: NBC/Reprodução).

A polêmica em torno desse e outros programas foi retratada em um documentário de 2025 chamado Predators, disponível no streaming da Paramount+. Ele traz reflexões sobre a ética dessa prática, ao mesmo tempo em que explora como o programa virou um sucesso ainda maior ao viralizar na internet.

O filme mostra também a evolução desse formato: uma onda de grupos independentes de "caçadores de predadores" nasceu a partir de investigadores e vigilantes digitais, sempre com a proposta de encontrar, atrair, denunciar e constranger os suspeitos, com o material virando posteriormente vídeos na internet.

Hoje, esse é até mesmo considerado uma espécie de vertente do true crime, com a fórmula estabelecida por Hansen — ele mesmo de volta ao formato, agora em um canal próprio — inspirando pessoas em diferentes plataformas.

Quem faz isso no Brasil e no mundo

  • JiDionPremium (5,45 milhões de inscritos): um dos mais populares em termos de inscritos e quantidade de visualizações;
  • Skeeter Jean (2,52 milhões de inscritos): inspirado diretamente no programa de Hansen, com conversas longas com os suspeitos para compreender os casos;
  • Alex Rosen do Predator Poachers (370 mil inscritos): ele persegue os suspeitos em locais públicos, como estacionamentos e lanchonetes, gritando as acusações em megafones;
  • Eric Kanevsky e Tanner do Scaling Up Catches (90 mil inscritos): um canal bastante popular apesar de ser mais recente, com uma equipe completa para fazer as abordagens;

No Brasil, um exemplo de quem faz um trabalho parecido é Luan Lennon. Com 1,4 milhão de seguidores no Instagram e mais de 600 mil no TikTok, ele publica as abordagens em vídeos curtos em redes sociais e recebe denúncias por meio do WhatsApp. 

Lennon, que inclusive divulga uma petição para prisão perpétua para predadores sexuais, tem vídeos que ultrapassam 10 milhões de visualizações nas redes sociais. Em uma dessas gravações, ele mostra um suposto flagra feito em um shopping.

Nas imagens, ele aborda um homem idoso que supostamente havia marcado um encontro com uma menina de 13 anos. Na gravação, que atualmente está com quase 13 milhões de visualizações, Luan Lennon troca xingamentos com o idoso e chama seguranças para explicar a situação. O caso é encerrado após a mãe da suposta adolescente liberar o suspeito e não prestar depoimento na polícia.

Além de vídeos confrontando supostos homens com interesse em menores de idade, o influenciador também grava conteúdos em formato de denúncia contra flanelinhas, por exemplo. Em maio deste ano, Luan Lennon chegou a ser preso por suspeita de forjar um furto para gravar e postar nas redes sociais.

O TecMundo entrou em contato com o criador de conteúdo pelo email indicado no site oficial do influenciador, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

As polêmicas da caça aos predadores sexuais

A prática de caçar suspeitos de abuso sexual infantil pode trazer complicações jurídicas. Mesmo ao abordarem temas de interesse público e eventualmente colaborarem para condenações, há uma série de divergências e reflexões sobre esse tipo de conteúdo.

Para muitos, trata-se de um material considerado clickbait e apelativo, que em muitos casos gera monetização ou influência a um criador de conteúdo que explora temas sensíveis comercialmente.

Aqui, o debate é acalorado contra quem defende a prática, mas há pontos de consenso: há maior concordância sobre o fato de que o trabalho de “caça” a esses possíveis criminosos deveria trazer resultados efetivos contra criminosos sexuais, mas talvez sem estar acompanhado do conteúdo monetizado nas redes.

skeeter-jean-youtuber
Alguns dos vídeos de um dos youtubers especializados nesse tipo de conteúdo. (Imagem: Reprodução/YouTube).

Um caso recente que envolveu um desses grupos de vigilantes nos EUA afetou até uma big tech: o engenheiro Josh Felker, que trabalhava com experiências para o público infantil na Meta, foi preso após uma investigação do grupo vigilante Predator Poachers Long Island.

Porém, há possíveis riscos contra investigações verídicas: a detenção provisória dessas pessoas pode não se converter em uma pena mais rígida por uma série de motivos e o próprio criador de conteúdo pode virar ele mesmo vítima de processos. "Vale ressaltar que não somos uma força policial, embora trabalhemos em estreita colaboração com as autoridades para garantir que os indivíduos documentados sejam responsabilizados por suas ações", diz a descrição no canal de JiDionPremium.

O que o Direito diz sobre a prática

Nos Estados Unidos, onde esse fenômeno é bem mais difundido, as abordagens de caça a esses suspeitos depende de leis regionais — há estados em que é necessária autorização de todas as pessoas envolvidas em uma filmagem, enquanto outros permitem esse tipo de gravação para coleta de evidências de determinados crimes.

Já as leis brasileiras tratam esse fenômeno de forma diferente. Como aponta Mariana Nastri, advogada criminalista do escritório João Victor Abreu Advogados Associados, não há no ordenamento jurídico nacional a previsão de que pessoas façam investigações criminais ou criem operações para identificar supostos criminosos.

"O combate aos crimes contra crianças e adolescentes é uma prioridade absoluta e deve ser incentivado, mas isso precisa ocorrer dentro da legalidade. Quando particulares assumem o papel de investigadores, julgadores e executores de uma exposição pública, existe o risco de comprometer investigações, atingir pessoas inocentes e gerar novas responsabilidades jurídicas", diz Nastri.

Isso não significa que o material produzido seja sempre inválido. “Conversas, gravações e outros registros podem, em determinadas circunstâncias, servir como elementos de informação e até ser utilizados como prova, desde que tenham sido obtidos de forma lícita e sua autenticidade possa ser demonstrada”, explica.

Por outro lado, a produção dessas evidências pode ser considerada flagrante preparado — prática em que há a indução de comportamentos ou prática de crimes antes que algo ilícito e real de fato ocorra — e não flagrante esperado, quando se documenta uma conduta que a pessoa já estava disposta a praticar por conta própria.

"Em outras palavras, o conteúdo produzido por esses 'caçadores' não substitui uma investigação oficial e, por si só, não garante uma condenação", detalha a advogada.

Os ‘caçadores’ podem ser processados?

O fato de a vítima da exposição estar cometendo um suposto crime não anula os direitos de personalidade e as garantias processuais dela. Ou seja, o suspeito pode até processar o criador de conteúdo.

"Cada situação depende da análise do caso concreto. Se houver erro na identificação da pessoa, interpretação equivocada dos fatos ou divulgação precipitada, o responsável pela exposição pode responder judicialmente pelos danos causados. O fato de o exposto realmente ter cometido um crime não blinda automaticamente o 'caçador'", alerta Nastri.

Possíveis consequências na responsabilização criminal e problemas decorrentes desse tipo de vídeo incluem:

  • dificuldade na coleta, contaminação ou perda de provas, como apagamento de materiais por parte de outras pessoas, sumiço de dispositivos ou fuga de cúmplices antes de uma medida de busca e apreensão ou quebra de sigilo;
  • inutilização da prova, já que um material obtido por captação irregular, com montagem ou edição e fruto de provocação pode ser desqualificado em um processo;
  • acusações como crimes contra a honra, constrangimento ilegal, violação da imagem, risco físico imediato e até uma eventual responsabilidade civil por danos morais contra os responsáveis pelas denúncias;
  • e até um possível linchamento e violência, algo especialmente danoso em casos de identificação errada e capaz de gerar agressões físicas a inocentes.

Segundo a criminalista, o Artigo 20 do Código Civil protege o direito à imagem e pode ser usada sob acusações de exposição pública com fins comerciais, como a monetização de vídeos no YouTube ou TikTok sem autorização.

predator-catching
Vídeos costumam terminar com a detenção (mesmo provisória) do suspeito pela polícia. (Imagem: Predator Poachers/Reprodução).

Isso pode gerar indenização por danos morais, independentemente de a pessoa estar fazendo algo errado ou não, mesmo sob o argumento de interesse público na divulgação de determinadas informações. "Não significa que qualquer pessoa possa filmar, identificar e expor alguém nas redes sociais sem consequências jurídicas", explica.

Além disso, as próprias plataformas podem ser responsabilizadas judicialmente por manterem no ar conteúdo identificado como abusivo, mas a ação geralmente é aberta primeiro sobre quem fez a publicação e não o espaço.

Como denunciar possíveis crimes sexuais na internet

Qualquer pessoa pode fazer denúncias em órgãos oficiais e especializados para lidar com casos de abuso sexual infantil na internet. Se você está passando por dificuldades e precisa conversar com alguém sobre o assunto, o HelpLine da SaferNet é um serviço de orientação sobre crimes e violações dos Direitos Humanos na internet. Ele funciona de forma anônima e sigilosa e pode ser acessado por este link.

A mesma SaferNet também tem um mecanismo de denúncia pelo site. Além disso, o Disque 100, da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, recebe denúncias sobre violações contra crianças e adolescentes, em ambientes online ou offline. Dependendo do caso, denúncias também podem ser feitas às polícias Civil e Federal ou ao Ministério Público da sua região.

No caso de ter provas concretas do crime, a orientação é seguir alguns passos importantes que garantam a integridade da denúncia. Eles incluem reunir as evidências disponíveis (conversas, perfis, links e capturas de tela, por exemplo) e comunicar imediatamente às autoridades competentes, para que a apuração seja feita seguindo os princípios previstos na Constituição e com o envio do material coletado.

undefined
O formulário de denúncia na SaferNet. (Imagem: SaferNet/Reprodução).

Além disso, o indicado é evitar expor identidades da vítima e do suspeito em vídeos, em especial antes de decisão judicial sobre o assunto. "Esse caminho permite que a investigação seja conduzida dentro das garantias legais, com técnicas adequadas para preservação das provas e eventual responsabilização dos envolvidos, sem colocar vítimas, testemunhas ou terceiros em risco", explica Nastri.

No fim de 2024, o TecMundo lançou Realidade Violada 3: Predadores Sexuais. O filme aborda o tema de abuso infantil na internet e mostra o modus operandi de criminosos, além de como são feitas as investigações e captura de um dos núcleos especializados nesse tipo de crime no Brasil. Confira o documentário completo por aqui.

star

Continue por aqui