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Óculos que filmam: o que pode, o que não pode e o que diz a lei

Entenda o que diz a lei sobre óculos que filmam, como o RayBan, e saiba quais limites legais existem para o uso dessa tecnologia.

Avatar do(a) autor(a): André Luiz Dias Gonçalves

schedule06/07/2026, às 08:15

Os óculos com câmera integrada trouxeram avanços consideráveis para criadores de conteúdos como registros em primeira pessoa para vlogs e gravação sem usar as mãos em tutoriais, entre outras coisas. No entanto, o uso tem gerado polêmicas relacionadas à privacidade.

Como gravam de maneira discreta, podem gerar registros sem autorização. Em 2025, um caso envolvendo vídeos feitos com óculos da Meta em casas de massagens ganhou destaque e levantou debates éticos e de direitos de imagem.

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Óculos com câmera e como funcionam

Projetados para se parecerem com óculos convencionais de grau e de Sol, esses wearables combinam lentes e armações comuns com hardware e software. Dependendo do fabricante e da versão, podem vir com câmeras, microfones, alto-falantes, sensores de movimento e conectividade sem fio.

Telas em miniatura, assistentes de IA integrados, suporte a serviços na nuvem e diferentes aplicativos são algumas das outras características dos aparelhos. Modelos como a linha Ray-Ban Meta estão entre os mais conhecidos.

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O RayBan Meta é um dos modelos mais populares do segmento. (Imagem: Meta/Divulgação)

A big tech domina o segmento, com mais de 80% das vendas nas versões com IA, conforme a BBC. Mas a dona do Facebook e do Instagram deve ganhar novos concorrentes em breve, entre os quais o Google, e há rumores sobre a Apple planejando uma opção mais acessível que o Vision Pro.

Devido ao design, identificar os óculos que filmam se tornou uma tarefa complicada. A maneira mais fácil é localizar a luz de LED que acende ao tirar fotos e pulsa na filmagem, no canto superior direito da armação, enquanto a lente da câmera fica no lado oposto.

Principais recursos dos óculos inteligentes

Gravar vídeos e tirar fotos são algumas das funcionalidades, bastando tocar na armação ou via comandos de voz. Algumas versões também transmitem ao vivo, reproduzem áudio, fazem ligações, enviam mensagens, traduzem em tempo real e reconhecem objetos.

Interagir com assistentes de IA é outro recurso, enquanto nas versões com tela dá para ver mapas, ler mensagens e executar recursos visuais, desde que o par de lentes esteja conectado ao celular. Além disso, é importante saber que nem todos os óculos inteligentes têm câmeras.

Óculos que filmam são permitidos no Brasil?

Com a popularização dos vestíveis e o aumento dos incidentes com gravações não autorizadas, consumidores interessados no dispositivo passaram a ter a seguinte dúvida: óculos que filmam são legais? A resposta direta é sim, inclusive no Brasil.

Porém, há ressalvas quanto ao registro da imagem de terceiros, assim como nas fotos e filmagens com smartphones e câmeras digitais. É necessário saber o que pode e o que não pode fazer antes de usar os óculos para gravar na rua.

O que diz a legislação brasileira

As leis são as mesmas para as filmagens usando outros tipos de equipamentos. De modo geral, gravar em vias públicas por si só não consiste em crime, mas o modo como isso é feito e a divulgação podem violar leis.

Em ambientes privados, é preciso seguir as regras do local. Ao usar óculos com câmera embutida para gravar em restaurantes, cinemas, bancos, lojas, supermercados, academias, farmácias e padarias, o usuário deve consultar o responsável pelo espaço.

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Nem todos os óculos inteligentes têm câmeras. (Imagem: Niklas Storm/Getty Images)

Há, ainda, restrições específicas para tais dispositivos em espaços como:

  • Cabines de votação durante as eleições, por ordem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE);
  • Ambientes judiciais, inclusive durante audiências em tribunais;
  • Todas as áreas sociais de navios da MSC Cruzeiros, como piscinas, lounges, restaurantes, decks e corredores, por determinação da empresa.

Direito à privacidade e à imagem

Gravar pessoas sem autorização é crime? Depende do contexto, sendo necessário analisar o local, o conteúdo e a finalidade, com o direito à imagem e à privacidade respaldado pelo Código Civil e a Constituição Federal.

Com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), as imagens captadas pelos dispositivos vestíveis são tratadas como dados pessoais. Dessa forma, gravar rostos em lugares públicos ou privados sem o consentimento delas pode ser interpretado como violação em determinadas situações.

Um projeto em tramitação na Câmara dos Deputados (PL 19/2026) prevê alterações no Código Penal para tipificar condutas ilícitas envolvendo óculos com câmera. O texto também inclui a proibição ao dirigir e recomenda a implementação de novas formas de sinalizar a gravação e a necessidade de autorização para gravar.

Em quais situações o uso pode gerar problemas?

Vídeos com óculos que filmam podem ser considerados ilegais quando registram interações privadas de terceiros sem autorização dos envolvidos ou ordem judicial. Isso acontece ao gravar pessoas conversando na rua, em filas ou eventos sem estar envolvido no bate-papo, destacando um dos participantes para expô-lo.

A exposição vexatória pode ser tratada como crime contra a honra. É o caso de pegadinhas que viralizam no TikTok e outras plataformas se as pessoas mostradas não autorizaram a publicação.

pessoas andando na rua
É permitido usar óculos com câmera no Brasil? Sim, mas há regras a seguir. (Imagem: gremlin/Getty Images)

Registros da intimidade alheia, gravar secretamente em banheiros, filmar pessoas digitando senhas e fazer vídeos no interior de residências de terceiros também são situações que podem configurar violações às leis.

Quais são os riscos para a privacidade?

Imagens feitas com Ray-Ban Meta e similares podem resultar em diversos problemas. Ao registrar telas de celulares e PCs, há risco de exposição de dados sensíveis como senhas e informações bancárias, facilitando fraudes.

Vídeos e áudios também podem servir para a geração de deepfakes com IA, colocando as pessoas em situações que não existiram, resultando na perda de controle sobre a própria imagem. Outro problema é a utilização das imagens para alimentar bancos de reconhecimento facial.

Exposição não autorizada de ambientes de trabalho e menores de idade, assim como a revelação de informações sobre saúde, orientação sexual, religião e opiniões políticas também estão entre os riscos.

pessoa usando notebook para criar imagens falsas com ia
Imagens gravadas sem permissão podem ser usadas em deepfakes. (Imagem: fadfebrian/Getty Images)

Uso indevido de imagens e vídeos

A Meta e outras fabricantes recomendam não usar óculos inteligentes em atividades prejudiciais, afirmando que os usuários são responsáveis por cumprir as leis e aproveitar o recurso de maneira segura e respeitosa. Porém, isso nem sempre acontece.

Se as imagens registradas com câmeras da tecnologia vestível levarem à violação de direitos de privacidade, os alvos de gravações ilícitas podem recorrer à justiça solicitando a retirada dos conteúdos e indenização pelo uso indevido de imagem.

O TecMundo já conversou com especialistas sobre esse tema; entenda melhor os direitos das vítimas.

Como outros países tratam os óculos inteligentes?

Na União Europeia, os dispositivos vestíveis com IA têm o uso enquadrado no Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), famoso pela rigidez. Os reguladores locais alertam sobre os riscos desses equipamentos desde 2021.

Itália e Irlanda questionaram se o pequeno LED era suficiente para avisar sobre as gravações, fazendo a Meta aumentar o tamanho da luz e melhorar o padrão de notificação. Além disso, a ação das autoridades tem atrasado a integração de novos recursos de IA aos óculos.

Já nos EUA, as regras baseiam-se em leis estaduais focadas na privacidade em locais públicos, uso ao dirigir e ambientes educacionais. Na Austrália, gravações com óculos podem resultar em multas pesadas e até cinco anos de prisão se feitas sem consentimento.

óculos da Meta Ray-Ban
Óculos com câmera embutida são praticamente idênticos aos modelos convencionais, o que dificulta a identificação do gadget. (Imagem: Meta/Divulgação)

Casos e polêmicas envolvendo óculos com câmera

Além da situação citada no início do texto, vários outros incidentes relacionados a gravações não autorizadas com óculos inteligentes ganharam destaque nos últimos meses:

  • Na Inglaterra, uma jovem abordada na praia por um desconhecido que pediu seu telefone, recusando a conversa, passou a receber ataques online após o vídeo parar no TikTok;
  • Outro caso semelhante no país envolveu uma mulher gravada na academia que recebeu comentários inadequados sobre a sua aparência quando a gravação foi publicada;
  • Moradoras do Quênia e de Gana, que alegam terem sido filmadas por um homem russo, também tiveram imagens divulgadas indevidamente e receberam comentários ofensivos, como relata a BBC.

A reportagem também cita relatos nos quais as vítimas são filmadas em situação vexatória ou de intimidade e extorquidas pelos autores das gravações, que exigem pagamento para não publicar esses vídeos ou remover conteúdos que já estão no ar.  

Sabia que os vídeos feitos pelos óculos que filmam da Meta podem ser vistos por moderadores da empresa? Siga no TecMundo e confira os detalhes.