Logo TecMundo
Segurança

Agentes da Polícia Federal usaram dados de brasileiros mortos em fraude bilionária

Dois policiais federais investigados na Operação Sem Refino usavam chips registrados em nome de mortos para falar com um auditor fiscal suspeito de fraude bilionária no setor de combustíveis.

Avatar do(a) autor(a): Cecilia Ferraz

schedule19/05/2026, às 17:30

updateAtualizado em 19/05/2026, às 17:40

Dois policiais federais são investigados após a utilização de linhas telefônicas cadastradas em nome de pessoas mortas. Supostamente, a ação criminosa foi realizada para os agentes se comunicarem com um auditor fiscal suspeito de fraudes. A descoberta foi feita pela própria Polícia Federal durante a Operação Sem Refino, deflagrada na última sexta-feira (15) para apurar um esquema de sonegação bilionária no setor de combustíveis.

A investigação identificou que os agentes mantinham contato com Carlos Eduardo França de Araújo, auditor fiscal acusado de participar de fraudes envolvendo a Refit, empresa de refinaria de petróleo. Ao analisar o celular do auditor, a Polícia Federal encontrou números telefônicos que, ao serem verificados, estavam registrados em nome de pessoas já falecidas. Segundo a polícia, o artifício foi usado justamente para dificultar a identificação dos envolvidos no esquema.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

Falha no sistema permite uso de identidade de mortos

A prática de usar dados de pessoas falecidas para cadastrar linhas telefônicas explora principalmente um problema de sincronização. A notificação da morte de uma pessoa passa por diferentes esferas do governo. Isso não acontece de forma instantânea em todo o país.

brasil-lidera-ranking-de-ataques-contra-sistemas-linux-na-america-latina-banner.png
Ao analisar o celular do auditor, a PF encontrou números registrados em nome de falecidos usados para ocultar comunicações no esquema.

O tempo entre o falecimento e a atualização completa dos sistemas permite que criminosos consigam cadastrar serviços usando os dados. Basicamente, o CPF de uma pessoa morta pode permanecer "ativo" nos sistemas por um período até receber a baixa oficial. Durante essa janela, fraudadores conseguem utilizar a identidade.

A situação piora quando o falecido não tem herdeiros ou morre sem deixar bens. Quando há inventário e atuação da família, a informação é rapidamente replicada por cartórios e bancos. Mas em casos de morte sem familiares ou bens a partilhar, contas e documentos podem permanecer ativos por mais tempo.

Como criminosos conseguem as informações

Hiago Kin, presidente do Instituto Brasileiro de Resposta a Incidentes Cibernéticos, órgão referencia em cibersegurança, aponta três possibilidades principais para o golpe. A primeira é o uso de dados vazados, algo comum no Brasil considerando a quantidade de bases de dados já expostas na internet. A segunda é a compra de chips pré-pagos que, por terem verificação menos rigorosa, facilitam o cadastro fraudulento. A terceira são falhas na verificação de identidade durante a ativação da linha.

adolescente-usando-telefone
Chips pré-pagos têm verificação menos rigorosa e são um dos principais vetores para o cadastro fraudulento de linhas telefônicas

Não há detalhes sobre o tipo de linha utilizada pelos policiais investigados. Também não foi divulgado quais operadoras foram envolvidas no caso. Mas a prática demonstra que as brechas existem independentemente da modalidade escolhida.

Anatel tenta aprimorar fiscalização

A Agência Nacional de Telecomunicações tem aumentado o rigor na identificação de usuários. Desde fevereiro de 2026, a empresa tem se planejado para exigir biometria facial de usuários na hora de comprar novos chips. A medida, que deve ser implementada até o fim do ano, deve ajudar justamente a evitar fraudes de estelionato, como a identificada pela operação policial. Em alguns casos, a Anatel já exige selfie e documentos para ativar uma linha telefônica. A agência afirma que trabalha para implantar biometria obrigatória para todos os usuários de telefonia móvel.

Nesse contexto, as operadoras já são obrigadas a manter cadastros atualizados. Isso inclui a necessidade de trocar a titularidade ou cancelar a linha em caso de falecimento. As empresas normalmente contratam fornecedores especializados em validação de identidade que buscam dados atualizados periodicamente na base da Receita Federal.

ilustracao-de-inteligencia-artificial-e-dados
A brecha explorada pelos investigados depende de falhas na sincronização entre sistemas governamentais que deveriam registrar mortes em tempo real.

Além disso,  a Anatel também aplicou mais de R$ 73 milhões em multas relacionadas a problemas de cadastro de clientes. Mas especialistas avaliam que ainda há diferenças significativas entre modalidades pré e pós-pagas, além de variações entre operadoras que podem facilitar fraudes.

O que dizem os acusados

Em nota à Agência Brasil, a defesa do ex-governador do Rio de Janeiro Claudio Castro afirma surpresa com a operação de hoje, uma vez que ainda não tomou conhecimento do objeto do pedido de busca e apreensão. No entanto, afirma que ele está à disposição da Justiça.

"Todos os procedimentos praticados durante a sua gestão obedeceram aos critérios técnicos e legais previstos na legislação vigente, inclusive aqueles relacionados à política de incentivos fiscais do Estado, que seguem normas próprias, análises técnicas e deliberação dos órgãos competentes", diz a defesa.

martelo-da-justica
A Operação Sem Refino resultou em mandados de busca e apreensão e investigação de ex-governador, auditor fiscal e policiais federais.

De acordo com os advogados, a Procuradoria Geral do Estado (PGE) moveu ações contra a Refit. Eles afirmam que isso "demonstra que a Procuradoria sempre atuou para que a empresa pagasse o que deve ao Estado".

A Refit afirmou que as questões tributárias envolvendo a companhia  serão discutidas no âmbito judicial e administrativo.

A companhia também conta que que a atual gestão “herdou passivos tributários acumulados por administrações anteriores”. Em nota, a empresa afirma que desde então, vem adotando medidas para regularização dessas obrigações.

a-reforma-tributaria-vai-encarecer-ou-baratear-servicos-e-produtos-de-tecnologia-entenda-banner.png
A investigação apura um esquema de sonegação bilionária no setor de combustíveis com suspeitas de envolvimento de agentes públicos.

O comunicado da empresa diz:

"A Refit jamais falsificou declarações fiscais para ter vantagens tributárias. Laudos científicos da carga apreendida nas últimas operações comprovam que o produto importado é óleo bruto de petróleo, conforme devidamente declarado no documento de importação. Causa estranheza a Receita Federal impedir a realização da perícia judicial que possa corroborar os laudos de profissionais já apresentados em juízo.

A Refit nega veementemente ter fornecido combustíveis para o crime organizado. Ao contrário, sempre atuou como denunciante de postos ligados a facções criminosas, incluindo aqueles de bandeiras renomadas que integram o Instituto Combustível Legal (ICL) e foram alvos de operações policiais".

Acompanhe o TecMundo nas redes sociais. Inscreva-se em nossa newsletter e canal do YouTube.

star

Continue por aqui