Se você já leu o livro Minority Report, que gerou um filme homônimo em 2002, provavelmente também já sacou o que estamos falando. Caso não tenho lido nem assistido, as obras mostram um futuro no qual as autoridades conseguem prever crimes com 100% de precisão (ou não). Acontece que, agora no mundo real, uma startup chamada Palantir está implementando essa predição nas ruas norte-americanas e já possui clientes de alto calibre, como a CIA, a NSA e o FBI.

A grande questão das obras é a seguinte: prevendo os crimes, as autoridades têm embasamento suficiente para prender possíveis suspeitos? Sem ação, não há crime — e, talvez, a ferramenta usada pela CIA, a NSA e o FBI também tenha este mesmo problema.

A ferramenta se encontra em um prédio sem endereço em Palo Alto, na Califórnia

A ferramenta oferecida pela Palantir, startup que nasceu com esforços da própria CIA e de Peter Thiel, o bilionário por trás da PayPal, já foi utilizada em campo para prever locais com bombas nas estradas do Iraque. Essa predição foi realizada por meio de padrões.

Hoje, a ferramenta se encontra em um prédio sem endereço em Palo Alto, na Califórnia, atrás de paredes impenetráveis por ondas de rádio, sinal celular ou internet, como indica a investigação do The Next Web, iniciada pelo LA Weekly. As pessoas com acesso ao programa passam por medidas de segurança como leitura biométrica, além da tecnologia de blockchain como proteção de identidade.

Sobre o local, a própria Palantir comenta que ele foi construído "para ser resistente às tentativas de acesso, com uma rede fora da internet pública para prevenir vazamentos".

Minority Report

Como funciona a ferramenta

Batizada internamente de "eye in the sky", algo como "Olho no Céu", o software analisa quantidades imensas de dados para analisar e padronizar informações úteis aos clientes. Além da CIA, a NSA e FBI, outros clientes da Palantir são: os Marines (Marinha norte-americana), Força Aérea dos EUA, West Point, Centro de Controle de Doenças dos EUA, IRS e Comando de Operações Especiais dos EUA. Ou seja? No mínimo, algo interessante realmente existe nesta ferramenta. Cinquenta por cento dos clientes da Palantir são órgãos públicos.

Especificamente, até agora, a ferramenta é usada para prever "focos quentes" nas cidades, locais onde o crime tem uma taxa alta — e também quais horários eles ocorrem. Dessa maneira, as autoridades podem realizar um trabalho de prevenção aumentando a presença policial.

Ao policiar de maneira pesada uma região, o problema não é tratado em sua raiz

O problema deste ponto é que, obviamente, não é necessária uma ferramenta dessas para saber quais áreas são as mais problemáticas. Estamos falando de comunidades mais pobres — especificamente quando falamos dos EUA, onde homens negros morreram aos montes nos últimos meses após controversas ações policiais.

Ao policiar de maneira pesada uma região, o problema não é tratado em sua raiz. Como indica o TNW, o crescimento de criminosos "colaterais" tem essa caça ao crime como um dos principais vetores. "Criando distorções no conjunto de dados que poderiam prejudicar as comunidades nos próximos anos", analisa o veículo.

O problema é ainda mais claro nessa inteligência artificial quando nos deparamos com situações como essa: "Dois homens encapuzados caminhando pela rua, que talvez nem teriam sido 'percebidos' pelas autoridades em um dia normal, agora, de repente, se encaixam na descrição de uma invasão de casa que aconteceu horas antes". Bem, o estrago pode ser feito dependendo da abordagem.

Os militares devem defender o território de inimigos externos, essa não é a missão da polícia — eles não devem olhar para a população como um inimigo externo

Ana Muniz, uma pesquisadora da Youth Justice Coalition, nos EUA, comentou o seguinte sobre este caso para o LA Weekly: "Sempre que as polícias militares e domésticas de uma sociedade se tornam mais parecidas, as linhas são borradas. Os militares devem defender o território de inimigos externos, essa não é a missão da polícia — eles não devem olhar para a população como um inimigo externo".

A ferramenta da Palantir é isso: uma ferramenta. Ela tem a capacidade de fazer coisas ótimas, como realizar ações de prevenções de acidentes no trânsito ou ajudando a defesa civil, por exemplo. Mas é uma ferramenta. Como um martelo ou uma foice. Ela pode e deve ser usada para o bem comum, não para destruir comunidades.

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