Em uma das aventuras do Prof. Pardal, famoso personagem publicado pela Disney, o inventor cria um robô que sabe tudo, que pode dar a resposta a qualquer pergunta. Para testar a mais nova criação, Pardal começa com uma pergunta simples: “Por que os pássaros cantam?”. A resposta não poderia ser menos precisa: “Talvez por saberem, talvez por quererem, talvez por poderem”. Essa é a explicação para quase todas as perguntas feitas à máquina, e é o que adiciona um toque de humor à história.

Quando nos questionamos sobre por que algumas pessoas “hackeiam”, também podemos cair nessa mesma resposta: elas gostam disso, elas sabem e podem fazer isso. Mas o ser humano é muito mais complexo. As motivações que movem o hacker podem ser as mais diversas.

Originalmente, o termo “hackear” era sinônimo de cortar algo usando um machado ou outro instrumento cortante. Não é à toa, por exemplo, que a serra de cortar metais é conhecida, em inglês, como hacksaw. O Jargon File, dicionário de gírias hackers, confirma a origem. De acordo com o documento, um hacker era alguém que construía móveis usando um machado.

Por mais distante que pareça, a origem da palavra ainda traz algumas semelhanças com o sentido mais moderno que o termo adquiriu. São normalmente chamados de hackers aqueles que não se contentam com o simples uso de uma ferramenta, como programas de computador: pessoas que querem ir além, explorar, construir, entender como funciona aquilo com o que estão trabalhando.

Em vez de passar horas entalhando ou cortando um bloco de madeira para construir algo útil, hackers agora passam dias em frente de um computador, esculpindo e talhando bits para alcançar os seus objetivos. Mas para quê? Por que as pessoas “hackeiam”?

1. Curiosidade

Essa é, provavelmente, a porta de entrada para o mundo dos hackers: um desejo quase incontrolável de investigar, de entender algo. Durante a infância, muitos quebravam os próprios brinquedos, apenas para descobrir como eles funcionavam. Desmontavam partes, encaixavam com pedaços de outros brinquedos, modificavam, criavam algo novo.

No mundo dos computadores, isso funciona da mesma forma. É a curiosidade que move o hacker a entender como um software é construído. Com isso, eles aprendem a programar, estudando linguagens de programação e construindo seus próprios programas. Melhor ainda, eles adquirem um conhecimento muito mais amplo do funcionamento de um programa de computador, possibilitando a exploração de falhas e bugs.

Muitas vezes essa também é a motivação para a invasão de sistemas online: apenas conferir como isso é possível, descobrir quais são os passos necessários.

2. Diversão

Outro fator que conta muito para o hacker é a diversão. Antes de qualquer coisa, o hacker tem que gostar do que está fazendo e se divertir com aquilo. Caso contrário, ele não se dedicará tanto quanto gostaria.

3. Desafio

Desafios são grandes motivadores para os hackersFonte da imagem: Wikipédia

É conhecido que pessoas muito inteligentes não gostam de se ater a tarefas monótonas e repetitivas. O hacker precisa se sentir desafiado, instigado a prosseguir com a ação. Muitas vezes essas pessoas agem somente por agir, para perceberem que algo é possível e que eles conseguem fazer. Hackers gostam de resolver problemas e, quanto mais complexos esses problemas, melhor. Diga a um hacker que algo é impossível de ser feito e ele vai tentar até conseguir.

4. Liberdade

Essa é uma das razões mais conhecidas para fazer com que essas pessoas ignorem a lei e quebrem o mecanismo de segurança de sistemas e dispositivos. Hackers gostam de explorar os limites de tecnologias e equipamentos e não querem ficar limitados ao uso imposto pela indústria ou fabricante de um dispositivo.

O gosto pela liberdade é o que move indivíduos como Jon Lech Johansen, por exemplo. O hacker norueguês é o responsável por ter criado o DeCSS, software que tornou possível o uso de DVDs comerciais em sistemas Linux. Sem ele, os usuários Linux estariam esperando, até hoje, uma solução para o problema de licenciamento da DVD CCA, a organização responsável pela proteção anticópia inserida nos discos.

E já que citamos o Linux, não é possível fechar esta seção sem mencionar Richard Stallman, o pai do projeto GNU e defensor ferrenho do software livre. Cansado de esbarrar nas limitações de softwares proprietários, Stallman resolveu convocar o mundo a voltar aos tempos de outrora, quando código-fonte era distribuído livremente e seus usuários podiam alterá-lo e estudá-lo sem limitações.

Afinal, parte da cultura hacker diz respeito a construir algo. E quer melhor forma de colocar isso prática do que criar aquilo que você tanto sente falta?

5. Ativismo

Recentemente, serviços da Sony foram alvos de diversos ataques hacker

Ideologias também podem motivar hackers a se unirem contra um alvo em comum. Muitas vezes, eles acabam até mesmo atacando ou vandalizando páginas que propagam ideias que vão contra algum interesse público ou até mesmo pessoal.

Um caso muito popular diz respeito ao Wikileaks, site que costuma revelar documentos e atividades secretas de governos e corporações. Quando operadoras de cartão de crédito como Visa e Mastercard proibiram a transferência de doações para a organização, hackers de todo o mundo se mobilizaram contra essas empresas, atacando seus websites e deixando-os indisponíveis durante um bom tempo.

Recentemente, a Sony também foi alvo de diversos ataques. Além de quebrar a segurança da Playstation Network, a empresa também sofreu diversos ataques a outras unidades. Muitos especulam que a principal razão por trás desses atos foi o processo que a empresa moveu contra GeoHot, hacker responsável por desbloquear o Playstation 3.

6. Dinheiro

Apesar de normalmente agirem pelos motivos citados acima, os hackers também têm seu preço. Não são raras as vezes em que alguém fica famoso por invadir sistemas considerados seguros e, tempo depois, acaba contratado como especialista em segurança.

Kevin Mitnick, um dos hackers mais famosos e adorados do mundo, hoje mantém sua própria empresa de consultoria em segurança. E ninguém melhor para cuidar de uma rede do que aqueles que conhecem cada detalhe dela, certo?

Mas o dinheiro também pode corromper hackers. Muitos, ao perceberem que podem ganhar um pouco de grana com pequenos delitos virtuais, acabam indo para o “lado escuro da força”, cometendo fraudes financeiras e outros tipos de crimes, em benefício próprio.

7. Amor

Essa é uma razão muito mais comum do que se imagina. E, muitas vezes, acaba motivando até mesmo pessoas que nunca pensaram em ser um hacker. Não são raros os casos em que, desconfiadas de estarem sendo traídas, pessoas roubam senhas, invadem perfis de redes sociais e chegam até mesmo a instalar keyloggers para monitorar a vida virtual do cônjuge.

Quem se interessar pelo assunto, pode ler, como leitura complementar, o Hacker HowTo, escrito por Eric S. Raymond, um dos porta-vozes do software livre e autor do livro “A Catedral e o Bazar”. Existe, inclusive, uma tradução para o português desse documento.

E para você? O que é que motiva hackers e crackers a agirem dessa forma? Deixe um comentário contando a sua opinião!

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