No momento em que este texto é escrito, a maior parte dos ingressos para a Copa do Mundo no Brasil já foi vendida há muito tempo, sobretudo aqueles que garantem cadeiras nas oitavas de final, quartas de final, semifinais e, naturalmente, também para a grande final no Maracanã. Entretanto, essa “escassez” acabou por originar leilões em ambiente online, nos quais um ingresso pode ter seu preço alavancado para quase 30 vezes o valor original.

Embora o chamado cambismo constitua prática criminosa, a possibilidade de ter seus investimentos multiplicados várias vezes tem produzido uma série de cambistas ocasionais em comunidades especializadas na “compra, venda e troca” de ingressos para o Mundial — nas quais a única lei parece ser a da “oferta e procura”.

Amparada no Estatuto do Torcedor (lei federal 10.671), a FIFA proíbe veementemente a revenda de ingressos, garantindo que “vender ou fornecer ingresso por um preço superior ao indicado no bilhete” é crime. Entretanto, não é difícil encontrar milhares de pessoas se “acotovelando” no Facebook para conseguir multiplicar seus proventos — ou conseguir uma posição privilegiada para assistir uma das partidas.

Nada de “Padrão FIFA” no Facebook

Conforme a lei da oferta e procura, é possível encontrar multiplicações realmente messiânicas nas redes sociais — com valores muito além dos originalmente estabelecidos pela FIFA. Conforme reportou o site BBC Brasil, apenas um ingresso de Categoria 3 para o jogo Brasil e Camarões, “próximo ao gramado, inteira”, foi encontrado por exorbitantes R$ 2 mil.

E isso em uma comunidade no Facebook que absolutamente não esconde seus motivos: “Compra/Venda/Troca de ingressos para a Copa 2014”. Vale lembrar que o ingresso em questão — de primeira fase da segunda categoria mais barata — saiu originalmente por (relativamente) módicos R$ 180 no site da FIFA, único canal oficial para a venda de ingressos para a Copa. O valor pedido, portanto, foi mais de 10 vezes superior.

Conforme observa ainda o referido veículo, é comum encontrar também “promoções” ao melhor estilo camelódromo, com anúncios como “Baixou, Baixlou, Baixou, estou vendendo a preço de custo!”. Seguindo a ideia de que “quem dá mais leva”, alguns valores podem facilmente exceder a multiplicação de 10 vezes acima.

Como funciona a “mutreta”

Os leilões online têm início sempre com alguém anunciando um ingresso, o que pode ocorrer tanto em comunidades abertas quando em fechadas (em que a inscrição precisa ser autorizada por um moderador). Normalmente, os preços são revelados apenas por mensagens privadas (inbox), momento em que se iniciam as ofertas.

Segundo disseram alguns participantes ao site BBC Brasil, é comum que, nessa fase, o vendedor passe a aumentar os preços da entrada após ter anunciado um valor inicial — em que, novamente, repete-se o chavão da “oferta e demanda”. Normalmente, as negociações são feitas por meio de perfis falsos, criados exclusivamente para a prática no Facebook. Naturalmente, os preços atingidos vão muito além daqueles impressos no ingresso.

Às vezes chega a virar piada

Mesmo no hiperbólico mercado de ingressos ilegal do Facebook, às vezes aparece um ou outro cambista um tanto “fora da casinha”, cujo preço pretendido, de tão elevado, chega a virar piada mesmo entre os cambistas e negociantes das comunidades.

Em um desses casos, uma mulher chegou a oferecer um ingresso para a o jogo da primeira fase entre Bélgica e Rússia (categoria 4, a mais barata) no Maracanã por R$ 1,1 mil — valor 18 vezes superior ao originalmente cobrado pela FIFA, R$ 60. A mulher também ofertou toda uma lista de ingressos, todos eles oferecidos por preços pelo menos 10 vezes acima do oficial.

Mas a coisa pode facilmente se tornar ainda mais absurda. Um outro anunciante, ofertando na comunidade “Ingressos para a Copa do Mundo 2014” (comunidade fechada com mais de 12 mil membros) apareceu com uma entrada categoria 4 para a semifinal na Arena Corinthians por R$ 3 mil — valor 27 vezes maior do que os R$ 110 originalmente pagos à FIFA.

Oportunidade de lucro fácil

Vale lembrar que FIFA disponibiliza um canal específico para pessoas que precisam vender seus ingressos — normalmente porque descobrem que não terão tempo de ir à determinada partida. Nesses casos, a entidade revende o ingresso e repassa o valor, decrescido de uma taxa de 10%. Obviamente, embora seja inteiramente legal, isso fica muito abaixo do valor que um bom ingresso pode alcançar nas vias marginais do Facebook.

De fato, é justamente essa oportunidade de lucro fácil que tem acenado irresistivelmente para algumas pessoas — mesmo aquelas que não atuam “profissionalmente” como cambistas. Um desses cambistas ocasionais contou à BBC Brasil que, após ter vendido um ingresso para Brasil e México na primeira fase por 10 vezes mais do que o valor original, acabou desistindo da venda. “Meu filho está implorando para que eu não venda; vou com ele ao jogo”, disse ele.

"Na Copa do Mundo, as pessoas estão vislumbrando uma oportunidade de auferir uma renda extra com a venda de ingressos, o que eu estou denominando de 'cambista ocasional'. São pessoas que não fazem desta prática um meio de vida, mas como os preços estão altos, vislumbram uma oportunidade financeira", disse o delegado Ricardo Barboza, da Polícia Civil do Rio de janeiro, em entrevista à BBC Brasil.

Flagrantes na hora da entrega

Embora grande parte dos cambistas do Facebook opte pelo envio dos ingressos negociados via Correios, é comum que a entrega seja feita pessoalmente, normalmente na cidade em que reside o vendedor. Entretanto, a prática tem sido evitada, já que muitos dos negociantes têm sido presos em flagrante pela polícia.

De fato, a Polícia Civil, por meio da Delegacia do Consumidor (Decon), afirma estar empenhada para inibir o comércio de ingressos para a Copa do Mundo. Por meio da chamada “Operação Torcedor”, os agentes tem prendido diversos cambistas no momento de fechamento do negócio.

Conforme disse o órgão à BBC Brasil, uma mulher foi pega recentemente vendendo ingressos a R$ 7 mil em um shopping no Rio de Janeiro. Segundo Barbosa, até o momento três pessoas foram presas em flagrante — mais uma quarta que, embora não tenha sido autuada, responde atualmente por crime de cambismo.

A FIFA, por sua vez, afirma trabalhar em parceria com diversas autoridades brasileiras, a fim de minimizar o cambismo de ingressos para o Mundial, no que se incluem estratégias “legais, operacionais e educacionais”, conforme garantiu a entidade ao referido site, reforçando que a venda de ingressos para o Mundial é feita exclusivamente por meio do seu site oficial.

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