Os Jogos Paralímpicos Rio 2016 terminaram no dia 18 de setembro e provaram que deficiências físicas não são um impedimento para quem deseja se tornar um profissional em determinada modalidade esportiva. Porém, por mais que poucos brasileiros saibam, um outro evento esportivo igualmente interessante e socialmente inclusivo está prestes a acontecer — e ele promete conquistar o coração de quem é apaixonado por tecnologia.

Estamos falando da Cybathlon, uma competição que propõe demonstrar tecnologias que ajudem deficientes a superar obstáculos rotineiros — ou seja, próteses biônicas e até mesmo implantes cibernéticos serão as estrelas por aqui. Marcado para o dia 8 de outubro, o evento ocorrerá no Swiss Arena, localizado na cidade de Kloten, Suíça. No total, 74 atletas divididos em 59 equipes estão inscritos para participar do desafio — são 25 países sendo representandos, incluindo o Brasil.

Esses “jogos olímpicos high tech” contarão com seis modalidades diferentes, e cada uma delas focará em um tipo de tecnologia diferente. Na Corrida de Braços Prostéticos, por exemplo, amputados utilizam membros robóticos para concluir pistas repletas de obstáculos diversos. Mais impressionante ainda é a é a Corrida de Interface Cérebro-Computador, na qual os competidores controlam personagens em um jogo de computador usando nada além do poder de seus cérebros. Absurdo, não é mesmo?

Durante as partidas, atletas com membros biônicos precisam realizar atividades diversas

A origem da ideia

“A alguns anos atrás, eu li um artigo sobre um homem que subiu uma escada no prédio Willis Tower, em Chicago, usando uma perna prostética motorizada. Isso me inspirou a pensar sobre um evento similar que poderia acontecer aqui na Suíça — um evento que poderia ir além de uma única corrida, incluindo várias outras disciplinas”, afirma Robert Riener, idealizador da Cybathlon.

Os desenvolvedores se sentirão inspirados a criar tecnologias que realmente ajudem as pessoas em seu cotidiano

Riener, que é professor no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, explica que a ideia original era demonstrar as pesquisas e descobertas da própria instituição para o público. “Porém, nós também gostaríamos de conscientizar as pessoas sobre as necessidades de deficientes físicos e os obstáculos que eles precisam enfrentar todos os dias”, comenta. “Esse conhecimento, por sua vez, pode quebrar mais barreiras”.

O pesquisador também acredita que, com a Cybathlon, mais desenvolvedores se sentirão inspirados a criar tecnologias que realmente ajudem as pessoas em seu cotidiano. “O evento já está causando um impacto positivo: novos grupos de estudantes estão sendo formados e projetos de pesquisa começaram a surgir. Tanto os estudantes quanto os pesquisadores estão trabalhando a todo vapor em seus protótipos”, finaliza.

Na foto, um atleta utiliza eletrodos de eletroencefalografia para controlar um personagem dentro de um jogo

Conheça os esportes

Como dissemos anteriormente, a Cybathlon é composta por seis modalides distintas, sendo que cada uma delas é disputada por equipes compostas pelo atleta e seus técnicos, treinadores etc. O TecMundo elaborou uma rápida explicação sobre cada uma das categorias, que, embora pareçam simples, são regidas por um conjunto de regras bastante rigoroso.

Corrida de Interface Cérebro-Máquina

Esta é, de longe, a modalidade mais curiosa da Cybathlon. Neste esporte, os atletas disputam entre si em uma corrida virtual, controlando seus personagens com o poder do cérebro. Isso só é possível graças ao uso de tecnologias como espectroscopia no infravermelho (NIRS) e até mesmo a popular eletroencefalografia (EEG). Neste segundo método, eletrodos são posicionados na cabeça do participante e sua atividade cerebral é traduzida em comandos dentro do game.

Corrida Ciclística de Estimulação Elétrica Funcional

Nesta modalidade, pilotos paraplégicos utilizam um tricilo adaptado e pedalam o mais rápido que conseguirem para alcançar a linha de chegada. “Mas como um paraplégico vai pedalar, TecMundo?”. Aí que está a parte interessante. Os atletas contarão com estímulos artificiais nos nervos motores de suas pernas, causando contrações nos músculos e resultando na movimentação necessária.

Para isso, é necessário colar ou até mesmo implantar eletrodos no corpo dos participantes, sendo que cada equipe é livre para desenvolver a sua própria tecnologia de estimulação elétrica funcional. Os pilotos devem ter total controle da estimulação e precisam percorrer uma pista oval, bastante semelhante a um circuito de ciclismo de pista tradicional.

Corrida de Braços Prostéticos

O nome já diz tudo. Os atletas, que devem ter um ou ambos os braços amputados, utilizam uma prótese eletrônica para enfrentar um circuito recheado de obstáculos diversos. Essas barreiras são, na verdade, tarefas inspiradas em situações cotidianas, como agarrar e mover um objeto pequeno ou até mesmo carregar algo pesado ao longo de determinada distância. Por conta disso, as próteses precisam ser responsivas e resistentes.

Corrida de Pernas Prostéticas

Outra modalidade relativamente simples. Para participar, é necessário que o esportista tenha uma ou ambas as pernas amputadas, e, através de próteses tecnológicas, devem percorrer um circuito mostrando que os membros artificiais respondem bem na hora de subir degraus, encarar aclives e até mesmo realizar pequenos saltos.

Corrida de Exoesqueleto

Este esporte também é voltado aos indivíduos paraplégicos. Trajados com exoesqueletos que conseguem devolver seus movimentos de forma parcial, os atletas são desafiados a concluir tarefas diversas, como subir escadas e se sentar. Esses objetivos podem até parecer simples, mas são bem desafiadores para quem não é capaz de movimentar boa parte de seu próprio corpo.

Corrida de Cadeira de Rodas Motorizada

Andar em uma cadeira de rodas não é algo fácil. Nesta modalidade, porém, os atletas utilizam um veículo motorizado e inteligente, feito especificamente para tornar sua vida mais simples e ultrapassar obstáculos inspirados na vida real (como rampas e terrenos acidentados). Novamente, capa equipe pode desenvolver seu próprio equipamento, desde que ele esteja de acordo com alguns parâmetros previamente definidos.

E tem brasileiro na disputa

Das 59 equipes inscritas na Cybathlon, só uma delas representa o nosso país (e, indo além, a América Latina inteira). Dirigido pelo professor de engenharia elétrica Antônio Padilha L. Bo, da Universidade de Brasília, o time Projeto EMA (sigla para Empowering Mobility & Autonomy) participará da Corrida Ciclística de Estimulação Elétrica Funcional. No total, onze pessoas participam da iniciativa, incluindo alguns parceiros da França.

Nosso atual protótipo é totalmente funcional

Em uma entrevista publicada no próprio site da competição, Antônio afirma que o triciclo desenvolvido pelos brasilienses é um misto de sistemas de empresas parceiras e um hardware feito do zero. “Nosso atual protótipo é totalmente funcional e permite que usuários de diferentes idades e alturas experimentem o ciclismo por estimulação elétrica funcional, seja para treinamento ou para recreação”, afirma.

Para cobrir alguns gastos relacionados a viagem à Suiça (como transporte do triciclo e alimentação), a equipe do Projeto EMA abriu uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. No total, eles arrecadaram pouco mais de R$ 23 mil através de 279 apoiadores. “Estamos torcendo para aumentar a disponibilidade de tecnologias projetadas que ajudem indivíduos com lesões na medula espinhal a praticar exercícios físicos, se beneficiando de seus efeitos a curto e longo prazo”, conclui Antônio.

O time Projeto EMA e seu triciclo

Ficou interessado?

Como citado anteriormente, a Cybathlon está marcada para acontecer no dia 8 de outubro — e, caso você tenha se interessado pelo evento a ponto de comprar uma passagem para a Suíça, saiba que o ingresso para a competição pode ser adquirido online e custa apenas 20 francos suíços (o equivalente a R$ 67).

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