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Mais do mesmo: revolução da Apple para a Siri AI era só o Gemini disfarçado de novidade

Opinião – Provando mais uma vez que o consumidor sensato não deve fazer compras de produtos de tecnologia com base na promessa de recursos futuros, o anúncio das novidades da Apple da WWDC 2026 entregou quase nada de realmente inédito em inteligência arti

Avatar do(a) autor(a): Leonardo Barreiros Rocha

schedule16/06/2026, às 17:45

Dois anos. Esse foi o tempo que passou desde que a Apple subiu a um palco pela primeira vez para tentar convencer todo mundo de que os iPhones estavam prestes a se transformar em superdispositivos revolucionários de Inteligência Artificial (IA). Duas primaveras inteiras que, inclusive, renderam para a empresa um processo legítimo de US$ 250 milhões por propaganda enganosa.

Aí chegou a WWDC 2026. Esse evento era, literalmente, a linha de chegada ou o limite absoluto para eles provarem se a tal da Apple Intelligence e a nova Siri eram reais. E o que eles conseguiram entregar de verdade? Bom, digamos que em boa parte poderia ter sido um e-mail… escrito pelo Gemini fingindo que é a Siri.

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O visual muda, mas a essência é terceirizada

Vamos começar pelo visual, porque de embalagem a Apple entende. Em 2024, a Siri mudou daquela clássica bolinha flutuante no rodapé para uma "aura" colorida que brilhava ao redor da tela inteira, vendida como o design definitivo da "Siri com IA", mas que meio que acabou sendo tudo o que a gente recebeu dela. Agora, eles decidiram integrar a assistente à Dynamic Island no topo do aparelho. No fim das contas, para mim parece uma modernização daquela mesma bolinha de vários anos atrás.

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Nova Siri AI tem design mais modesto, porém renovado. (Imagem: Apple/Divulgação)

Mas beleza, e as novidades que realmente importam? É aí que a hipocrisia ganha força: no quesito habilidades reais, a nova Siri com IA não traz absolutamente nada de inédito no mercado. E o motivo é simples: a Apple admitiu a derrota no desenvolvimento de sua própria inteligência artificial generativa.

Em vez de criarem algo do zero, eles simplesmente pagaram uma grana preta para o Google transformar o Gemini na base da nova Siri. Por causa dessa terceirização, absolutamente tudo o que o seu iPhone novo vai fazer com IA, o Gemini já faz de forma nativa faz tempo.

Claro, não dá para ser injusto: se compararmos com a Siri antiga e capenga que temos até hoje nas versões estáveis do sistema, o salto de qualidade é astronômico. Mas chamar isso de "inovação da Maçã" é forçar demais a barra.

Para vocês verem que não é picuinha minha, vejam a lista de "grandes novidades" que a Siri ganhou graças ao motor do Google:

  • Conversas contínuas e fluidas;
  • Capacidade de ler e entender o que está acontecendo na sua tela;
  • Cruzamento de contexto pessoal puxando dados do seu calendário, mensagens, e-mails e navegador;
  • Ferramentas para apagar objetos indesejados de fotos e estender elas usando conteúdo gerado.
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Siri AI também está incorporada à câmera do iPhone. (Imagem: Apple/Divulgação)

Eles também apresentaram o Visual Intelligence integrado direto no app de câmera. Ele promete ler o prato de comida na sua frente para dar informações nutricionais ou ajudar a rachar a conta e calcular a gorjeta do restaurante com os amigos. Se o resultado for confiável no dia a dia, vai ser útil, mas posta um emoji com a mãozinha levantada aí nos comentários se você também achou muito parecido com Gemini, Circule para pesquisar e até Google Lens.

Mas a maior surpresa foi a Apple deixar a Siri mais expressiva, com uma voz natural, e — milagre! — incluir configurações ajustáveis. Com o modelo certo de iPhone, você escolhe o tom da voz, o nível de "emoção" e até a velocidade da fala. Quem acompanha a Apple de longa data de verdade admite que eles não costumam ser fãs de dar esse nível de controle para as pessoas.

A Apple também prometeu que a IA vai entender melhor o que você falar para ela e acertar mais na pontuação e gramática quando você estiver ditando algo como uma mensagem para ela. Acredite, eu aguardo ansiosamente por uma realidade em que esse tipo de coisa se torne realmente bom, então não estou reclamando disso. Mas é meio que exatamente o que o Google destacou com o recurso Rambler do Gemini no evento deles, então mais uma vez, nada de novo.

Image Playground e a "lavagem" digital

Teve novidade também no Image Playground, que promete criar imagens falsas com "maior qualidade" mesmo usando fotos de pessoas reais como base. Qualidade essa que qualquer pessoa que conhece de verdade quem estiver retratado vai bater o olho e notar na hora que foi feita por uma máquina. Sinceramente? Esse tipo de “lavagem” digital sem alma que toda big tech parece que quer nos empurrar goela abaixo é um dos motivos que me fazem pegar ranço de IA hoje em dia. Não é o principal fator, mas me impacta.

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O iOS 27 também conta com mais recursos para gerar imagens utilizando IA. (Imagem: Apple/Divulgação)

A ironia máxima da WWDC para mim é que, como a Apple não precisou gastar tempo desenvolvendo a inteligência de verdade — já que pagaram o Google para fazer o trabalho pesado —, eles focaram na integração da interface.

Quando você chama a Siri, ela abre uma aba amigável no topo da tela. Se você arrastar para baixo, entra em um aplicativo dedicado da Siri AI para bater papo e ver o histórico de conversas, tudo perfeitamente sincronizado no ecossistema da Maçã. É uma experiência fluida? Parece que sim. Mas eu tenho que perguntar: quem é que jurava de pé junto, até um ano atrás, que a Siri com IA jamais seria "apenas mais um chatbot"? Pois é, dona Apple, a língua é o chicote do corpo.

O lado útil: atalhos por voz e troca automática de senhas

Para eu não ser chamado de hater inflexível, se for para eu realmente dar o braço a torcer aqui e falar sobre uma novidade que achei honestamente muito legal, eu vou ter que dizer que foi a nova experiência com os atalhos. O aplicativo de Atalhos sempre foi uma ferramenta maravilhosa no iPhone, mas o processo de aprender a criar automações úteis era tão complexo que a maioria das pessoas nem tenta, desiste rápido ou só faz um ou dois seguindo dicas que viu no YouTube, Instagram ou TikTok e para por aí.

Agora, vai bastar falar com o celular usando linguagem natural que a IA monta o atalho para você. Você pode simplesmente dizer: "Mande uma mensagem para a minha esposa sempre que eu sair do trabalho e inclua quanto tempo vou demorar para chegar em casa". O sistema faz o resto, mostra o resultado para você aprovar e deixa você fazer ajustes antes de terminar.

Isso sim é IA sendo útil. Fez lembrar bastante do gerador de Widgets customizados que o Google mostrou no I/O, mas não deixa de ser excelente. E óbvio: se a Samsung ainda não atualizou as Rotinas da OneUI com a Bixby e a Galaxy AI, pode ter certeza de que eles já estão correndo atrás disso nos bastidores depois dessa WWDC.

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Apple também renovou recursos de segurança do iOS 27. (Imagem: Apple/Divulgação)

Teve ainda outra coisa legal, mas que aqui já é potencialmente problemática por alguns motivos. Um novo recurso inteligente de segurança permite que o iPhone não só avise pra você quando uma senha que você usa em algum serviço online foi comprometida, mas com a sua permissão a IA vai até o site, faz o login e troca a senha para você por uma nova mais forte.

Ecossistema fechado e a mira da União Europeia

A parte de gerar uma senha que você não vai decorar não é nem o problema para mim, já que os gerenciadores de senha meio que já fazem isso e sinceramente é uma boa ideia se você realmente quiser ficar seguro na internet. Mas para mim a parte suspeita é que isso serve perfeitamente como mais uma forma de a Apple prender as pessoas no seu ecossistema. Muito mais difícil trocar o celular da Apple por um Android se é só o seu iPhone que sabe quais são todas as suas senhas.

Me pergunto se isso tem relação com o fato de que os novos recursos de IA anunciados pela Maçã vão demorar mais para chegar em países da União Europeia e na China, onde as leis regulatórias contra práticas anticompetitivas são muito mais fortes.

O mesmo vale para aquela função idêntica ao Magic Cue dos celulares Pixel, que deixa a IA ler seus e-mails, calendário, mensagens e arquivos para sugerir respostas automáticas com um toque só no teclado quando alguém te pergunta por mensagem sobre as datas da sua próxima viagem de férias, por exemplo.

O nosso querido editor Well Arruda testou o Beta dos desenvolvedores do iOS 27 e confirmou: por enquanto, essa integração só funciona nos apps nativos da Apple, como o Mail e o Mensagens. Esqueça de ver isso funcionando a partir de dados que estão no seu Gmail ou no WhatsApp tão cedo. Pode anotar: se isso continuar assim, a União Europeia vai cair matando em cima dessa exclusividade.

Para fechar com chave de ouro a hipocrisia, precisamos falar sobre quem vai poder usar isso e, claro, o preço. A Apple revelou a lista de compatibilidade final em um slide que passou na apresentação com uma velocidade que faria inveja àqueles narradores de aviso de efeito colateral de remédio em comercial de TV.

Quem vai receber as novidades do iOS 27, Apple Intelligence e Siri AI?

  • iOS 27 base, sem recursos de IA: iPhone SE (2ª geração) e linha iPhone 11 ou mais recente;
  • Recursos gerais do Apple Intelligence e nova Siri: iPhone 15 Pro e superiores;
  • Tudo da Siri AI (incluindo controle de expressividade e melhorias de ditado): iPhone Air e iPhone 17 Pro ou superiores.

Pois é, nem o iPhone 17 base, nem o 17e vão receber tudo que vem de novo no iOS 27. Se você acreditou naquele papo de que a geração do iPhone 16 foi inteira “construída do zero para o Apple Intelligence”, bom, quem te fez de tonto foi a Apple, não eu. Eu sempre falo para não comprar produtos com base em promessas de recursos futuros.

O preço oculto da Inteligência

E o preço? Bom, a Apple respondeu meio de canto de boca, em tópicos curtos enterrados nos materiais de divulgação e sem muita clareza ou detalhes. Segundo ela, alguns recursos do Apple Intelligence, incluindo geração de imagens, vão ter limites diários de uso gratuito porque dependem de modelos poderosos que rodam em servidores. Você pode ter acesso aumentado a essas funções como parte de maioria dos planos de assinatura do iCloud+. Quais exatamente são os recursos limitados? Quais são os limites de cada plano? Quanto isso vai custar? Descubra. Não está claro.

No fim do dia, a grande revolução de IA da Apple se resume a: pegar o sistema do vizinho, o Google no caso, envelopar com a interface da casa, prender você ainda mais no ecossistema deles e, de quebra, cobrar uma assinatura ou te obrigar a comprar o iPhone mais caro da linha para poder usar as funções completas. A Apple Intelligence é impressionante se comparada ao passado, mas a postura da empresa de vender isso como a "última bolacha do pacote da inovação" é de uma hipocrisia sem tamanho.


E você, acha que vale a pena trocar de celular ou assinar plano só por causa dessa Siri "Geminizada"? Deixe seu comentário aqui embaixo para contribuir com o debate! E continue acompanhado o TecMundo todos os dias para mais conteúdo opinativo e as informações mais importantes da tecnologia.