Um levantamento de dados feito pela Google para a BBC Brasil revelou o quanto pessoas em cada estado do país buscaram expressões relacionadas ao estupro e outros tipos de violência contra a mulher. As informações, cujos dados vêm desde o início da existência da empresa, revelaram que Roraima é o estado com mais buscas do termo “Fui estuprada”, enquanto o Amazonas é o primeiro no termo “Fui Molestada” e Sergipe, com “Fui assediada”.

Embora não revele números detalhados, a Google trouxe um ranking dos cinco estados brasileiros que mais pesquisaram os termos descritos acima nos últimos 11 anos. Mesmo trazendo informações todas as partes do país, os dados destacaram uma quantidade muito maior de casos na região Norte do Brasil – o que é especialmente preocupante, considerando que o Sudeste possui um acesso muito maior de internet.

"Mesmo proporcionalmente, é interessante que o Norte apareça no topo destas pesquisas. Como o acesso à internet no Sudeste é muito grande, mesmo diluído na população, deveria haver mais buscas dessa região", explicou a psicanalista Juliana Cunha, diretora psicossocial da ONG Safernet. "O dado do Google é importante para pensarmos em políticas públicas para Norte e Nordeste, porque essa é possivelmente uma população de mulheres mais vulnerável."

O dado é importante para pensarmos em políticas públicas para Norte e Nordeste, porque essa é possivelmente uma população de mulheres mais vulnerável

Outro ponto crucial trazido pelas pesquisas foi que há um enorme número de estupros vindos diretamente de pessoas próximas da vítima; normalmente parentes, amigos ou mesmo namorados. Isso, de fato, só reforça pesquisas anteriores, que já indicavam que essas pessoas eram responsáveis por até 70% dos casos de estupro no país.

  • Tocantins foi o campeão de buscas por "fui estuprada pelo meu pai";
  • Alagoas teve mais buscas de "fui estuprada pelo meu padrasto";
  • Mato Grosso do Sul foi campeão em "fui estuprada pelo meu namorado";
  • Mato Grosso registrou o maior número de "fui estuprada pelo meu tio";
  • Amazonas foi o campeão em "fui estuprada pelo meu primo";
  • Paraíba teve o maior índice de buscas de "fui estuprada pelo meu amigo";
  • Pará ficou em primeiro no termo "fui estuprada pelo meu avô".

É importante lembrar, no entanto, que nem todas as pesquisas feitas sobre o assunto no motor de buscas são necessariamente de vítimas. Muitas delas podem vir de pessoas curiosas sobre relatos de casos como esses ou mesmo estar estudando sobre o tema, por exemplo. “Mas (o resultado) pode nos dar uma luz sobre os casos de estupro que as estatísticas não estão contabilizando”, disse Carlos Affonso, diretor do Instituto Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Internet: uma fonte de auxílio para as vítimas

Não limitando-se a isso, Affonso também nota que a internet vem se mostrando extremamente útil para que vítimas busquem orientação e ajuda. “A tecnologia tem sido vista como vilã por permitir compartilhar aquele vídeo e ampliar o crime, mas foi a mesma tecnologia que permitiu ter ciência de que o crime aconteceu e identificar autores. E hoje ela também potencializa meios de assistência e orientação à vítima”, afirmou ele.

Da mesma forma, Cunha também aponta a importância que a internet tem para as vítimas – não apenas para saber como proceder, mas também para que elas mesmas compreendam que não são as culpadas pelo ocorrido, sendo acolhidas por outros.

“O fato de a mulher ter sofrido uma situação de violência não necessariamente implica que ela perceba essa situação como violenta. Muitas vezes é um outro que vem de fora que diz que isso é sério, grave, não é sua culpa. A internet está sendo esse ‘outro’”, disse ela. “Buscar na internet é uma forma de dar significado ao que aconteceu. É um espaço de tirar essa dúvida, de saber se está errada, de ouvir outros relatos e saber se o que viveu é um caso para denúncia”, continuou.

Buscar na internet é uma forma de dar significado ao que aconteceu. É um espaço de tirar essa dúvida, de ouvir outros relatos e saber se o que viveu é um caso para denúncia

Mesmo com tudo isso, é importante notar que apenas 10% dos casos de violência sexual chegam ao conhecimento da Polícia. Isso porque, no lugar de prestarem queixas formalmente, as vítimas preferem usar a própria internet e as redes sociais como veículo de denúncia.

De acordo com a psicóloga Arielle Scarpati, esse é um caso bastante recorrente. “Muitas dizem: eu conversei com alguém pela internet, postei em um grupo, busquei ajuda online. Mas quando você pergunta se elas têm interesse em denunciar, muitas dizem: ‘não, eu não vou me submeter a isso. Não vou para a polícia’.”

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