Mais uma parte da indústria megalomaníaca está embarcando nos recordes de estruturas gigantescas. A Shell está construindo na Coreia do Sul a Prelude, a maior embarcação do mundo, com 488 metros de comprimento e 105 de altura.

Para você ter noção, o Empire State Building, com seus 443 metros, perderia em comprimento se fosse colocado deitado ao lado do navio. Comparando com prédios tupiniquins, precisaríamos de três Edifício Itália – um dos maiores edifícios do Brasil – para equiparar ao tamanho da Prelude.

Mas para que tudo isso?

Certamente, o imenso esforço e tempo gasto para construir a colossal estrutura não foi para bater recordes. O propósito da Prelude é encontrar e retirar gás natural de uma nova maneira na costa da Austrália.

Normalmente, o recurso é extraído do fundo do oceano e enviado para terra firme por canos, para depois sofrer um processo que o liquefaz – isso o torna 600 vezes menor e mais fácil de ser transportado – e, por fim, ser vendido.

Esse procedimento necessita de uma usina na costa para esfriá-lo e torná-lo líquido para o comércio. Mas a embarcação está a 160 quilômetros das terras australianas, e a Shell decidiu facilitar este trabalho investindo em um complexo dentro da própria Prelude, descartando a necessidade de qualquer estrutura em solo.

Seguramente, com todo o seu espaço a bordo, isso não será um problema. A empresa não divulgou números de investimento no projeto, mas se estima que esteja na marca dos bilhões de dólares. E o projeto ainda não acabou.

Dando vida ao titã

As fotos podem nos passar uma impressão de que em breve veremos o enorme navio flutuando pelo oceano. A verdade é que ele está longe de ser finalizado, apesar de 30 mil funcionários trabalharem todos os dias para construir o gigante reservatório de combustível fóssil.

A superfície da Prelude pode ser resumida como um emaranhado de canos e conectores necessários para o transporte e a transformação do gás. A quantidade aparentemente exagerada é necessária para realizar o trabalho que uma usina faria em solo após o transporte do gás.

Ao todo, o navio terá 14 módulos que, combinados, formarão uma estrutura para processar o recurso natural quatro vezes menor do que uma convencional. Mensurando o andamento da construção, apenas três foram instalados, sinalizando que ainda há muito trabalho a ser feito.

Uma proposta para suprir o mercado asiático

Essa é uma aposta de alto risco da Shell, que pretende explorar a necessidade pelo recurso natural em grande parte da Ásia. A China e o Japão são os maiores potenciais consumidores dos recursos extraídos.

Porém, o investimento ainda é um tiro no escuro. A ideia de fornecer gás para essas potências é interessante quando levantamos informações dos últimos anos, mas imprevistos podem acontecer. Atualmente, o território nipônico conta com menos fontes de energia nuclear, decorrente dos incidentes em Fukushima.

Na outra ponta, a China tem substituído a energia da queima do carvão por outras menos poluentes, em uma tentativa de limpar a atmosfera, e, definitivamente, o gás natural é uma boa alternativa para uma solução temporária.

Mas investir tanto dinheiro em uma fonte de energia que talvez não seja a prioridade daqui a alguns anos pode ser um risco. Além disso, a economia chinesa pode sofrer um declínio, o Japão pode considerar reativar suas usinas ou qualquer outra coisa pode acontecer e afetar as vendas do gás natural.

E o que esperar para o futuro?

A Shell almeja receber retorno do investimento com a alta demanda do gás natural. Se a aposta se provar rentável, a empresa espera criar uma frota de Preludes e explorar áreas antes consideradas inadequadas ou muito caras para serem alcançadas. Como todo pioneiro, talvez seja um projeto que gerará um grande prejuízo ou revolucionará a indústria.