O ator Matt Damon (Gênio Indomável, trilogia Bourne) comentou recentemente que a Netflix tem pedido que os roteiros sejam mais simples e expositivos porque o público está disperso demais.
Agora, os personagens explicam mais do que antes, a trama é mais repetitiva propositalmente, e coisas que antes ficavam nas entrelinhas? Esquece… a moda do streaming é ser mais óbvio para ninguém se perder no caminho de casa enquanto assiste a um filme pelo celular e acompanha uma live de Fortnite. Um verdadeiro terror para David Lynch e Night Shyamalan.
E a culpa é de quem? Talvez um pouco sua e minha. De tanto consumirmos vídeos de um minuto nas redes sociais, quando finalmente tentamos assistir a um longa-metragem, ficamos inquietos, quase com sede de outras telas cheias de estímulos, ou simplesmente pegamos no sono no primeiro hiato da narrativa. Por isso, tenho evitado filmes após as 20h.
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Inclusive, pesquisas sobre a “second screen” mostram que assistir enquanto se usa outra tela reduz compreensão e memorização do conteúdo.
Mas nem todos os streamings são assim. Ainda existe a HBO, com seu Game of Thrones e The Penguin, que vai muito bem com um chá e dois quilos de paciência.
O problema não é Namorado por Assinatura estar no top 10, mas o que essa preocupação de simplificação e repetição — leia-se “deterioração da inteligência narrativa” — da Netflix simboliza.
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Quando uma plataforma parte do princípio de que o público estará olhando para outra tela, ela deixa de disputar atenção por qualidade e passa a projetar conteúdo para conviver com a dispersão.
E isso parece extrapolar os streamings. Reflete também nos creators de redes sociais que parecem se preocupar obsessivamente com os três primeiros segundos do gancho inicial, e não com o restante dos intermináveis cinquenta e sete segundos de vários nada.
Reduflação da nossa mente?
Não somente o pacote de Bis está reduzido, mas as séries em geral têm três vezes menos episódios por temporada, as músicas já não têm verso C e estão mais curtas, e até os textos na internet parecem ter sido comprimidos para caber em um post ou em um fio de poucas linhas.
Até o Google parece mais raso agora que o Gemini entrega uma resposta pronta no topo da página, antes mesmo de você precisar pensar muito ou abrir um link. Saudades, Barsa? Não exageremos.
Enquanto na reduflação da economia o produto diminui de tamanho, mas o preço costuma continuar o mesmo — estou sendo expositivo, melhorou? —, aqui parece que a gente está pagando caro.
Pagamos com atenção, com profundidade e com paciência. E talvez não haja tanta garantia da nossa evolução. Se for permitido melodrama aqui.
Hoje, quase tudo é moldado para ser consumido em estado de fragmentação: vídeos curtos, manchetes rápidas, opiniões mastigadas, interfaces que evitam qualquer esforço, narrativas que explicam demais.
O mundo digital foi ficando cada vez mais eficiente em capturar o olhar, mas aparentemente cada vez menos interessado em sustentar profundidade.
A consequência é que a linguagem, a arte e até o pensamento começam a ser comprimidos para caber numa mente cansada, apressada e permanentemente interrompida. E que possa ser curtida e compartilhada no Twitter.
Menos é menos
Rede social não causa isso tudo sozinha, mas acaba treinando a expectativa de recompensa rápida: gancho imediato, pouca ambiguidade e pouca (pouquíssima!) paciência para silêncio, subtexto ou cenas contemplativas. Então, por usarmos tanto o smartphone, esse hábito acaba transbordando para o comportamento de consumo de várias coisas, como filmes, músicas e livros.
E a bonita da inteligência artificial, claro, ajuda bastante a intensificar. Nossa ansiedade, inclusive.
Se antes a busca por conhecimento exigia algum esforço, agora a IA entrega uma síntese pronta. O usuário já não pesquisa tanto, apenas espera a resposta chegar. É a diferença entre colher as laranjas e preparar um suco espremido na hora, ou ficar sentado esperando o Jeffrey trazer um copo fresquinho na mãozinha.
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Tudo parece ter ficado mais curto e mais fácil de consumir. Afinal, não temos muita paciência nem atenção para tanto bombardeio de informação. Estamos constantemente sobrecarregados cognitivamente, não é verdade? Mas o fácil nem sempre é o melhor. E menos nem sempre é mais.
Afinal, se a IA pode nos dar respostas instantaneamente, por que ainda deveríamos perder tempo pensando?
Por questionamentos tão profundos e urgentes como esses que surgem iniciativas como a Alpha School (Estados Unidos), que tenta reorganizar a forma de aprender em um mundo onde informação é infinita, respostas são instantâneas e a atenção humana parece cada vez mais escassa.
Nessa escola, não há professores. Mas não estamos prontos para essa conversa.
Se J.R.R. Tolkien — que nunca chegou a assistir ao primeiro filme de O Senhor dos Anéis e muito menos a reels — estivesse aqui, provavelmente estaria me fitando e julgando ao ver a trilogia com suas mais de mil e seiscentas páginas intactas no alto da minha estante. Este é um lembrete da promessa de leitura que sigo adiando.
Mas, hoje, sendo honesto, acho que vou de Maurício de Sousa. Graphic novels não. Desenho animado curtinho no YouTube.
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