Sintonia, da Netflix, ousa ao falar sobre a realidade da favela (crítica)

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Quando pensamos sobre o atual cenário da TV brasileira, uma coisa é certa: o jovem está cada vez menos contemplado por uma dramaturgia feita especialmente para ele. As emissoras da TV aberta dão mais sinais de que os adolescentes não estão entre o seu público-alvo no que diz respeito à ficção. O encerramento de Malhação pela Globo, a novela adolescente que já estava há 26 anos na grade da Globo, ajuda a reiterar esta sensação.

Quer dizer que o jovem não está mais interessado em assistir a “historinhas” sobre pessoas de sua idade? Não exatamente. Talvez o que dê para especular é que o adolescente brasileiro possa estar cansado de acompanhar vidas de personagens muito distantes de sua realidade. O sucesso da produção brasileira Sintonia, disponível na Netflix, é uma prova disso.

Sintonia é uma série criada e dirigida pelo empresário KondZilla. Este é o nome artístico de Konrad Dantas, um paulista que erigiu um verdadeiro império dentro da cultura popular brasileira a partir de um gênero que muita gente (especialmente os mais velhos) olha com preconceito: o funk. Este império construído por ele comporta vários empreendimentos – dentre eles, uma produtora, um gigantesco canal no YouTube e a gravadora KondZilla Records.

O produtor KondZilla ao lado dos protagonistas de Sintonia.O produtor KondZilla ao lado dos protagonistas de Sintonia.Fonte:  Netflix 

Sintonia, portanto, é o braço de KondZilla dentro da ficção. E a série faz jus à proposta de que Konrad Dantas em sua produtora que, como ele disse em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, é encarar a favela como um combustível capaz de mover a indústria do entretenimento. Na prática, isso quer dizer que Sintonia parte do universo do público de KondZilla (os milhares de adolescentes e jovens espalhados pelo Brasil, imersos num país afogado pela desigualdade, e que têm o funk entre as poucas chances de ascensão social) para contar a história de três protagonistas – todos eles muito distantes dos personagens de classe média presentes na maior parte das temporadas de Malhação.

Protagonistas periféricos

A série se passa numa favela em São Paulo, e acompanha a jornada de três amigos. Doni (vivido por MC Jottapê) tem ares de playboy entre os parceiros: ele luta por conquistar um espaço dentro do funk ostentação, enquanto precisa lidar com a concorrência com artistas já consolidados no próprio meio e com a falta do apoio dos pais, que insistem que ele foque nos estudos. Rita (Bruna Mascarenhas) é uma menina órfã que, após colocar sua melhor amiga numa roubada, decide procurar algum acolhimento na igreja evangélica que sua mãe frequentava. O lado mais duro da “quebrada” se concentra na história do terceiro protagonista, Nando (Christian Malheiros). Pai de uma menina pequena, ele acaba vendo no tráfico a melhor oportunidade que tem de subir na vida.

Na personagem Rita, há uma discussão importante sobre a presença da igreja nas periferias.Na personagem Rita, há uma discussão importante sobre a presença da igreja nas periferias.Fonte:  Netflix 

O roteiro de Sintonia é fundamentado numa estética colorida, pulsante, ainda que crua – não se pretende “enfeitar” a pobreza em nenhum aspecto, mas é inegável que há uma beleza viva no ambiente musical que os amigos habitam. Gravada na favela do Jaguaré, em São Paulo, a série tampouco se esforça em passar mensagens moralistas acerca dos temas abordados. O esforço parece ser o de muito mais apresentar uma realidade a partir da própria lógica dos jovens periféricos. É de se louvar, por exemplo, que a abordagem do universo evangélico na série não seja coberta por uma crítica óbvia. Embora Rita tenha suas ressalvas em relação ao microcosmos que passa a frequentar (especialmente no que diz respeito à “capitalização” dos fiéis por igrejas maiores), a narrativa esclarece que o pequeno templo a que ela se agrega tem uma função importantíssima naquela comunidade.

Foco nas relações humanas

Outro elemento importante de Sintonia é uma discussão sobre como as relações mantidas entre todos aqueles sujeitos muitas vezes são sobrepujadas pela escassez que cerca suas vidas. Destaco, especialmente, o papel dos pais que tentam (por vezes, de formas tortas) proteger seus filhos no que entendem ser uma realidade cheia de ameaças. Os pais de Doni, como já disse, não conseguem compreender como optar pelo caminho do funk pode ser melhor que a trilha “normal” de um dono de mercadinho, que é o projeto que eles sonham para o filho.

Há ainda outros núcleos com menor espaço em Sintonia, mas igualmente interessantes. Uma das tramas mais marcantes na primeira temporada é a de Rita com sua melhor amiga Cacau (Danielle Olímpia). Ambas se viram vendendo bugigangas numa estação de metrô. Após causar a prisão da amiga, Rita precisa lidar com a ira da mãe dela, Jussara (vivida por Rosana Maris, em excelente performance), que quer impedir a amizade das duas e a categoriza como má companhia. O embate entre as duas se dá por meio de um “duelo” de influências – em certo momento, para ameaçar Rita, Jussara disse que também tem contato com bandidos.

A ideia da proteção também se repete na trama de Nando. Ele tem as responsabilidades de um pai de família, para a qual evidentemente não está preparado, assim como sua jovem esposa. Dentro de uma realidade em que as principais referências de poder são os traficantes, Nando procura uma maneira de suceder na “bandidagem”, ainda que esteja o tempo todo em busca de alguma ética que justifique aquilo que faz – como, por exemplo, quando precisa tomar decisões sobre o que fazer com colegas desonestos.

Resistência pela linguagem

Destaco ainda a maravilhosa polifonia presente em Sintonia. Muitas críticas que circulam sobre a série mencionam o fato de que os atores utilizam uma linguagem que pode parecer “cifrada” a alguns espectadores. Há os que digam, inclusive, não entender as suas falas. Penso que o uso desse recurso no roteiro – que os personagens falem a “língua” da favela, com muitas gírias, muitas vezes não “traduzidas” para o público – é um ponto que novamente demarca o objetivo deste projeto de KondZilla. Como ele mesmo explica: é uma maneira de a favela ocupar lugares que, ao longo dos anos, não foi dela. A linguagem, por isso mesmo, funciona como um recurso de ocupação.

Disponível na Netflix, Sintonia é uma ótima pedida a todos os jovens não representados por Malhação – e para os não tão jovens assim.

Maura Martins é jornalista, professora e editora do portal de jornalismo cultural Escotilha. No TecMundo, é colunista nos cadernos Minha Série e Cultura Geek.