Logo TecMundo
The BRIEF

As demissões caíram 41%. E é agora que a história fica ruim

Opinião do colunista - As demissões caíram 41% e as contratações subiram 25%. Mesmo assim, a inteligência artificial lidera os motivos de corte há cinco meses seguidos.

Avatar do(a) autor(a): Raul Mata - Colunista

schedule24/08/2026, às 18:45

Você provavelmente acha que 2026 está sendo um ano de demissões em massa por causa da inteligência artificial. Eu achava.

A Challenger, Gray & Christmas — a consultoria que há décadas produz o levantamento que todo mundo cita sobre corte de vagas — publicou seu relatório de julho no dia 6 de agosto. Nele: 477.033 demissões anunciadas de janeiro a julho de 2026, queda de 41% sobre o mesmo período de 2025. Julho teve 33.429 cortes, o menor número mensal em dois anos. E as contratações anunciadas subiram 25%.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

Andy Challenger, que assina o relatório, resumiu: “A IA está deslocando o mercado de trabalho, mas não o está desmontando”.

Ótimo. Fim da coluna, pânico injustificado, todo mundo pode voltar a dormir.

Só que o mesmo relatório diz que a IA foi o motivo mais citado para demissões pelo quinto mês consecutivo. E, seis dias depois, Stanford publicou um dado que não combina com nada disso.

As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. É aí que mora a história.

Um número que a própria fonte diz que é mole

Em 2026, a IA foi citada em 112.713 anúncios de demissão — cerca de 24% de todos os cortes do ano. Parece sólido — até a consultoria fazer algo raro: entregar a fragilidade do próprio dado.

O relatório diz, com todas as letras, que “a natureza ambígua do que constitui um corte atribuído à IA ficou evidente em julho”. O caso: um hospital do Bronx cortou 12 vagas de enfermagem após adotar um software. O sindicato acusou substituição por IA; o hospital chamou a acusação de “enganosa”; o fornecedor do software divulga ferramentas de IA no próprio site. Quem está certo? A Challenger não sabe — e por isso classificou os cortes numa categoria que eu não conhecia: “Atualização Tecnológica (possivelmente IA)”. Só em 2025, foram 20.219 demissões nesse limbo.

Existe uma gaveta estatística chamada “possivelmente IA”. Pensa no tamanho disso.

E então vem a frase mais importante do ano, de novo Andy Challenger:

"Citar IA em um anúncio de demissão pode conquistar investidores, ao mesmo tempo em que afasta funcionários atuais e candidatos. É por isso que a comunicação passou de evasiva a agressivamente citar a IA."

Ou seja: quem produz o número admite que ele mede, em parte, comunicação corporativa — não substituição tecnológica.

“Reestruturação impulsionada por IA” entrega duas plateias de uma vez. Para o mercado: somos eficientes, a margem vai subir — e isso mexe na ação no mesmo trimestre do corte. Para quem fica e para quem sai: não é pessoal, é o futuro. Ninguém contratou demais em 2021. A tecnologia chegou, e tecnologia é como chuva.

É isso que o AI washing faz de mais eficaz: converte falha de gestão em fenômeno da natureza. Ninguém é demitido por causa do clima. E contar essa história custa zero — não existe órgão que audite a alegação.

Se parar de ler aqui, você sai com a conclusão errada: a de que não está acontecendo nada. Está. Só não onde todo mundo procura.

O dado de 12 de agosto

O Stanford Digital Economy Lab, com Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen, faz diferente: em vez de comunicado de imprensa, lê folha de pagamento — dados da ADP, maior processadora de salários dos EUA. A atualização saiu em 12 de agosto, e o título já diz as duas coisas: “Sem deslocamento generalizado, mas a diferença de emprego por IA para trabalhadores jovens aumentou para 19%.

Trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações muito expostas à IA estão hoje cerca de 19% abaixo do emprego que teriam se tivessem acompanhado colegas da mesma idade em ocupações pouco expostas. Em julho de 2025, eram 15%. Não parou de abrir.

Três ressalvas que o próprio estudo registra. Primeira: não há deslocamento generalizado na economia — quem usar isso para dizer que a IA está destruindo o emprego americano está mentindo. Segunda: trabalhadores experientes nas mesmas ocupações não mostram diferença comparável, o que indica efeito de idade, não de setor. Terceira, e é a que muda tudo: o ajuste vem por redução de contratação, não por aumento de demissão. Ninguém teve salário cortado. Simplesmente não foi chamado.

Agora junte as pontas. As contratações subiram 25% e a diferença dos jovens abriu para 19%. As duas coisas são verdade. Está contratando muito — só não é para eles.

E a Challenger diz onde foi parar essa contratação, numa frase que li três vezes: “A demanda está aparecendo em aeroespacial, energia e manufatura — trabalho que acontece no chão, não na tela.

No chão, não na tela.

WhatsApp Image 2026-08-24 at 17.38.16.jpeg
O emprego em todas as idades por grau de exposição à IA: nada de anormal. A linha preta são as ocupações mais expostas. A vertical marca o fim de 2022. Fonte: Stanford Digital Economy Lab (Brynjolfsson, Chandar e Chen), agosto de 2026.
WhatsApp Image 2026-08-24 at 17.38.16 (1).jpeg
O mesmo recorte apenas para quem tem 22 a 25 anos. A linha preta são as ocupações mais expostas. A vertical marca o fim de 2022. Fonte: Stanford Digital Economy Lab (Brynjolfsson, Chandar e Chen), agosto de 2026.

Isso não quer dizer que ninguém foi demitido. Em 2026, a Tecnologia liderou os cortes com 149.023 demissões, alta de 67% sobre 2025, enquanto os demais setores caíam. Mas olhe o outro lado do balcão: no mesmo período, o setor contratou 17.231. Demitiu 8,6 vezes mais do que contratou.

Não é o mercado de trabalho que encolhe. É a porta de entrada de um setor específico — justamente o que passou uma década sendo vendido como o futuro.

Por que a discussão está no lugar errado

Demissão é evento. Tem data, comunicado, aviso prévio, manchete. É contável — e por isso é o que a gente conta.

A vaga que não foi aberta não tem nada disso: nem vítima com nome, nem número. Ninguém publica “hoje não fui contratado por causa da IA”, porque ninguém sabe. Quem mandou 200 currículos e recebeu quatro respostas conclui que o problema é ele.

Não é ele. O degrau de baixo da escada foi serrado, e não houve comunicado — porque não existe comunicado para isso.

Encolhem justamente as funções de conhecimento codificado — o que está escrito e se consulta na documentação, exatamente o que um modelo faz bem. São também aquelas em que se passam os primeiros anos aprendendo tudo o que não está escrito em lugar nenhum.

Estamos automatizando o estágio de formação do profissional sênior que vamos precisar em 2035.

No Brasil, a porta não fechou. Mudou de forma.

Aqui o degrau não foi serrado. Foi trocado por outro, mais estreito.

O setor brasileiro de tecnologia não está encolhendo. A Brasscom projeta 33 mil novos empregos formais até dezembro, e faltam cerca de 200 mil profissionais formados para a demanda. Falta gente. Não sobra.

Mas olhe como ele cresceu. Entre 2023 e 2025, o mercado somou mais de 111 mil profissionais — e cerca de 55,6% desse crescimento veio por MEI e informalidade, não por carteira assinada. O crescimento é real. Ele só não é celetista. E, nas vagas de entrada, as empresas passaram a exigir de iniciantes portfólio sólido e experiência demonstrável — coisas que, por definição, um iniciante não tem.

Ou seja: a porta de entrada está sendo espremida por dois lados ao mesmo tempo. De um lado, a pejotização — fenômeno tributário nosso, anterior à IA e sem relação com ela. Do outro, a automação das tarefas iniciais, que é o que Stanford mede. Confundir ambos é erro. Ignorar que batem no mesmo degrau é erro maior.

O jovem de 23 anos que quer entrar em tecnologia hoje enfrenta uma vaga mais rara, mais disputada, e com boa chance de não vir com carteira assinada. Num país onde esse setor era uma das poucas escadas sociais que ainda funcionavam, isso é um problema bem maior que qualquer manchete sobre demissões.

O que eu realmente acho

Precisamos parar de discutir a manchete e começar a discutir o funil. A pergunta certa não é quantos foram demitidos. É quantos não foram contratados — em que faixa etária, em que função, sob qual regime.

Se eu pudesse pedir uma coisa a quem produz estatística de trabalho no Brasil — IBGE, Caged, Brasscom —, seria esta: parem de medir só o desligamento. Publiquem a admissão de entrada por faixa etária cruzada com exposição da ocupação à automação, separando CLT de PJ. Stanford fez isso com folha de pagamento americana. É factível com os dados que o Brasil já coleta. Só não é feito.

E existe pressa, pelo último aviso de Andy Challenger:

"À medida que as regulações começarem a tomar forma, as empresas serão ainda mais cuidadosas em seus anúncios, o que tornaria o rastreamento do impacto da IA sobre os empregos mais opaco."

A janela para medir isso com honestidade está se fechando.

Daqui a dez anos, o custo da confusão não vai aparecer na fila do seguro-desemprego. Vai aparecer na forma de uma geração que nunca se formou dentro das empresas — e cuja ausência ninguém vai conseguir explicar, porque ninguém guardou o número.

Demissão a gente conta. Ausência, não.

star

Continue por aqui