Tenho conversado com vários executivos globais nos últimos meses. E uma dor se repete em quase todas as conversas.
“Preciso organizar meus dados antes de usar IA.”
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A lógica parece sólida. Para IA ler, entender e gerar valor, você precisa de uma base limpa e estruturada. Certo?
Errado. Ou melhor: certo na teoria, fatal na prática.
Esse é o erro que eu chamo de armadilha do Data-First.
A toca do coelho da Alice
Quando você começa um projeto de IA pela organização dos dados, você entra na toca do coelho da Alice. E de lá não sai mais.
Por dois motivos.
Primeiro: os sistemas legados não querem soltar seus dados. Os grandes ERPs das marcas tradicionais não foram construídos pra serem AI-native. Foram construídos pra te prender. Extrair dado deles é caro, lento e carrega um liability pesado.
Segundo: dados nunca param de existir. Sua empresa gera dados o dia inteiro. Você organiza a base de janeiro e, quando termina, já tem fevereiro, março e abril empilhados. O trabalho de organização não tem linha de chegada.
Você pode passar dois anos organizando dados e não entregar UM real de valor pro negócio.
Não é burrice de ninguém. A armadilha do Data-First parece o caminho responsável. Por isso tanta gente boa cai nela.
VBB: Vacuum, Brain, Blower
Deixa eu te propor outro caminho. Eu chamo de VBB.
Todo projeto de IA tem três peças:
- Vacuum — o aspirador, que suga a informação das fontes;
- Brain — o cérebro, a IA que manipula esses dados;
- Blower — o assoprador, que joga o insight pra fora, na ponta do negócio.
A maioria das empresas começa pelo V. Pelo aspirador. “Vamos primeiro sugar e organizar todos os dados.”
E aí cai na toca do coelho.
Comece pelo fim
Minha proposta é começar pelo último B. O Blower.
Comece pela necessidade do negócio lá na ponta. Pergunte: que insight eu preciso entregar?
Depois faça o caminho inverso.
Exemplo real. Digamos que a necessidade seja entender a precificação do meu negócio.
Eu não preciso organizar o data lake inteiro pra isso. Volto um passo: que IA resolve esse problema? O Claude, integrado a ferramentas de cálculo em Python e a web scraping, faz esse exercício hoje.
Volto mais um passo: quais fontes alimentam essa análise? Só aquelas. Dentro e fora da empresa. Ataco só a base que importa pra aquele insight.
Resultado: você gera valor em semanas, não em anos. E não fica preso integrando fonte que talvez nunca use.
Lembre do VBB. Mas comece de trás pra frente.
Duas coisas que mudaram o jogo
Tem dois pontos que tornam o VBB ainda mais potente em 2026.
O primeiro: com Agentes de IA e tools, as ferramentas de LLM parecem cada vez menos “LLM”. Elas calculam, buscam, executam. Precisam de muito menos dado pré-organizado pra entregar resultado. O cérebro virou maestro de ferramentas, não só processador de texto.
O segundo: o MCP — o protocolo que conecta IA a sistemas externos — virou tradutor de dados na prática. Em vez de extrair e reorganizar tudo, você conecta direto na fonte. Tenho tido muito sucesso com o MCP do Supabase: a IA conversa com o banco direto, sem você montar um pipeline gigante antes.
Isso enterra de vez a desculpa do “preciso organizar tudo primeiro”.
A pergunta provocativa
Se você consegue entregar o primeiro insight de valor em semanas começando pelo Blower…
Por que você ainda está vendendo pra sua diretoria um projeto de “organização de dados” que vai levar dois anos e queimar orçamento antes de entregar a primeira resposta?
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