Quem tem 'medo' do home office?

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Não demorou muito tempo depois que as restrições provocadas pela pandemia se afrouxaram para que várias empresas orientassem seus funcionários na volta aos escritórios.

A prática do trabalho remoto, antes associada a um elemento que integraria “o futuro do trabalho”, passou a ser preterida e apontada como uma saída meramente contingencial. Mas por que essa pressa em se livrar desse esquema de trabalho? Afinal, quem tem "medo" do home office?

A tendência de retorno aos escritórios tem sido encabeçada pelas gigantes da tecnologia nos Estados Unidos, como apontado por recentes reportagens na imprensa. As grandes empresas do Vale do Silício, que já há alguns anos dão o tom da cultura corporativa a ser seguida em boa parte do mundo, tinham adotado o home office no início da pandemia; algumas chegaram a apontar o modelo como uma solução permanente, que permitiria flexibilidade e bem-estar aos seus colaboradores, que podiam agora passar mais tempo com família, cônjuges, animais de estimação, além de eliminar de vez o tortuoso período diário no deslocamento casa-trabalho-casa.

home officeFonte: Shutterstock

Mas tão logo os índices da crise da covid-19 se atenuaram, a história mudou. Subitamente, as empresas iniciaram protocolos de retorno gradual às suas sedes, estimulando suas equipes com encontros festivos, jogos, cupons de desconto em aplicativos de delivery, snacks gratuitos, dentre outros pequenos presentes.

Em alguns casos, as estratégias de persuasão ganharam tons agressivos: houve empresas que ameaçaram funcionários que preferiam trabalhar em casa com redução de salário e corte de benefícios, deixando-os sem muita alternativa.

Mas, afinal, por que tanto interesse em voltar para como era antes?

Tenho algumas hipóteses. Em primeiro lugar, arrisco dizer que nunca foi um objetivo de fato das empresas a adoção do trabalho remoto de forma definitiva. Quando se ressaltavam as qualidades do home office, elas o faziam para dar um sentido de normalidade a uma nova configuração de trabalho em um contexto caótico e imprevisível. Afinal, era preciso passar a mensagem que, mesmo em uma crise de saúde global sem muitos precedentes, ainda havia boas formas de trabalhar e seguir a rotina.

Em segundo lugar, acredito que o retorno aos escritórios diz respeito ao apego de gestores a um modo de condução das empresas relacionada a estruturas de hierarquia, vigilância e controle. Distante das pretensões de alcançar um modo de trabalho mais horizontalizado e com responsabilidades compartilhadas, com a autonomia e confiança individuais decorrentes do home office, esse movimento parece uma volta ao que costumávamos entender como o modo mais eficiente de gestão.

Os benefícios do home office, porém, cristalizaram-se na vida das pessoas. Passar mais tempo com a família, ter mais autonomia na gestão do próprio tempo, poder cozinhar todo dia em vez de se alimentar na rua, tudo isso são aspectos positivos, práticos e subjetivos, difíceis de negociar. Poder trabalhar para empresas fora do seu entorno imediato é um benefício, por exemplo pessoas da Bahia podem se candidatar a vagas em São Paulo sem ter que se preocupar em sair de seus endereços e se distanciar de família e amigos.

Outro exemplo são pessoas que aproveitaram o tempo livre devido à falta de deslocamento que há no home office para se qualificar em novas carreiras, para se dedicar a interesses pessoais e até para empreender. Conheço pessoas que, aproveitando o tempo livre e a privacidade do trabalho remoto, abriram empresas e ampliaram a área de atuação.

A tecnologia tornou o trabalho a distância algo totalmente viável; quem o torna inviável são algumas lideranças obsoletas e desconectadas das demandas dos funcionários.

Como simplesmente tirar isso das "mãos" das pessoas? Não questiono aqui os benefícios das atividades presenciais, como o contato humano, mais espontaneidade do encontro entre as pessoas, o maior afinamento de ideias e o melhor aproveitamento da cultura corporativa, mas sim a súbita mudança de narrativa adotada pelas tendências corporativas.

Mais e mais, acredito que a cultura corporativa precisa entender que as demandas das pessoas devem ser compreendidas e dialogadas, aumentando o espaço de negociação entre os colaboradores de uma empresa.

Se o home office se provou uma boa novidade na vida das pessoas, seguir no modelo talvez seja uma forma de as empresas provarem que confiam em suas equipes, fortalecendo o vínculo com elas e permitindo uma maior fluidez na condução do trabalho.

Não estamos mais, afinal, na era dos comandos verticais, da paranoia em relação ao controle e à vigilância dos funcionários. Entender que vivemos em um momento de mudanças delicadas nas relações de trabalho e do lugar que o trabalho está no cotidiano das pessoas é primordial para o avanço dessa discussão. Ninguém precisa ter medo do home office, afinal.

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Eduardo Cosomano é fundador da EDB Comunicação, agência especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo. É coautor do livro Saída de Mestre: estratégias para compra e venda de uma startup, lançado pela Editora Gente.

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