A série de História da Tecnologia vai falar sobre uma das empresas de processadores mais consolidadas atualmente e que, se duvidar, tem o seu principal produto atual aí no smartphone que você está usando agora.

É a Qualcomm, que tem uma história de muita inovação, mas que também é bem recente. Antes de começar, não se esqueça de se inscrever no canal do TecMundo no YouTube!

Fixando raízes

A história da Qualcomm se confunde no começo com a cidade de San Diego, nos Estados Unidos, e a trajetória de Irving Mark Jacobs. O jovem entrou na Universidade de Cornell na década de 1960 destinado a entrar no curso de administração de hoteis, mas mudou de ideia por causa de um amigo e das suas próprias paixões. Ele foi pro curso de engenharia elétrica e anos depois já acumulava um doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachussetts, o MIT.

Uma pessoa.

Enquanto estava na Universidade da Califórnia, ele deixou a carreira de professor de lado e se juntou com alguns colegas pra fundar uma empresa chamada Linkabit, em 1968. A companhia não decolou, mas fechou vários contratos bem interessantes com clientes que incluíam a NASA e se especializou em placas de circuito e chips, além de ser uma ótima oportunidade pra engenheiros locais, lá da cidade de San Diego. Claramente, era o embrião de um projeto muito maior.

Nasce a Qualcomm

Até que em 1985, Jacobs e seis colegas da Linkabit (Andrew Viterbi, Harvey White, Adelia Coffman, Andrew Cohen, Klein Gilhousen, Franklin Antonio) fundam a Qualcomm. O nome tem um significado bem simples: Quality Communications, comunicações de qualidade. Eles só não sabiam ainda qual seria o produto, o modelo de negócios... mas a ideia tava lá.

Pessoas.

Um dos primeiros produtos da empresa é o OmniTRACS, de 88. Esse sistema de comunicações via satélite permitia o rastreamento e monitoramento de caminhões nas estradas, e ajudou bastante a indútria de transportes.

Nasce o CDMA

Mas a primeira revolução da Qualcomm no mundo da tecnologia veio com a demonstração de um sistema digital de telefonia móvel baseada em CDMA, Code Division Multiple Access. O CDMA já existia desde a década de 40 e era usado no meio militar com um funcionamento bem interessante. Os sinais são enviados em uma mesma frequência, mas com uma identificação diferente pra cada sinal. Aí, no aparelho receptor, isso é reconstruído, como se fosse uma codificação e decodificação. Se você não quiser todo o conteúdo da frequência, é só isolar o sinal desejado.

Duas fotos.

Só que a indústria das telecomunicações preferia o TDMA, com T de Tempo, que seria uma das bases de outro padrão, o GSMA. Por isso, muitas empresas duvidavam que o CDMA fosse barato e eficiente o bastante. A Qualcomm mostrou que era em novembro de 1989. Foi durante um passeio de van pelos arredores de San Diego que a empresa fez uma ligação pra um telefone móvel usando esse sistema e provando a funcionalidade.

Só que esse negócio não pegou logo de cara, e a empresa teve que diversificar os negócios. Em 91, ela compra a Eudora, dona de um dos clientes de e-mail mais tradicionais da internet, que só encerrou as atividades em 2006. E nesse período a empresa operou no vermelho, porque o gasto com pesquisa e desenvolvimento de telefonia móvel foi intenso.

Uma captura de tela.

Em 1993, cinco anos depois dos primeiros testes, o esforço é recompensado. O CDMA vira padrão da indústria de telefonia pra conexões móveis. Em 1995, isso foi ainda além quando o sistema é usado comercialmente. E eram várias as vantagens, já que o CDMA tinha mais estabilidade de sinal, maior capacidade de banda, qualidade de chamada de voz e menor consumo de energia. Aos poucos, ele virou o padrão da conexão móvel 2G, ajudou a estabelecer o 3G e serve como uma das bases tecnológicas pras gerações atuais, 4G e até o futuro 5G.

Crescimento acelerado

Nesse período, a empresa permanece lançando chipsets e constrói o nome na indústria, e olha que celular nessa época eram aqueles tijolões. Ela mesma lança um modelo dual-band com CDMA, chamado CD-7000 em 1992.

A partir de 93, a Qualcomm começa a lançar também circuitos integrados system on a chip, MSM, ou mobile station modem, que determinavam o tipo de conexão móvel do celular. Essa nomenclatura durou vários anos, e com o tempo, surgem modelos como MSM2300, Q5270 MSM2.2 e muito mais. Pois é, naquela época, ninguém se preocupava em dar nomes comerciais bonitinhos pra esse tipo de chip.

Um processador.

E lembra quando eu falei da ligação com a cidade? Em 1997, a Qualcomm adquire por 20 anos os naming rights do estádio do time de futebol americano San Diego Chargers por 18 milhões de dólares, virando o Qualcomm Stadium.

Já no ano seguinte, a Qualcomm lança um dispositivo chamado pdq, que foi chamado de telefone inteligente, smartphone mesmo, antes do nome se popularizar. O modelo tinha funções de navegação web, e-mail e produtividade, mais voltada pro uso corporativo.

Um casamento de sucesso

Aí a Qualcomm busca uma empresa parceira que tenha uma arquitetura que possibilite melhores modelos de processadores. Primeiro, ela faz uma parceria com a Intel, e em 1998 migra pros cores fornecidos pela ARM, começando pelo modelo MSM3000.

E o 3G, que aposto que você usou muito ou até ainda usa no seu celular, estreou em maio de 1999 com o modelo MSM5000.

Nesse período, ela ainda lançou o BREW, Binary Runtime Environment for Wireless, um conjunto de plataformas que é uma espécie de avô da App store, com jogos e aplicativos de terceiros pra baixar em celulares CDMA.

E aí vem um momento de revolução na empresa, quando ela começa a especialização no desenvolvimento de chips e resolve focar em processamento de unidades e conexão sem fio, se livrando de outros setores. Ela vende o negócio de estações de base pra Ericsson em 99 e o de dispositivos móveis pra japonesa Kyocera em 2000.

O escorpião a solta

Chegamos na época do lançamento de uma CPU que balançou o mercado móvel, mas ainda não é o nome que você tá pensando. O Scorpion foi apresentado em 2005 como primeiro microprocessador otimizado pra integração com os serviços de modem da Qualcomm, com a pra época absurda velocidade de processamento de 1 giga-hertz e melhor desempenho e economia de energia, algo só possível por causa dessa parceria mais de perto.

Os cores eram Cortex A8 da ARM, mas com toques especiais da fabricante. Em 1º de julho de 2005, no aniversário de 20 anos da fundação, Irving Jacobs sai do Cargo de CEO e fica apenas como chefe do conselho, deixando o filho Paul em seu lugar.

Segura o dragão!

Agor assim, chegamos em novembro de 2007, com o anúncio de uma plataforma que viraria um dos sinônimos de processamento mobile. É o lançamento do primeiro Snapdragon, um system on a chip que juntava a unidade Scorpion e vários outros semicondutores. Aparelhos móveis com tela HD, gráficos 3D e câmera de 12 megapixels eram suportados. O primeiro de todos foi o QSD8250.

Uma propaganda.

Mas não era só em telefonia que a marca tava interessada. Também em 2007 ela percebe algumas tendências de mercado e apresenta o chipset Gobi para netbooks. Esse setor bombou nesse período e ficou em alta por alguns anos, e pra lá foram os maiores investimentos da Qualcomm por algum tempo, até o Snapdragon engrenar de vez. O Gobi foi reformulado ao longo dos anos, passou mais pra uso empresarial e virou a Snapdragon série X.

Alias, nesse período sai também a primeira GPU Adreno da empresa. O nome dela é um anagrama de Radeon, pois a tecnologia foi comprada da AMD. Ainda antes disso, ela foi da ATI Technologies e se chamava Imageon.

A revolução do Android

Aí veio o HTC Dream, ou T-Mobile G1 nos Estados Unidos, o primeiro smartphone do mundo com Android. E isso ajudou demais a Qualcomm, porque ela foi escolhida nesse momento como a fornecedora principal de chipsets pras fabricantes que embarcariam nesse sistema operacional, como SamsungLG e Sony Ericsson. Em novembro de 2008, 15 fabricantes já decidiram pelo lado Snapdragon da Força.

Um celular.

Em 2010, a Qualcomm apresenta os primeiros chipsets dual-core da empresa, chegando a 1,2 Gigahertz, da família Snapdragon S3. E ela também abre o Qualcomm Museum em San Diego, celebrando os 25 anos da marca e contando a história da empresa pra instituições interessadas.

Em 2011, a novidade apresentada na MWC lá em Barcelona foi uma nova arquitetura para o núcleo de processamento, batizada de Krait. Ela era mais poderosa, mais econômica em energia e pronta pro 4G. E ela começa a expandir a linha de acordo com a especialização do chip, com o Snapdragon S4, S4 Play, S4 Plus e S4 Pro. Parece nome de linha de celular, mas não, é processador mesmo. Ela foi substituída alguns anos depois pelas unidades Kryo.

Em 2012, o fundador Irving Jacobs sai do conselho e começa uma vida de filantropia ao lado da esposa, Joan. Todos os anos, ele destina uma enorme verba pra hospitais, universidades e institutos de pesquisa. Ele ainda é o responsável por financiar o Instituto Jacobs Technion-Cornell, parceria entre ele, a universidade norte-americana e um instituto de Israel.

Um casal.

A partir daí, a empresa não parou com novos processadores, e em 2013 adotou uma numeração que é mais ou menos seguida até hoje. Os Snapdragon 800 são destinados pra rodar tudo nos smartphones top de linha, enquanto as famílias 600, 400 e 200 vão de intermediários até tablets e modelos de entrada.

Só que nem todas as notícias foram boas pra empresa. A Apple apresentou o chip A7 pra iPhones inaugurando a era 64 bits antes da Qualcomm e de qualquer outra, e a empresa ficou furiosa por ter sido passada pra trás. Neste ano, Steve Mollenkopf assume como CEO, cargo que mantém até hoje.

Uma pessoa.

Logo abaixo dele, está o brasileiro Cristiano Amon, que em 2017 assumiu o posto de presidente global da companhia.

Uma pessoa.Cristiano Amon.

O que ela faz hoje?

A gente vai passar mais rápido agora pelos lançamentos, pro vídeo não fica enorme. Mas vale dizer que a cada nova geração de Snapdragon, a Qualcomm mantém a promessa de chips menores, mais rápidos e mais econômicos. A atual geração é o Snapdragon 855, com foco na busca pelo 5G, integração com modems da própria marca e equipando os principais top de linha de 2019.

A Qualcomm hoje é uma empresa voltada também pra realidade virtual, e ela acredita que o mobile tem papel importante aí. Os headets e os testes de tecnologia da empresa criam a experiência imersiva dessa tecnologia usando a tela do smartphone como visor. 

Um headset.

E tem outras duas tecnologias mais recentes que merecem destaque. A Quick Charge revolucionou o carregamento do celular, e você não passa mais horas esperando o aparelho ter carga suficiente. A peimeira versão veio em 2013 e hoje ele já é sem fio e funciona em outros dispositivos. E tem ainda a Always Connected, que opera em Pcs com Windows. O modelo que permite isso é o Snapdragon 8cx, não só pronto pro 5G, mas também deixa os notebooks sempre prontos pra uso e com internet sem depender do WiFi.

Pedras no caminho

E não seria um história da tecnologia sem falar das polêmicas, e a Qualcomm acumula algumas. Atualmente, as brigas com a Apple continuam. São várias acusações de violação de patentes dos dois lados envolvendo conectividade móvel e já foram encontros nos tribunais. A Qualcomm já chegou a conseguir a proibição da venda de modelos de iPhone em países como China e Alemanha, mas ela também perdeu algumas disputas eteve que pagar compensações pra Maçã. Essa novela ainda vai longe.

Uma apresentação.

E tem ainda a quase compra da Qualcomm pela empresa concorrente Broadcom, que aconteceria em 2017 e seria uma das maiores transações da história da tecnologia. A Qualcomm recusou a oferta final de 121 bilhões de dólares, não você não ouviu errado, mas ela não desistiu e tentava convencer investidores a darem uma forcinha na aquisição de ações. No começo de 2018, o presidente Donald Trump vetou a aquisição e encerrou o assunto.

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E essa é a história até agora da Qualcomm, uma das maiores fabricantes do mundo em semicondutores, essencial pra indústria de chips hoje em dia e uma das marcas mais relevante da telefonia móvel. Se você quiser ver a história de uma empresa, um produto ou um serviço aqui no quadro, é só deixar um comentário. Até a próxima!