A história da Philco, dos rádios capelinha aos dias de hoje [vídeo]

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Continuando a nossa série de História da tecnologia, a gente vai falar de uma empresa que esteve sempre presente aqui no Brasil, mas poucos conhecem a origem ou sabem por onde anda — e também não fazem ideia de que ela nem é uma marca nacional.

É a Philco, que é mais velha e tem muito mais importância para o mercado de rádio e televisores do que você imagina, além de ser responsável por uma série de produtos inovadores e bizarros. Mas antes, não se esqueça de deixar o seu joinha no vídeo. Curtiu o conteúdo? Então não se esqueça de assinar o canal do TecMundo no YouTube!

Começo turbulento

A Philco nasceu oficialmente nos Estados Unidos em 1892 com o nome de Spencer Company, tendo Thomas Spencer como um de seus fundadores. Já no mesmo ano ela muda de nome pela primeira vez, se tornando a Helios Electric Company. A marca começa fabricando lâmpadas de arco de carbono, e quase faliu já no começo da vida porque esse produto virou obsoleto.

Uma foto.

Pois é, quase que a história da Philco acaba aqui! Chegou a ponto de, em 1893, a fábrica parar por duas semanas e ver parte das ações vendidas. Depois de cinco anos, outro sócio fundador e presidente, Frank Marr, consegue liquidar as dívidas e recomeçar.

A Helios entrou em 1906 no setor de baterias pra carros, caminhões e outros veículos e troca de nome de novo, em 25 de julho, agora pra Philadelphia Storage Battery Company, ou Philco. Essa é como se fosse a segunda data de fundação, porque é aqui que o sucesso começa. Três anos depois, os faróis de carros começam a ter luzes elétricas também e a produção aumenta.

Um retificador.Um retificador.

Nas décadas de 1910 e 1920, a Philco começa a focar no sistema de distribuição pra todos os seus produtos, acreditando que isso seria um diferencial mundial na marca, que já expandiu pra países como Argentina e Canadá. E um spoiler: foi mesmo. Outro sucesso veio em 1925 e foi um retificador, um equipamento que deixava donos de rádios a bateria ligarem os aparelhos em tomadas. Mais de um milhão de unidades foram vendidas e ele só parou de vender com a popularização das retificadoras a válvula.

Entrando nos trilhos

Mas o produto que fez mesmo a marca entrar pra história foi o rádio. E ela começa a fabricar seus primeiros modelos em 1928, em dois anos virando líder de mercado nos Estados Unidos por automatizar a linha de produção, que nem era com carros, mantendo design bem simples mas sem prejudicar a qualidade. Em 1931 sai o modelo Philco 90 “cathedral”, sendo que no brasil outro modelo ficou conhecido por outro nome, mas a gente já já fala dele.

No fim da década, ela começa a lançar modelos de ar condicionado e geladeiras, além de um modelo de rádio operado por um controle sem fio de disco, o Mystery Control. E as invenções mais mirabolantes incluem ainda a tecnologia de leitura de vinil Beam of Light, que vinha nos fonógrafos da marca. Ele troca a agulha por células fotoelétricas e faz o disco durar mais.

Um produto.O rádio com controle-remoto da Philco.

Durante a Segunda Guerra Mundial, assim como várias outras marcas de todo o mundo, a Philco acaba reduzindo os esforços em tecnologia pro consumidor e passa a ajudar o meio militar com rádios, radares e outros equipamentos. Mas a guerra acaba — e tudo volta ao normal. Em 1948, ela entra em um mercado que também viraria um clássico da marca, o de televisores. Ela começa com o Model 48-1000 com 10 polegadas e anos antes até foi uma das pioneiras nos Estados Unidos com transmissão de sinal via estações.

A revolução transistorizada

Em 55, vem um avanço bem técnico que revolucionou a fabricação dos seus eletrônicos: o transistor de barreira superficial, que eram mais rápidos e poderosos que os anteriores, pra serem usados nos circuitos de frequência mais elevada. Os resultados vieram logo depois. Para começar, sai o primeiro radio automotivo de transistores produzido comercialmente em parceria com a Chrysler. Em 57, ela ainda fazcomputadores transistorizados para uso em aeronaves e teve contratos com a Marinha dos EUA. A Philco ainda entra nesse período no mercado de lavadoras e secadoras.

Um televisor.A Predicta.

Ah, e ela ainda lançava aqueles aparelhos mais mirabolantes. Em 57, veio a linha Predicta de televisores, com uma base e uma tela de visual futurista que ficava conectada com o dock apenas por um cabo. Ela ficou bem famosa em bares e hoteis, mas era cara de fazer e consertar. Ela virou m daqueles produtos que não foram bem comercialmente, mas viraram cult e hoje são objetos de colecionador.

Outro item raro é a TV Safari, de 59, a primeira transistorizada portátil, funcionando a partir de uma bateria. No fim dos anos 50, ela chegou a lançar dos computadores chamados TRANSAC S-1000 e 2000 pra uso em empresas e servidores da época.

Os computadores da marca até tinham boa qualidade, porém não conseguiu desbancar a IBM nesse mercado e não investiu tanto.

No começo da década de 60, a Philco fecha um contrato com a NASA para ser a responsável pela rede do Programa Mercury, o primeiro de exploração espacial tripulada do país. Ela ainda cuidou de design e instalação de central controladora de missão em um dos prédios do Johnson Space Center, no Texas, tendo a estrutura aproveitada até 1998 em missões como Gemini, Apollo e do Space Shuttle, o ônibus espacial.

De mão em mão

Apesar disso, a empresa passava por uma pequena crise econômica e parecia acomodada em muitos setores, precisando de uma injeção de ânimo e dinheiro. Quem fez isso foi a Ford, a gigante automobilística que adquire a Philco e adota ela como subsidirária.

Uma logo.

Ela continua investindo em equipamentos de áudio e chega a passar a fabricação pra filial de Taiwan, barateando os custos de produção antes disso virar moda na indústria de tecnologia como um todo. Na década de 1970, mais precisamente em 73, o destaque dela é o refrigerador Cold Guard, feito de um só pedaço de plástico.

A Philco muda de dono em 77 ao ser comprada pela White Consolidated Industries, ou WCI, que por sua vez foi comprada nos anos 80 pela Eletrolux. Já nos Estados Unidos, ela chegou a ser incorporada pela Philips para resolver um caso bizarro: a Philco conseguiu na Justiça que a Philips fosse proibida de usar esse nome no país, porque os dois eram muito parecidos. Por isso, ela chegou por lá com nome de Norelco, que depois virou a linha de barbeadores elétricos.

Uma gilete.

Hoje, a Philco pertence ao grupo Eletrolux em quase todos os países. E além do Brasil, que a gente já vai falar, a Philco hoje é muito forte na Argentina, onde pertence a um conglomerado chamado grupo Newsan, e também na Itália.

E no Brasil?

Mas vamos aqui pra nossa terra que eu sei que você tá mais curioso! No Brasil, a Philco chega oficialmente em 1934, e o rádio Philco 89 "capelinha" é um sucesso imediato. Já em 1948 ela abre a primeira fábrica por aqui, no Rio de Janeiro, produzindo alguns dos primeiros rádios nacionais. A fábrica depois foi pra São paulo e depois pra pra região do Tatuapé.

Um rádio.O "Capelinha".

Ela ainda ajudou na formação da TV brasileira em 1950 com a produção de aparelhos pioneiros, e mais tarde abriu a primeira fábrica de semicondutores do Brasil, decretando “o fim das válvulas”.

São vários modelos clássicos de rádio e TV por aqui e não dá pra citar todos, então eu vou pedir a sua ajuda! Deixa aí nos comentários aquele que você tem até hoje ou lembra de ver quando era mais novo. Tem os rádios PH60, Transglobe e mais recentemente o PB126, enquanto em Tvs os modelos mais clássicos são da época da Philco Ford.

Um console.O Telejogo 2.

E a empresa foi histórica também em games. Isso porque em 1977 ela, ainda sob o guarda-chuva da Ford, lança por aqui o Tele-Jogo, o primeiro console do Brasil. Ele era bem simples, tinha só 3 jogos, mas revolucionou um mercado que não tinha nada parecido antes. O Telejogo II veio em 79 com mais opções de jogos, controle e acabamento melhorados.

Com as próprias pernas

Aí a marca nacional toma um rumo próprio. Nos anos 80, a Philco faz um acordo com a japonesa Hitachi e passa a fabricar produtos como câmeras e videocassetes sob o nome Philco-Hitachi. Isso dura até 1994, quando a Itautec compra a Philco depois de alguns anos de já no controle de setores de rádio e TV, uma história que a gente já contou aqui no canal.

Uma TV.A linha "Dueto".

Nessa nova casa, vem algumas das campanhas publicitárias de maior sucesso da Philco. Pra começar, teve a linha Dueto de Tvs com videocassete. A linha de sistemas de som Applause saiu em 95 com o famoso comercial das Formiguinhas, premiado internacionalmente, vê se você lembra! Esse clássico teve até continuação no ano seguinte.

Em 2005, a Itautec começa a se desfazer do setor de rádio, TV e eletro, e coloca a Philco no mercado. Quem compra é a Gradiente, outra empresa que já foi tema do História da Tecnologia, que pagou uma bolada pra levar a marca e virar uma das maiores marcas totalmente brasileiras no setor de tecnologia. Só que as finanças da Gradiente já não eram boas naquela época, e ficam ainda piores com outra marca grande pra administrar.

Uma logo.

Ela até que tentou reposicionar a marca no mercado com nova logo e o slogan Pensando bem, Philco. Foram lançados 30 novos produtos, incluindo DVD compacto, Tvs de plasma, rádio e cd player, micro system e home theaters.

Mas não teve jeito. Em 2007 e quebrada, a Gradiente vende a Philco por 22 milhões de reais pra um grupo de investidores, cerca de metade do valor pelo qual ela comprou. O grupo então licencia o uso da marca para a empresa Britânia. É ela quem aproveita as décadas de experiência e de mercado da companhia em som e imagem, além de eletrodomésticos. Ela ainda lançou tablets, como o PH7G, o 10.1B-B111A e o 9B-P711A. Pois é, dar nome pros modelos não era muito o forte dela.

Um tablet

Hoje, a Philco Brasil está bem viva. Tem gente que fala que a qualidade não é mais a mesma, e de fato ela mudou bastante de mãos nessas décadas, mas ela continua comercializando produtos de tudo quanto é segmento, de eletromésticos, áudio, informática e ar-condicionado a televisores, totalizando cerca de 150 produtos diferentes. Ela volta e meia ainda patrocina times de futebol, e já estampou camisas de clubes como Santos e Náutico e Paraná Clube.

...

E essa é a história da Philco, uma marca que é lá dos Estados Unidos mas sempre foi bastante identificada com o brasileiro, e tá até hoje por aí, sobrevivendo em meio a um mercado tão competitivo. Se você tiver uma sugestão de empresa, produto ou serviço para o quadro, é só deixar uma sugestão nos comentários!

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