A série de História da Tecnologia vai para um tema um pouco diferente. Vamos contar a história de um evento, e não é qualquer um: é a CES,  a Consumer Electronics Show, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, cuja edição de 2019 terminou recentemente.

Ela é bem mais antiga e importante do que você imagina, tem uma evolução curiosa e muita coisa de peso estreou por lá. Quer saber mais? Então deixa o seu joinha, a inscrição no canal, o toque no sininho e prepare-se para a história da CES.

Uma feira bem discreta

Hoje a gente tá acostumado com a CES em janeiro, milhares de exibidores e jornalistas e novidades futuristas. Só que tudo começou de 24 a 28 de junho de 1967, com a primeira edição em dois salões de eventos de hotéis em Nova York. Foram menos de 200 exibidores e 17 mil e 500 visitantes, lembrando que o público geral ou fãs das empresas não entram, é mais imprensa e parceiros comerciais.

Motorola, Panasonic, Philips, Sanyo, Sharp, Sony e Toshiba já estavam lá, e as novidades da época eram modelos de rádio de bolso e televisores com transistores e componentes mais modernos. A organização ficou com a Electronic Industries Association, que mais tarde virou Consumer Electronics Association.

uma foto.Fonte: Reprodução/The Verge

A feira na verdade é derivada da Chicago Music Show, que anos antes começou a mostrar eletrônicos, mas tava ficando fora de foco. Não foi exatamente um sucesso, mas era um negócio diferente e com potencial. A primeira edição começou também a tradição das keynotes, palestras com grandes nomes da indústria.

O CEO da Motorola, Bob Galvin, foi o estreante. E desde essa primeira edição, as empresas já colocavam modelos ou promoters pra ficar na frente dos estandes e chamar o público, uma prática bem controversa e de outros tempos, mas que durou até pouco tempo atrás.

Construindo reputação

Em 1968, o evento passou pro salão de três hotéis, mas ainda era coisa de nicho. No ano seguinte, o destaque era de um rádio que podia ser usado até no pulso, uma TV de 1,5 polegadas e um telefone portátil executivo avô do celular que custava 2 mil dólares, pesava 8 kg e precisa de licença pra uso.
A CES também costuma ser o palco de estreia de muitas tecnologias. A primeira grande revolução apresentada durante uma das feiras foi em 1970. Foi a chegada do VCR, ou vídeo cassete recorder, que tinha como explicação pura e simples “permitir que você grave seus programas de tv preferidos pra ver depois”.

um aparelho.Fonte: Divulgação/Sony

A partir de 1971, a CES passa a ser realizada em Chicago. Nesse ano, fones de ouvido são a moda, porque finalmente ficam mais acessíveis ao público. E a CES cresce tanto e são tantas novidades durante todo o ano que a feira vira semestral, com uma edição no verão e outra no inverno. Outras estreias de grande porte na década incluem o Laserdisc em 74, relógios digitais de pulso baratinhos em 76, e os computadores para games e tarefas básicas Atari 800 e 400, em 79. Nesse período, a feira já chegada a 50 mil pessoas e 700 exibidores.

Em 1978, a CES é realizada pela primeira vez em Las Vegas com uma festa cheia de glamour como a cidade sempre pediu. 

A divisão foi oficializada: em janeiro, tem a CES de inverno em Las Vegas. Em junho, a de Chicago, no verão dos Estados Unidos.

Mudando de década, em 82 tem novidades como CD, filmadora pessoal com fita e o Commodore 64. Mas, nesse período, começam algumas críticas sobre como a feira estava perdendo o sentido, como a quantidade de coisas era melhor que a qualidade, e gente veterana dizendo que no passado era melhor. Isso faz a CES repensar algumas coisinhas, mas a lotação e o caráter de show só aumentou com o tempo.

A feira dos games

Aliás, se hoje a gente tem E3, gamescom e conferências separadas de Sony, Nintendo e Microsoft, nesse período a CES era a feira favorita pra apresentação de consoles. Além da presença constante da Atari e marcas que hoje não existem mais, em 1985 a Nintendo of America apresentou por lá nada menos que o bom e velho NES, o Nintendinho! Ele não só foi um grande console, mas também ajudou a salvar a indústria de games nos Estados Unidos, que tava quebrada por causa da crise. Essa história é incrível, mas é assunto pra outro vídeo.

Um console.Fonte: Divulgação/Nintendo

Ainda em games, tem o enorme olé da Nintendo na Sony durante o anúncio do console dela com CDs, que na verdade era uma parceria com a Philips e a gente contou com detalhes junto com o Voxel na história do PlayStation.

Tá sentindo falta de alguma empresa? Bom, a Apple não é muito de participar desses eventos conjuntos de tecnologia, mas ela teve algumas participações pontuais na CES que foram de produtos que ela prefere esquecer.

Um console.Fonte: Divulgação/Bandai

Em 92, o CEO John Sculley apresentou rapidinho o Newton, um assistente pessoal com caneta e tela sensível ao toque que foi um fracasso. E três anos depois, quem apareceu por lá Pippin, um obscuro console em parceria com a Bandai que também não vingou. Aí acho que ela ficou meio traumatizada e deixou a CES de lado.

Tomando forma

Mas foi a partir desse começo dos anos 90 que a CES muda o foco de rádios e TVs, com acessórios e PCs virando a grande atração. E o DVD foi apresentado também nessa feira, anos antes de virar algo popular e aposentar o VHS.

Em 94, foram quatro feiras, uma até na Cidade do México, e a organização viu que tava exagerando. Em 1995, a CES volta a ter só uma edição, até porque a edição de Chicago perdeu popularidade. No começo, testaram um formato “a cada ano, uma cidade diferente nos Estados Unidos”, mas deu bem errado. Em 98, é oficializado que a feira é sempre em Las Vegas e em janeiro. E foi nessa década também que ela virou a maior feira do país para eletrônicos.

Em 2001, outra enorme revelação no mundo dos games. Bill Gates faz uma palestra lenta e técnica sobre a Microsoft, mas no final solta a bomba: a apresentação do primeiro Xbox, ainda sob muitas desconfianças da galera. Como era moda e ainda é nessas conferências, ninguém menos que um The Rock cheio de estilo subiu ao palco também pra falar do console. O Gates virou meio que um host de honra da CES até o fim da década, quando ele se aposentou.

Duas pessoas.Fonte: Reprodução/Microsoft

Em 2003, a mídia de vídeo em alta definição Bluray é apresentada, e pra entender o desenrolar disso é só assistir o história da tecnologia sobre guerra dos formatos. Basicamente, várias empresas queriam o Bluray, enquanto outras queriam o HD DVD. Momentos antes da CES 2008, a Toshiba perdeu contratos importantes de estúdios de cinema e o Bluray saiu vitorioso.

Vale ainda registrar: em 2005, a CES se torna oficialmente a maior feira comercial de eletrônicos para consumidores no mundo, na época com 150 mil visitantes.

As mais recentes

Voltando pra linha do tempo, em 2010 o mercado tava mudando bastante e a gente viu o surgimento de muita coisa. Tablets com Android eram uma das sensações e netbooks estavam em alta. Já em 2011, foi uma tonelada de temas disputando atenção. Tivemos as primeiras TVs conectadas, eletrodomésticos inteligentes, o Android Honeycomb, o celular Motorola Atrix, avatares com Kinect e muito mais. Em 2012, Ultrabooks e telas OLED, mas o mais importante mesmo é que essa CES foi a primeira com cobertura em vídeo da história do TecMundo.

Uma feira.Fonte: Divulgação/Panasonic

Em 2013, foi o ano dos primeiros passos em direção autônoma de carros, enquanto 2014 teve impressora 3D pra dar e vender na feira. 4K e realidade virtual se destacaram em 2015 e 2016 marca a popularização da internet das coisas em dispositivos como geladeiras e máquinas de lavar, fora o carregamento sem fio. Em 2017, TVs cada vez mais finas e elegantes em design, sem contar a qualidade das telas com preço acessível e uma tonelada de robôs que fazem as mais diferentes funções.

Por fim, 2018 foi cheio de novidades das gigantes, mas foi marcado mesmo por um blecaute que mostrou como somos dependentes de coisas tão simples e como ficamos desesperados sem luz em meio a tanta tecnologia.

Na feira de 2019, que acabou de acabar, vimos muita TV e carros elétricos de grandes marcas cada vez melhores e com modelos de lançamento global, inclusive do Brasil. Curiosamente, quase nada de smartphones, às vezes rolava pelo menos um intermediário ou outro. As cores e as loucuras também ficaram em menor grau, com um ar um pouco mais sério.

Dificuldades e consagrações

Por um lado, várias empresas pequenas se deram bem lá, foram adquiridas por companhias maiores ou ganharam mais visibilidade depois de chamar atenção durante a feira. Do outro, nem só de momentos épicos e incríveis vive a CES. Muita coisa é mostrada lá em forma de protótipo e com o glamour de um show, então você acha que é o melhor produto do mundo e ele acaba não sendo tudo isso. O Windows Vista ganhou prêmios em 2007, o criticadíssimo smartphone Palm Pre também, a TV 3D foi super elogiada em 2010 até morrer anos depois.

Um celular.Fonte: Reprodução

Já em termos de quem sabe faz ao vivo, em 2005, Bill Gates subiu no palco da feira pra ser entrevistado pelo comediante Conan O’Brien e mostrar o Media Center do Windows sendo controlado por um controle remoto. Aconteceu isso aqui. E as falhas acontecem mesmo e isso rola até hoje. Em 2018, a robô CLOI da LG estava tímida na conferência da empresa e demorou ou nem respondeu alguns dos comandos.

Um robô.Fonte: Divulgação/LG

Mas claro que a quantidade de sucessos é muito maior, e a feira já é consolidada. Os números são absurdos: 182 mil pessoas, quase 4 mil e 500 exibidores, mil palestrantes e um espaço de 250 mil metros quadrados. Várias marcas preferem agora fazer eventos isolados ou guardar surpresas pro resto do ano na IFA ou na MWC, que são outras exibições de peso, mas a CES continua no coração da indústria.

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Essa é a história da CES,  uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, que já tem décadas de muita história e inovação. Se você tiver uma sugestão de empresa, produto ou serviço para aparecer aqui no quadro, é só deixar uma sugestão nos comentários.