Se você está acostumado a procurar vagas no LinkedIn já percebeu o crescimento de histórias de superação, contratações e entrevistas - algumas perfeitas até demais. Especialmente, quando falamos de startups no Brasil. Fato é que algumas desses contos estão alimentando o crescimento de um perfil "da zueira", o @startupdareal, que serve como um choque de realidade para empreendedores de palco.

Um exemplo do estilo "pé na porta" do perfil é que, para ele (ou ela, já que o autor prefere não se identificar), boa parte dos startupeiros brasileiros são alienados e têm ilusões de grandeza. Confira a entrevista exclusiva do The BRIEF com o dono (ou dona) do Startup da Real.

TB — Como a ideia do Startup da Real surgiu?

A ideia para criação do perfil Startup da Real no Twitter surgiu para brincar com um amigo que ficava me mandando imagens e citações de empreendedor de palco. Ele ficou bem bravo no começo, mas depois que começou pegar o espirito da piada acabou relaxando. Ele ainda não curte o conteúdo, e acha que os empreendedores de palco são importantes para a cultura de negócios.

Eu sigo com meu trabalho de mostrar que ele está errado. O medium veio depois, meio com a necessidade de falar mais sério. Diferente do perfil no twitter onde tudo é brincadeira e até algumas coisas podem ser mais exageradas, eu senti a necessidade de apresentar que apesar das brincadeiras, existe algo muito sério e que precisa ser discutido com maturidade e sem ruídos.

TB — Quais as práticas mais bizarras de startupeiros brasileiros que vocês detectam?

Acho que o ponto máximo e que gera quase todas as práticas bizarras dos startupeiros é a arrogância do conhecimento. Acreditam que sabem tudo sobre negócios, risco, produto e comportamento do consumidor, assumindo riscos desproporcionais e incentivando outras pessoas a assumirem também. Existe um efeito psicológico chamado Dunning-Kruger, que é descrito pela incapacidade de compreender os limites do próprio conhecimento. O startupeiro sempre acha que sabe mais do que realmente sabe.

De acreditar que formulários com questionários funcionam para validar ideias, criar produto mínimo viável que não é nem produto e muito menos viável - normalmente uma landing page, e correr imediatamente para dar cursos de startup e empreendedorismo poucas semanas depois de ter conhecido os primeiros conceitos, quase tudo segue essa arrogância em assumir que já sabe mais do desconhecido do que é possível saber. 

O ponto que gera quase todas as práticas bizarras dos startupeiros é a arrogância do conhecimento

TB — O LinkedIn virou um lugar onde os textos ruins vão para morrer?

O LinkedIn virou o lugar onde os textos ruins nascem. É claro que existe muita gente boa por lá, mas como é um espaço amplamente usado para tentar se destacar como superior, mais inteligente, mais trabalhador e bem sucedido, a rede virou uma verdadeira fonte de ficções voltadas para demonstrar como a pessoa é esforçada e inteligente.

TB — Alguma dica para filtrar as cascatas que rolam nesse meio empreendedor?

Acho que a principal dica para identificar o discurso startupeiro é procurar por certezas muito fortes. Qualquer pessoa que já teve experiências o suficiente sabe que assumir algo com extrema convicção é um elemento que nos cega e nos deixa fragilizados e inclinados ao erro.

Se alguém te garante sucesso, fama e dinheiro, desconfie. Não existe receita mágica e copiar a receita dos outros não é garantia de nada.

TB — O empreendedor "de startup" brasileiro é descolado da realidade?

O termo correto é alienado. O startupeiro brasileiro é alienado. É como se os startupeiros tivessem um mapa de como o mundo funciona que é muito diferente do território da realidade. O problema é que, quando encontram as diferenças entre seus mapas e a realidade, se recusam a corrigir seus mapas.

A principal dica para identificar o discurso startupeiro é procurar por certezas muito fortes

TB — Indica algum bom exemplo de startupeiros para seguir/acompanhar nas redes sociais?

Eu gosto bastante de seguir o @marcogomes. Apesar de ser o exemplo perfeito que poderia ser usado pra vender sucesso: o clássico jovem pobre da periferia que fundou uma empresa, recebeu grandes investimentos, vendeu sua empresa e hoje vive em Nova Iorque. O Marco faz o exato caminho oposto tentando mostrar que é só um humano normal que teve bastante sorte, mesmo sem desmerecer os próprios méritos. Essa indicação vai parecer engraçada por acharem que eu sou o @marcogomes, mas isso fica para a curiosidade dos demais.

De resto, fazia pelo menos 5 anos que não seguia nada sobre empreendedorismo e startups, voltei a seguir depois do perfil para poder fazer piadas.

TB — Já sofreram algum processo ou tiveram alguma reclamação com relação ao conteúdo que vocês reproduzem/comentam?

Processos ainda não aconteceram e suspeito que nem cheguem a acontecer. Tento sempre fazer piada com assuntos que consigo comprovar com materiais ou documentos.

Já tive reclamações sobre piadas ruins, que eu mesmo reconheci que foi mal feita e merecia ser deletada. Também recebi criticas em textos por usar algum tom excludente, que também concordei ser inapropriado. Normalmente quando alguém reclama de algo eu apago ou corrijo. Para mim a crítica precisa ser bem precisa, se deu margem para interpretações ruins ou ficou ambíguo, é preciso refazer ou apagar.

TB —  Vocês têm algum plano de transportar o Startup da Real para fora das redes (do tipo palestra, site, hamburgueria via crowdfunding)?

Não existe planos para isso. De fato eu estou fugindo de tratar o startupdareal como um negócio. Tenho muitas obrigações na vida e não quero mais um trabalho para me tirar o sono. É legal que continue assim, sendo uma diversão engraçada, virando obrigação acho que perderia a graça. Pode até acontecer de transformar em algum negócio caso vire um sucesso realmente substancial, mas por hora nem consigo pensar nisso.

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Falando a real com o @startupdareal via The Brief

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