Há alguns anos, Kim “Dotcom” Schmitz chegou a gastar US$ 10 milhões em um único fim de semana em Mônaco. E a garagem de sua mansão também não fazia feio: havia ali US$ 6 milhões em bólidos que a maior parte das pessoas possui apenas em miniaturas. Isso para não falar nos aviões, iates, festas pródigas... E mais uma enorme quantidade de esculturas de girafas espalhadas por todo o canto.

Atualmente? Bem, segundo o próprio Dotcom, todo o combustível da sua extravagância — ou pelo menos aquela parte que não havia sido tomada pelo governo — acabou se consumindo com “quase três anos” de batalha nos tribunais. “Agora estou oficialmente quebrado”, disse Dotcom durante uma sessão de perguntas e respostas organizada pelo site Unbound Digital.

“Meu estilo de vida dificultou a discrição”

No que se refere, entretanto, aos carros, jatos, barcos e girafas, entretanto, Dotcom reconheceu que seu estilo de vida fez dele um alvo primordial entre vários outros empresários de serviços de internet. “Andar por aí em iates e em aviões particulares provavelmente não é a melhor forma de se manter fora das vistas” disse ele, em resposta a um dos espectadores da sessão.

Apesar disso, ele se disse também vítima do lobby organizado em Hollywood pelos detentores de direitos autorais — cujo “dinheiro” acabou por alterar a forma convencional do tratamento dispensado pelos agentes da lei em questões como a do Megaupload.

“Fui abordado como se fosse um terrorista”

Kim lembra que a maior parte do litígios envolvendo direitos autorais acabavam no escopo do direito civil. “No meu caso, transformaram em uma questão criminal”, disse ele, ressaltando a abordagem “ao melhor estilo hollywoodiano” que lhe foi dirigida na ocasião de sua prisão. “O governo dos EUA teve a ideia de me processar pelas ações dos meus usuários”, disse ele, em tom de brincadeira.

“E o fizeram de uma forma bastante hollywoodiana”, com helicópteros e dezenas de policiais armados com rifles automáticos. “Quase como em um filme, quando um suspeito de terrorismo ou um traficante é caçado”, afirmou Dotcom. “Ainda me consideraram de certa forma responsável por todas as coisas desagradáveis que vocês fizeram (risos).”

Um “vilão alemão” comprometido com Hong Kong

Retomando alguma seriedade na questão “Por que você foi escolhido a despeito de outros empresários com abordagens semelhantes?”, Dotcom disse acreditar que — além do seu estilo de vida pródigo (acima) —, o fato de o Megaupload haver sido hospedado e mantido em Hong Kong deve ter incomodado as autoridades governamentais nos EUA.

“Nós tínhamos uma quantidade significativa de tráfego que estava completamente fora do controle do governo dos EUA”, disse ele ao Unbound Digital, incluindo ainda uma ponta de sarcasmo: “Também pelo fato de eu ser alemão. Eles têm essa predileção por vilões alemães”.

Sobre a empreitada do Mega — e sobre o estar “quebrado”

Em dado momento, Dotcom é perguntado sobre o andamento do seu serviço pós-Megaupload, o Mega — referenciado como “mais de acordo com a lei” do que seu site anterior. “O Megaupload era igualmente ilegal”, dispara o empresário após uma sonora risada, “mas eu vou atualizá-la sobre o Mega: ele tem hoje 15 milhões de usuários registrados”.

Não obstante, Dotcom garante que não possui o controle direto nem de uma mínima parcela do serviço. “Eu não possuo nenhuma única ação do Mega; ele está agora sob o controle completo da minha mulher dos meus filhos, como beneficiários”, disse o empresário ao referido veículo.

Ele continua: “Eu fiquei feliz por ter feito isso, já que Hollywood tentou pegar as novas posses, aquelas adquiridas após tomada inicial [envolvendo bens relacionados ao Megaupload]”. Portanto, ele conclui: “Estou oficialmente quebrado agora”.

“Os controles governamentais devem diminuir”

Kim Dotcom também fez algumas previsões sobre o futuro, no que tange ao ecossistema desenvolvido na internet. Para ele, embora os controles por parte do governo tenham se tornado cada vez mais cerrados, os saltos tecnológicos devem ser suficientes para devolver alguma privacidade aos usuários.

De fato, quando perguntado por um usuário sobre sua opinião acerca dos Bitcoins, Dotcom utilizou a moeda virtual como exemplo de como a tecnologia pode “proteger a intimidade” das pessoas no futuro. Para ele, “Prova de quão poderosa é a internet, e de que nós devemos nos precaver e proteger essas inovações.”

“Hoje nós sabemos que os governos nos espionam e, no futuro, vamos poder nos precaver com melhores tecnologias de comunicação e criptografia”, disse ele. Não obstante, quando questionado sobre possíveis panoramas positivos na política, o empresário foi taxativo: “Eu realmente enxergo o cenário político de uma forma bastante sombria”, referindo-se à sondagem governamental sobre os indivíduos.

O que faria diferente hoje?

Quando perguntado sobre se alteraria alguma das suas posturas anteriores — cujo desdobramento levou à batalha judicial que todos conhecemos —, Dotcom admitiu não ter dado suficiente atenção à fumaça que havia despertado ente os detentores de direitos autorais em Hollywood.

“Eu não levei suficientemente a sério as ameaças dos lobbys de direitos autorais”, disse o empresário. Dotcom diz que nem ele e nem a equipe responsável pelo Megaupload consideraram que o serviço pudesse ser processado da forma como se deu.

“Nós em nenhum momento imaginamos uma ação criminal”, afirmou. “Vários outros sites executavam exatamente a mesma atividade e sempre conseguiam amparo legal” disse Dotcom, citando serviços como o Rapidshare e o próprio YouTube.

Que carreira recomendaria aos seus filhos?

Por fim, diante da novela do Megaupload, alguém resolve perguntar a Dotcom que dica daria aos seus filhos, em relação aos seus futuros profissionais. “Não iniciem um negócio de armazenamento em nuvem”, brinca o empresário. “Em vez disso, tornem-se advogados — advogados sempre vão fazer dinheiro, eu posso garantir isso.”

Nesse momento, ouve-se um silêncio constrangedor, conforme o autor da pergunta esperava por algo mais de Dotcom — digamos, algo mais “sério”, por assim dizer. “Não, é isso mesmo, eu diria para eles se tornarem advogados, nem é preciso pensar muito”, ele conclui.

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