Com Twitch, Periscope, Meerkat e YouTube, hoje em dia você acompanha a vida de muitas pessoas na internet — seja durante gameplays ou em vlogs, conhecemos opiniões e rotinas de pessoas que provavelmente nunca veríamos pessoalmente, mas que ganham uma importância repentina em nosso cotidiano.

Estamos falando sobre tecnologias e uma sociedade que vive em 2015, época em que qualquer interessado com uma câmera acoplada no PC ou no smartphone pode colocar clipes online e nunca houve tantas plataformas e possibilidades. Porém, e se alguém tentasse emplacar uma espécie de transmissão ao vivo em 1996? São quase 20 anos de diferença, mas que parecem uma eternidade em avanços, aplicativos e história da internet.

Essa é a história de Jennifer Kaye Ringley, a estudante universitária que se transformou na primeira lifecaster da internet – e que, depois de virar pioneira também em ser uma celebridade fabricada única e exclusivamente pela internet, experimentou os pontos positivos e negativos da fama.

Um hobby que virou profissão

Tudo começou quando Jenni tinha 19 anos. Ela estava no primeiro ano da faculdade, no estado norte-americano da Pensilvânia, quando decidiu instalar uma webcam no PC que só transmitia em preto e branco, mas não parava nunca.

Nasceu aí o Jennicam.com, um site que enviava a cada quinze minutos (posteriormente, o intervalo passou para três minutos) uma nova captura de tela da moça: Jenni espirrando, Jenni escovando o cabelo, Jenni acariciando o gatinho. Hoje em dia, isso passaria totalmente despercebido, mas em 1996 era difícil ignorar alguém que resolveu expor com tamanha intensidade a própria intimidade na rede.

Ela teve a ideia depois de ver um site que transmitia um aquário 24 horas por dia, mas achou que com um ser humano a história seria mais interessante. Além disso, ela era programadora amadora e tomou a criação do código que automatizaria o upload das imagens como um desafio. A ideia deu certo e ela compartilhou o site com alguns amigos, que realmente se interessaram e conferiam o conteúdo com certa frequência – até que foram passando para outros amigos, e amigos depois destes, e por aí vai.

Uma das primeiras postagens no site.

Um jornal australiano ficou fascinado pelo site e fez uma matéria especial sobre o Jennicam, dando o pontapé inicial de popularidade para a página. Jenni precisou convencer a todos de que o experimento não era pornografia, como é fácil imaginar ao ficar sabendo da ideia. No início do streaming, ela desejava somente mostrar a vida real como ela é, sem vergonha, inibições ou limitações só porque há uma câmera gravando e um alto número de pessoas assistindo. Não é que ela queria se exibir: ela simplesmente não se importava se alguém estivesse olhando.

Big Brother Jenni

O Jennicam.com começou a crescer monstruosamente. No início, ela não cobrava mensalidades, mas o streaming possuía uma espécie de DLC, assim como nos games atuais: pagamentos feitos via cartão de crédito desbloqueavam outros ângulos ou câmeras em outros cômodos do apartamento e atualizavam mais imagens em um menor período de tempo. Logo depois, ela passou a pedir uma contribuição, o que aprimorou a transmissão cada vez mais.

Talvez em seu ápice de popularidade, Jenni foi ao programa de entrevistas de David Letterman, nos Estados Unidos. "Pessoas são solitárias, desesperadas e seres humanos miseráveis, eles querem ver a vida de outra pessoa tomando o seu lugar. É reconfortante", alfinetou o entrevistador, que se aposentou da televisão em 2015.

Neste momento da vida, a moça se formou e se mudou de um pequeno dormitório na universidade para um apartamento mais espaçoso em Washington. Em 1999, ela chegava a acumular 4 milhões de visitantes por dia na página. Lembre-se: esse é literalmente o século passado, com internet discada e pouca gente que realmente passava o dia conectado.

Com o tempo, Jenni começou a “apelar”. Ela fazia stripteases sem motivo (que logo foram abortados, pois um grupo de hackers começou a provocá-la e a tentar derrubar o site justamente nesses momentos de pico), saía do banho sem estar completamente vestida e tinha momentos de alta intimidade — sozinha ou com acompanhantes. Um dos namorados que a moça teve durante o Jennicam não gostava de ser filmado o tempo inteiro, mas a única coisa a se fazer era apagar as luzes e puxar o edredom. Isso até suavizava as coisas, mas não deixava dúvidas sobre o que estava rolando no quarto. Na primeira vez em que Jenni e um rapaz se beijaram em frente às câmeras, o servidor caiu imediatamente por conta do tráfego.

Um dos momentos em que o site recebia visitantes em massa e chegava a cair.

Porém, aquilo ainda continuava sendo a vida real: por vários dias, você poderia entrar lá e só vê-la assistindo TV, de frente para o PC fazendo algum trabalho ou comendo um pacote de bolachas. Naquele momento, a rotina de Jenni, jovem e recém-formada, era relativamente entediante e caseira.

A queda de Jennicam

A segunda mudança de casa de Jenni, agora para Sacramento, foi crucial para a continuidade do projeto. Isso porque quem ajudou a moça com a mobília foi Derek, que era noivo de uma concorrente (e também amiga) de Jenni no mundo das camgirls (“garotas de câmera”, que começavam a surgir intensamente no início dos anos 2000 e copiavam as transmissões da pioneira Jennicam). Meses depois, Derek e Jenni dormiram juntos. Na casa da moça. Sob o olhar das câmeras.

Imagine se isso tivesse acontecido em 2015: hashtags, vlogs, páginas no Facebook e grupos do WhatsApp se multiplicariam com seguidores do #TeamJenni e de quem militaria para acabar com o site. O site provavelmente não ficaria de pé por conta de ataques de grupos hacker, ela precisaria apagar as contas nas redes sociais e, se duvidar, até tomar cuidado com stalkers da vida real.

Ela não parou. Depois de brigar com as camgirls e continuar com o rapaz, Jenni prosseguiu com as transmissões até 2004. Alegando problemas com o PayPal, que não aceitava mais pagamentos porque seu conteúdo continha nudez, ela encerrou as atividades no site e guardou todo o acervo em uma caixa, que agora fica em sua garagem. O verdadeiro motivo, entretanto, foi a confusão com o rapaz – além disso, o relacionamento acabou e ela arranjou um emprego em período integral, o que diminuiu o tempo que a moça passava em casa.

Algumas coisas sobre o fim de Jennicam.com são curiosas. O fechamento virou uma nota até na BBC. O podcast ReplyAll fez um episódio sobre o site recentemente e conseguiu rastrear Jenni, mas aí é que vem a parte maluca: ela simplesmente sumiu da internet. Não tem contas em redes sociais, usa o PC somente para trabalho e não quer mais nem ouvir falar do projeto que tinha quando era jovem.

Jenni simplesmente dormindo e no escuro. A vida real não é tão emocionante sempre.

Casada, Jenni reconstruiu a vida, pegou o sobrenome do marido (que é genérico e comum, o que não a diferencia na multidão) e passou a trabalhar como programadora em um local que mal sabe ou não se importa com o que ela fazia há alguns anos. Depois de cinco anos de exposição intensa, ela decidiu que era hora de apagar todas as luzes.

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Jenni abriu as portas da internet para conteúdos e temas que hoje são discutidos livremente: conteúdo gerado por usuários, sites interativos, assinaturas mensais, video-on-demand e até autoexploração de imagem. Não dá para dizer que nada disso existiria sem ela, mas a coragem (ou a falta de covardia) da programadora criou um interesse repentino no assunto.

Camgirls continuam existindo, de uma forma ou de outra. Publicamos nossa rotina, sentimentos, gostos e até algumas intimidades em uma série de sites e aplicativos, muitas vezes para completos estranhos. Hoje em dia, há quem diga: “Agora, nós somos todos Jennicam”.

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