Se você prestou atenção em qualquer notícia além das relacionadas à votação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, deve estar sabendo que a Vivo e as demais operadoras do setor de banda larga fixa no Brasil estão tentando implementar mudanças no seu modelo de negócios.

Essas empresas querem agora cobrar dos usuários não apenas por velocidade disponível, mas também pela quantidade de dados que movimentam na rede. Basicamente, a internet fixa funcionaria da mesma forma que a móvel, só que com limites maiores.

Nas últimas semanas, quando a Vivo anunciou a incorporação definitiva da GVT, explicou também que passaria a limitar o consumo dos usuários com franquias bem limitadas. Quanto menor a velocidade contratada, menor o limite de uso. A empresa diz que isso é uma "tendência mundial" e que é também justo, já que quem usa mais deve pagar mais do que os que usam menos.

A maioria nações e operadoras ainda não limita o uso da banda larga fixa com franquias de dados

Mas será que os que usam menos vão ter os preços de seus planos reduzidos? É muito provável que não. De qualquer forma, nós resolvemos verificar em alguns outros países se essa tendência também se apresenta. E para nossa “surpresa”, a maioria nações e operadoras ainda não limita o uso da banda larga fixa com franquias de dados.

Vale notar, entretanto, que, em várias regiões da Europa, já existem pacotes com franquia bem limitadas, mas eles custam bem pouco, cerca de 25 euros. Isso equivale a algo em torno de R$ 100, mas é necessário levar em consideração que, por lá, o salário médio é bem maior.

Em mais de 70% dos países do mundo, até os pacotes mais básicos de internet fixa são ilimitados

Segundo a União Internacional de Telecomunicações, em mais de 70% dos países do mundo até os pacotes mais básicos de internet fixa são ilimitados do ponto de vista do consumo de dados. Apesar disso, nos EUA, Canadá, Alemanha, Irlanda, México, Japão e Argentina já existem planos ilimitados em paralelo com os limitados sendo comercializados pelas operadoras locais.

América do Norte

Nos EUA, todas as quatro grandes operadoras de internet fixa (AT&T, Comcast, Time Warner e Virizon) impõem limites de consumo de dados em seus planos, assim como as operadoras brasileiras pretendem fazer por aqui. Algumas menores, como a Google Fiber, não praticam essa política, mas elas têm atuação muito limitada geograficamente, assim como Copel Telecom e Live Tim no Brasil.

A diferença entre o nosso mercado e o norte americano é que a média de velocidade da internet é muito mais alta, cerca de 11,9 Mbps contra 3,4 Mbps no Brasil, e os limites de uso de dados são muito maiores do que os planejados pelas nossas operadoras.

Um plano básico com velocidade de 3 Mbps custa cerca de US$ 30 (R$ 106) e tem franquia de dados de 250 GB. Para efeito de comparação, a internet avulsa de 15 Mbps da Vivo/GVT que custa R$ 99 no Paraná tem apenas 120 GB de franquia. Planos mais em conta ficariam ainda mais limitados.

A diferença entre o nosso mercado e o norte-americano é que a média de velocidade da internet é muito mais alta por lá

A NET, por sua vez, oferece pacotes ainda mais magros, 15 Mbps por R$ 104 e 80 GB de franquia. Vale lembrar, entretanto, que NET e Oi raramente impõem esses limites a seus clientes, mas não se sabe por quanto tempo isso deve continuar assim. A Vivo, entretanto, pretende fazer isso a partir do primeiro dia de 2017.

No Canadá, os planos mais baratos começam em 25 Mbps com ou sem franquia de dados, e o custo gira em torno dos R$ 70. O país, entretanto, tem um salário médio bem mais alto que o brasileiro.

Europa

Na Europa os planos de internet fixa com limitação por franquia de dados estão se disseminando especialmente na Irlanda e no Reino Unido. Nesses países, os limites podem ser bem baixos, mas há opções bem folgadas e relativamente em conta para contratar. A operadora britânica BT, por exemplo, oferece franquias com o mínimo de 25 GB, mas isso custa apenas o equivalente a R$ 25 ao consumidor.

Dublin, Irlanda

Na Irlanda, os preços dos planos ilimitados e os limitados não são muito diferentes. Você pode encontrar conexões de 4 Mbps com franquia de míseros 3 GB por mês custando 25 euros (R$ 100), mas também pode pagar 40 euros (R$ 160) na Vodafone por 100 Mbps sem limite de uso. A velocidade média da rede por lá chega a 17,4 Mbps.

América Latina

Os planos com limite de uso de dados por franquia na internet fixa já chegaram também à Argentina. Por lá, entretanto, a situação é bem pior que a nossa. Apesar de terem uma velocidade média um pouco melhor que no Brasil, os argentinos pagam mais por isso.

Uma conexão de apenas 3 Mbps na argentina pode custar R$ 129, o que representa 7% do salário da renda média da população, que gira em torno de R$ 1.470. O salário médio no Brasil era de R$ 1.725 no fim de 2015.

Apesar do preço elevando frente ao salário argentino, o custo de vida por lá é bem mais barato que no Brasil, por causa da economia local que tem sofrido perdas há muitos anos. Mesmo com todos os planos sendo limitados por franquias, as operadoras ainda não têm qualquer previsão para começar a impô-las aos usuários, assim como NET e Oi no Brasil.

Buenos Aires, Argentina

No México, a grande maioria dos pacotes não possuem franquias de dados. Planos mais baratos, de 10 Mbps custam cerca de R$ 88, enquanto os mais caros, de 50 Mbps, chegam a R$ 162, valores relativamente similares aos do Brasil.

Está na hora?

O que se tem como certo é que rede de internet no Brasil ainda é muito deficiente, lenta e cara, ainda mais em cidades interioranas. Essas localidades devem ser as maiores afetadas por esses limites de franquia, uma vez que normalmente só possuem uma operadora oferecendo banda larga.

Acho cedo para falar em mudança de plano antes de universalizar o acesso à internet de alta velocidade

Por conta disso tudo, o diretor da consultoria Nextcomm, Luiz Santin, que conversou com o jornal Gazeta do Povo, afirma que ainda é muito cedo para começar a limitar a internet fixa no Brasil com franquias de dados.

“Temos a internet mais cara e lenta do mundo. As empresas podem entregar o mínimo de 40% da banda contratada. Além disso, há um grande mercado para ser explorado aqui. Acho cedo para falar em mudança de plano antes de universalizar o acesso à internet de alta velocidade”. Explicou Santin ao periódico.

Qual seria a melhor opção para resolver o impasse da franquia de dados na internet fixa no Brasil? Comente no Fórum do TecMundo

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