Irrefreável, a tecnologia chegou a um ponto em que praticamente tudo ao nosso redor tem alguma inteligência própria – e esse é um dos raros cenários em que perder o controle é gostoso. A Intel mostrou uma ponta desse iceberg no IDF 2016, sigla para Intel Developer Forum, evento anual em que a empresa apresenta as tecnologias do futuro evoluídas a partir do que temos hoje. Ocorre que o hoje, na verdade, já é o amanhã. 

A convite da gigante, o TecMundo compareceu à ocasião, em São Francisco, nos EUA, para conferir as pistas daquilo que veremos lá na frente. Trata-se de um providencial encontro voltado, em grande parte, à comunidade de desenvolvedores, uma vez que a Intel exibe uma série de soluções em código aberto para esses profissionais – e a todos os imagináveis contextos nos quais a tecnologia é aplicável.

Sem pestanejar, o CEO da companhia, Brian Krzanich, subiu ao palco e já proferiu, em alto e bom som, que a Intel “quer dar todas as possibilidades aos desenvolvedores”. Isso inclui inúmeros campos: robótica, games, drones, câmeras, realidade virtual, carros e até mesmo inteligência visual, entre outros temas.

Brian Krzanich, CEO da Intel 

Realidade virtual: a chama do Olimpo

Parte da conferência se dedicou ao anúncio do Project Alloy, uma plataforma open-source a partir da qual os desenvolvedores, com o apoio da Intel, podem concretizar diversas ideias aproveitáveis na realidade virtual no formato "tudo-em-um", como games, visitas a museus, soluções para a saúde e a educação, entre outros contextos.

O mercado de VR está alardeando a mídia há anos. Mas só nos tempos recentes a tecnologia está, enfim, chegando às mãos do consumidor, que já começa a ter poder de escolha com as diversas opções que estão surgindo – Oculus Rift, HTC Vive, PlayStation VR, Gear VR etc. 

Já existem pilotos por aqui [América Latina]. Chile e México são muito fortes no segmento, Brasil também. A ideia é que entreguemos as ferramentas necessárias, a plataforma, para que os desenvolvedores possam criar produtos voltados à realidade virtual

A ideia da Intel é ir além, brincar com o Windows holográfico e, de lambuja, oferecer a flexibilidade necessária para que comunidades mais independentes, por exemplo, tenham a API requerida para trabalhar com diversos cenários possíveis. “Ter um código universal para usar é um elemento de suma importância. Não estamos falando de algo abstrato, o futuro já chegou. A realidade virtual está entre nós”, endossou o CEO durante a coletiva de imprensa.

Brian apresenta o Project Alloy e dá um esboço do futuro desse setor

E o potencial para a América Latina? 

De acordo com Reinaldo Affonso, diretor da Intel para a América Latina, já existem diversos pilotos em nosso território. “Não posso revelar certas coisas agora, naturalmente, mas posso dizer que já existem pilotos por aqui [América Latina]. Chile e México são muito fortes no segmento, Brasil também. A ideia é que entreguemos as ferramentas necessárias, a plataforma, para que os desenvolvedores possam criar produtos voltados à realidade virtual”, afirmou o executivo em resposta à pergunta realizada pelo TecMundo.

Os preços de tudo, no entanto, e ainda sem estimativas, sempre são um entrave – especialmente no nosso país, onde há o famoso “custo-Brasil”. “Diversos fatores permitem que esse mercado [o de realidade virtual] se desenvolva. Queremos estar em games, em veículos [autônomos], em drones, em robótica. O Brasil é muito forte, mas sempre existe essa questão do preço. Com o tempo, isso amadurece”, ponderou o diretor.

Inteligência visual: reconhecimento aprimorado e até luzes inteligentes 

Outro aspecto muito discorrido durante a conferência foi a inteligência visual. Esse setor se refere a tudo que envolva a visualização de objetos a partir de um dispositivo conectado – drones, câmeras, veículos e até mesmo luzes.

Inteligência visual: um novo mundo a partir de dispositivos inteligentes

Sim, luzes inteligentes. Que envolvem também cidades inteligentes, internet das coisas e afins. A ideia é que as ruas fiquem mais claras e as lâmpadas usem menos eletricidade num gerenciamento próprio, digamos, mais independente. Some a isso veículos autônomos, super-redes que conectam absolutamente tudo o que fazemos e produzimos (fotos, vídeos, documentos), monitoramento de ar, clima e você tem, basicamente, o que chamamos de “cidades inteligentes”. Parece utópico, mas a verdade é que esse esboço bate à porta.

Nesse contexto, a inteligência visual é algo de suma importância. “Ela permite dar aos dispositivos a capacidade de ter um reconhecimento absoluto do ambiente”, ressaltou o CEO durante a apresentação para então, na sequência, matar a pau: anunciar o conceito de “Realsense”, em que mais e mais APIs abertas existirão com o objetivo de permitir que um número cada vez maior de desenvolvedores possa inovar em inteligência visual. E foi mais ou menos assim que George Orwell previu na obra "1984" - onde nasceu o Big Brother que a tudo e a todos vigia. 

Os drones, por exemplo, podem fazer ótimo uso da tecnologia. O executivo justificou a tese com um modelo capaz de ter inteligência própria para voar a desviar de obstáculos sozinho. Apresentada na coletiva, a plataforma Aero, inserida nesse segmento, é um chip open-source que libera quaisquer possibilidades aos que desejarem se aventurar na criação de um drone. Afinal de contas, um dispositivo assim requer computação, e a Intel é a responsável por fornecer tal tecnologia.

Chip Aero: tecnologia para criação de drones ao alcance dos desenvolvedores

Intel Euclid: robôs (quase) humanos 

No campo da robótica, a Intel introduziu o Euclid, um chip minúsculo a partir do qual as empresas categorizadas no setor podem criar soluções simples, intermediárias ou complexas para diversas finalidades. 

O famoso “robô-faxineiro”, que povoa nosso imaginário – e sempre foi muito bem representado no desenho “Os Jetsons” –, não está muito longe de se transformar em realidade. Na verdade, já existem diversos modelos por aí, catapultados, principalmente, no Japão. Mas não no patamar testemunhado no evento da Intel.

A tecnologia Euclid não se limita a um propósito mais material: utilizações em medicina e educação, por exemplo, são de amplo interesse da indústria

Aqui, as possibilidades são inúmeras: limpeza, tomar lições de casa de um estudante, cuidador de cachorro e até mesmo psicólogo estão nas bolas de cristal dos especialistas – alguns robôs até ensaiam lágrimas. Mas a tecnologia Euclid não se limita a esse propósito mais material: utilizações em medicina e educação, por exemplo, são de amplo interesse da indústria. O meio corporativo pode se beneficiar muito das soluções oferecidas.

Intel Euclid: avanços em robótica

Veículos autônomos: ainda falta tecnologia 

Apesar de existirem diversos conceitos sobre carros autônomos por aí – muitos deles postos em prática, inclusive, principalmente pela Google –, ainda estamos a alguns anos de distância da estabilidade dessa tecnologia. A verdade é que o futuro do setor está praticamente desenhado, mas ainda não existem recursos suficientes para estruturar todos os pilares necessários.

E, basicamente, cinco elementos servem como alicerce para os veículos guiados por conta própria, de acordo com Bridget Karlin, diretora de gerenciamento de IoT da Intel:

  • Um computador de alta performance dentro do veículo, requisito no qual a Intel quer se encaixar como pioneira; 
  • Conexão 5G plenamente funcional;
  • Data center, responsável por computar tudo, enviar e receber as informações;
  • Um HMI redesenhado (sigla para “Human Machine Interface”, ou “interface da máquina a humanos”, em tradução livre);
  • Segurança.

E quantos dados tudo isso deve movimentar? “Cerca de 40 GB por minuto. Também é preciso pensar nas rotas. É preciso ter sensores nelas, é preciso ter uma internet que nunca cai, enfim, infraestrutura é primordial no processo de aprendizado do carro autônomo, que tem inteligência própria e evolui com o tempo”, explicou a executiva em bate-papo do qual o TecMundo participou.

Traçar um cenário assim, conforme mencionado, já é possível, mas ainda não há recursos suficientes para a plena eficiência da tecnologia. “Ainda não chegamos ao 5G e precisamos dessa conexão funcionando com estabilidade. É mais seguro começar na agricultura, na mineração, e depois entregar [os veículos autônomos] ao consumidor final. Acreditamos que em 2020 já veremos alguma coisa assim. Mas só por volta de 2030 teremos um número minimamente significativo de automóveis autônomos circulando”, prevê Karlin.

BMW: parceira da Intel na empreitada 

Futuro conectado 

Essa é apenas uma olhadela nas revoluções – e evoluções – que o futuro reserva. Isso sem mencionar 4K, realidade aumentada, frequências de transmissão, a mistura disso tudo... O TecMundo segue na cobertura do IDF 2016 em São Francisco, nos EUA, para trazer outras novidades sobre o evento. 

Enquanto isso, converse conosco na seção destinada aos comentários, logo adiante. Você acha que o futuro conectado, mais do que o mundo já é, pode abordar que segmentos? Nesse contexto, onde o Brasil se encaixa? Opine abaixo.

*O jornalista viajou até São Francisco a convite da Intel e agradece a viabilidade desta cobertura.

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