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Quando uma conversa mistura produtos eletrônicos com o Brasil, é impossível não falar sobre a grande quantidade de impostos que incidem sobre os dispositivos que encontramos nas lojas do país. Afinal, não é preciso ser um grande conhecedor de matemática para ver que o preço que pagamos por smartphones, tablets, televisões e outros aparelhos são muito maiores do que os praticados em locais como os Estados Unidos e o Japão.

No entanto, esse grande vilão nacional não trabalha sozinho na hora de aumentar o preço que pagamos por nosso gadgets. Apesar de ser fácil jogar toda a responsabilidade sobre as taxas e contribuições que incidem sobre produtos fabricados no exterior, fatores culturais e econômicos também contribuem para que tenhamos o iPhone mais caro do mundo.

Neste artigo, explicamos os motivos pelos quais você não deve culpar somente os impostos pelo fato de um smartphone de última geração custar mais de R$ 2 mil. Confira nossas explicações e, após a leitura, não se esqueça de registrar a sua opinião sobre o assunto em nossa seção de comentários.

Taxas, impostos, contribuições...

Sem dúvida, o sistema de impostos disfuncional que existe no Brasil é um dos principais responsáveis por pagarmos caro em itens que vão de produtos eletrônicos até peças de vestuário, meios de transporte e alimentos, entre outros. Entre os motivos para os preços altos está o fato de que nosso sistema tributário prioriza taxas que incidem sobre o consumo, e não aquelas que afetam a produção, já que as primeiras se mostram mais fáceis de coletar.

O ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), de ordem estadual, pode variar entre 16% e 25% dependendo do local do país que é avaliado. Além disso, itens que vêm do exterior sofrem com uma taxação de 60% sobre seu valor-base, o que contribui para inchar os valores cobrados por eles em território nacional — medida de ordem protecionista que nem sempre faz sentido, especialmente quando não há produto nacional correspondente que deva ser “protegido”.

Os preços no Brasil assustam mais que muitos filmes de terror (Fonte da imagem: iStock)

Alexandre Versignassi, especialista em desvendar o código tributário brasileiro, afirma que atualmente empresas têm que lidar com 88 contribuições federais, estaduais e municipais, algo que, na prática, significa que elas têm que gastar aproximadamente um terço do ano lidando com impostos.

Segundo ele, as autoridades do país criam aproximadamente 46 novas regras a cada dia, o que torna um inferno a vida de muitos contadores. Isso afeta principalmente as classes média e baixa, que não conseguem aproveitar as brechas que os mais ricos usam para evitar a taxação de grande parte de sua renda.

O resultado disso tudo é que mesmo produtos produzidos em território nacional são vendidos em nossas lojas por preços maiores do que os cobrados no exterior. Enquanto por aqui um Gol 1.6 com quatro portas sai por R$ 37 mil, no México o mesmo veículo (produzido em São Bernardo do Campo) pode ser adquirido por R$ 23 mil — com a diferença, você pode levar sua família para passar boas férias em Cancun e ainda deve sobrar algum dinheiro para comprar lembranças.

Questão de infraestrutura

Outro ponto que encarece o preço de produtos é a maneira como o Brasil é estruturado internamente. Como aqui a maioria dos bens é transportada através de rodovias, isso faz com que eles sejam muito mais caros do que em outros países — além de sua distribuição se tornar mais desigual entre as diferentes regiões do país.

Enquanto nos Estados Unidos cada tonelada de soja custa R$ 35 para ser transportada, no Brasil a mesma quantidade custa R$ 160. Essa diferença brutal se deve ao fato de o país norte-americano possuir uma grande malha ferroviária que, apesar de ser muito mais cara para implementar, apresenta um grande retorno a longo prazo, o que implica em uma diminuição no preço de fretes.

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“Levar um carro da fábrica em São Paulo para uma concessionária em Salvador (a 1,9 mil quilômetros) custa quatro vezes mais do que o frete entre Xangai e Pequim (1,2 mil quilômetros)”, exemplifica Versignassi. O custo, naturalmente, é diluído no preço da camiseta, do celular e da latinha de refrigerante que todos nós compramos.

O problema, nesse caso, é o fato de que o investimento em ferrovias e hidrovias, além de inicialmente caro, só vai apresentar resultados efetivos após um período de tempo relativamente longo. Assim, se torna muito mais fácil para um governante chamar atenção da mídia com medidas imediatistas (como tapar buracos de determinada rua) do que investir em infraestruturas cujos benefícios só vão ficar evidentes no mandato de outra pessoa.

O tal do “Custo Brasil”

Embora a questão de transportes tenha um impacto mais direto sobre o preço daquilo que chega às nossas prateleiras, outros fatores estruturais também colaboram para encarecer produtos — resultando no conhecido “Custo Brasil”. A falta de investimento em novos métodos de produção e em renovação tecnológica faz com que nosso país tenha que lidar com condições que já foram há muito superadas por países desenvolvidos.

“Se aqui um empreendimento com duas torres de 35 metros exige até 1,5 mil trabalhadores e leva 42 meses para ficar pronto, os americanos erguem uma obra dessa magnitude em 30 meses e com metade dos funcionários”, afirmou em uma entrevista à Exame Alessandro Verdossi, diretor da construtora Brookfield.

(Fonte da imagem: Divulgação/Microsoft)

O campo dos aparelhos eletrônicos também é afetado por esses problemas de infraestrutura. Ao priorizar a venda de minérios em sua forma bruta, o país pode ganhar em um primeiro momento, mas perde muito na hora de adquirir produtos industrializados. Afinal, de nada adianta ter o ferro e o alumínio se é preciso mandá-los para a China para que lá eles se transformem em dispositivos como smartphones — que vêm para cá com diversas taxações agregadas em seu valor final.

“A regra é óbvia: quanto menos desenvolvido for um país, mais ele precisa gastar em investimento. Os emergentes colocam em média 31% de seus PIBs nisso. A Mongólia, novo quintal de commodities da China, 51%. Nós, 19%. É o mesmo tanto que o Egito — um país que só gastou de verdade com investimentos quando fez as pirâmides”, explica Versignassi.

Ou seja, se quisermos que o preço de produtos que adquirimos não seja tão caro, não precisamos exigir somente uma diminuição no imposto. Também é preciso cobrar que o dinheiro que pagamos ao governo seja revertido em investimentos que realmente tenham um impacto na maneira como nosso país produz e comercializa bens de consumo — algo que não interessa a muitos governantes por ser o tipo de decisão que não surte efeitos imediatos.

Questão que também é cultural

Mesmo levando em consideração todas as questões apontadas anteriormente, o preço cobrado por produtos no Brasil ainda desafia a matemática. Basta analisar o mercado de smartphones e tablets para ver que, mesmo quando custam exatamente o mesmo valor no exterior, versões diferentes de um produto têm disparidades no quanto custam ao consumidor nacional.

Quando chegou ao Brasil, o Galaxy S3 tinha o preço sugerido de R$ 2.049, sendo que era possível encontrá-lo em lojas por aproximadamente R$ 200 a menos, mesmo em seu lançamento. Mesmo custando o mesmo preço que seu antecessor nos Estados Unidos, o Galaxy S4 é vendido no país por R$ 2.399 — valor que fica ainda mais alto caso você opte pelo modelo 4G.

(Fonte da imagem: Divugação/Samsung)

Durante o intervalo de tempo entre o lançamento dos dois produtos, não houve qualquer mudança substancial no campo dos impostos ou do câmbio que explique tamanha disparidade. Assim, o único responsável para isso é o chamado “Lucro Brasil” — o velho esquema do “tem quem compre, então podemos cobrar o preço que queremos”.

Mais do que ser fruto da ganância de empresários, isso reflete uma cultura na qual o poder de consumo de uma pessoa ainda diz muito sobre como ela é vista pela sociedade. Em geral, é mais importante ter o “produto da moda” (por mais caro que ele custe) do que ter em mãos algo funcional, mas que não chame a atenção dos outros.

Temos oficialmente o iPhone mais caro do mundo (Fonte da imagem: Reprodução/Apple Store)

“O tênis, o carro, o restaurante não valem só pelo que eles são, mas como símbolos de status. É por isso que sai mais caro jantar no Rio ou em São Paulo do que em Nova York. E o que inflaciona também a marca de um restaurante é ser frequentado por celebridades. A gente está vivendo essa busca insana pela fama, o que no Brasil engendra privilégios e outros bichos”, afirmou à Trip o antropólogo Roberto Da Matta.

Ou seja, grande parte do motivo pelo qual aceitamos pagar caro por um smartphone é o fato de que, socialmente, acreditamos que é normal que ele custe mais de R$ 2 mil. Da mesma forma que não vemos problema em um tênis custar R$ 600, um carro popular R$ 30 mil ou em pagar mais de R$ 20 por uma refeição relativamente simples.

Nem sempre diminuir impostos ajuda

“Há uma classe média emergente no Brasil e ao redor da América do Sul”, afirmou ao The Verge José Carlos Aguiar, antropólogo da Leiden University. “Eles não são ricos, mas não são tão pobres quanto seus pais foram, o que resulta em milhões de pessoas que querem comprar produtos — os iPhones e os aparelhos de alto desempenho que eles veem com as pessoas ricas e na TV”.

“A classe no Brasil não é mais determinada pela educação ou pelas vizinhanças, mas sim pelo estilo de vida. E é isso que está direcionando esse mercado”, explica Aguiar. Além de haver uma grande demanda por produtos considerados “chiques”, a falta de competição colabora para que os produtos que chegam às nossas lojas apresentem cifras cada vez maiores.

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Em locais como os Estados Unidos e a Europa, grandes varejistas muitas vezes precisam sacrificar suas margens de lucro para se manterem competitivas. Já em nosso país, devido à falta de concorrência, empresas podem trabalhar com valores que soariam absurdos em outras partes do mundo.

Somando isso ao fato de que, culturamente, ligamos o preço de um produto à sua qualidade, é comum que o valor cobrado por produtos de última geração dificilmente caia. Pelo contrário: a tendência é que esses dispositivos ganhem saltos anuais em seus valores, tudo para conservar os status de “sofisticação” e “poder” associados a eles.

Nesse cenário, mesmo a diminuição de impostos acaba não tendo um impacto muito grande sobre o preço dos produtos que encontramos nas lojas. Graças à aprovação da chamada “Lei do Bem”, smartphones abaixo de R$ 1.500 produzidos no país passaram a apresentar alíquotas zeradas de PIS/Cofins, o que fez com que o preço de muitos produtos diminuísse imediatamente.

No entanto, graças ao “Custo Brasil”, a redução geral acabou sendo de somente R$ 50 ou R$ 100, o que, no final das contas, representa muito pouco. Além disso, devido às restrições da medida, produtos desejados como o iPhone e o Galaxy S4 não podem se aproveitar desse desconto, que acaba afetando somente produtos com características intermediárias — justamente aqueles que não são considerados “chiques” pela maioria das pessoas.

Exterior: solução para muitos

Entre as soluções encontradas por essa nova classe média para conservar seus hábitos de consumo está o chamado “mercado cinza”, formado por empresas que revendem produtos sem que eles tenham pago impostos. Além disso, está se tornando um hábito cada vez mais comum simplesmente comprar passagens para o exterior e adquirir fora do país bens de consumo que aqui são considerados proibitivos.

“É quase como um rito de passagem”, afirmou Andrew Gajary, gerente geral do InterContinental Hotel em Times Square ao Financial Times. “Uma viagem à Nova York parece ter virado o maior símbolo de status para a nova classe média brasileira”, complementa. A ele, se somam dados que apontam que o número de brasileiros que viajam à famosa cidade norte-americana dobrou em somente dois anos.

(Fonte da imagem: iStock)

Somente em 2012, brasileiros gastaram US$ 1,9 bilhão em Nova York e US$ 1,5 bilhão em Miami, o que nos torna uma das principais nacionalidades entre os turistas que vão aos Estados Unidos. De olho nesse mercado, algumas agências de viagem já ofertam “tours de compra” que levam pessoas ao exterior com a intenção de adquirir itens que vão de aparelhos eletrônicos até monitores digitais, berços e até mesmo fraldas.

Ciente dessa situação, a Receita Federal tem intensificado suas ações de fiscalização na tentativa de taxar quem gasta demais e coibir a ação de contrabandistas. Além de brasileiros, essa atitude também afeta a estrangeiros: em maio deste ano, duas aeromoças estadunidenses da American Airlines foram detidas em São Paulo após a alfândega ter descoberto 14 smartphones, 4 tablets e diversos relógios e video games espalhados em suas bagagens — todos eles destinados ao mercado paralelo.

No entanto, a fiscalização mais intensa dificilmente vai conseguir coibir as viagens brasileiras ao exterior. Entre os pontos que devem contribuir para a manutenção dessa situação está a lei federal que obriga que todo o comércio nacional exiba em suas notas a quantidade de impostos pagos em cada transação.

O designer gráfico Fernando Bergamini é um entre milhões de brasileiros que fica abismado com a quantidade de taxas que pagamos no país — em uma compra de aproximadamente R$ 180 feita por ele, ao menos R$ 50 eram impostos. “Isso é chocante quando se leva em consideração o que recebemos por nosso dinheiro”, disse ele ao The New York Times. “Ver isso em um pedaço de papel só me deixa indignado”.

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