Mesmo sendo um evento nerd de corpo e alma, a Comic Con Experience prova mais uma vez, em sua edição de 2015, que é capaz de abraçar todo tipo de elemento da cultura pop. Isso porque, embora o cinema e mesmo obras brasileiras nesse setor sejam presenças garantidas no pavilhão em que a festa geek rola – basta lembrar da exibição do curta 2028 no ano passado –, o trabalho que ganhou destaque no Auditório Prime na quinta-feira (3) não foi uma adaptação de quadrinhos ou algo do tipo. Estamos falando do painel de “Califórnia”, filme nacional idealizado e dirigido por Marina Person.

Depois de uma breve introdução do anfitrião Marcelo Hessel, que conduziu o espaço e deu um direcionamento para a sessão, a diretora do longa-metragem e seu produtor, Gustavo Rosa, subiram ao palco para falar do resultado de seu trabalho mais recente. Bastante empolgada com mais uma oportunidade de divulgar a película, a ex-VJ da MTV Brasil falou um pouco sobre a trama e deu uma palhinha a respeito de todo o processo de criação de um material como esse.

A história, que se passa na São Paulo de 1984 e conta o drama adolescente da jovem Estela, surgiu na cabeça da autora por volta de 2004. No entanto, por causa da agenda apertada e de outros compromissos profissionais, Marina contou que só acabou partindo para o roteiro muitos anos depois e que, quando tudo estava acertado, saiu por aí para dar início ao árduo processo de levantar fundos para o projeto. Infelizmente, após esse estágio finalmente ser completado, ela precisou voltar ao seu arquivo e adaptar a aventura para que tudo coubesse em um orçamento um pouco mais humilde.

Claro que a brincadeira não começou aí e envolveu um longo processo de incluir o filme no circuito nacional de cinemas. “O desafio maior é emplacar o trabalho nas salas e fazer as pessoas assistirem ao filme, saberem que ele existe”, explicou a diretora. Para poder “vender o peixe” adequadamente às grandes redes de distribuição, ela e o pessoal da Mira Filmes utilizaram o retorno dos espectadores de uma bateria de exibições de testes e paineis em mostras culturais, traçando um perfil mais preciso do público de “Califórnia”. Os resultados foram bastante animadores.

Sintonia com a onda do momento

Apesar de o longa-metragem ser definido como uma história adolescente inspirada por clássicos como “Clube dos Cinco”, de John Hughes, e “Vidas Sem Rumo”, de Francis Ford Coppola, a presença da década de 1980, com o Brasil pós-ditadura, a liberação sexual e o alastramento da AIDS, aparentemente, abriu bastante o escopo de quem tem interesse pelo produto. Segundo Marina, o filme acabou gerando identificação tanto com o saudosista, que viveu a época, como com os jovens de hoje em dia, curiosos a respeito desse período.

Essa descoberta acabou ajudando até mesmo na campanha de divulgação online de “Califórnia” que se apoiou em clipes curtos exibindo algumas ações dos personagens da produção. A grande sacada? Comparar atividades simples dos anos 1980 – como colar fotos em murais, enviar bilhetes e ouvir fitas cassete – e compará-las a elementos atuais no estilo de postagens no Facebook, envio de mensagens no WhatsApp ou playlists no Spotify. Tudo simples, rápido e muito elegante.

Além disso, o próprio revival que as últimas décadas vêm sofrendo no momento pode acabar ajudando a despertar o interesse de quem é mais novo. Quer exemplos? Nos cinemas, “Guardiões da Galáxia” casou furor ao ostentar uma trilha sonora eclética e totalmente retrô, contangiando o público, enquanto no universo dos games Metal Gear Solid V: The Phantom Pain é praticamente uma homenagem aos anos 80, oferecendo a oportunidade de o jogador apertar o play do seu walkman virtual e escutar canções como “Take on Me”, do A-Ha, e “True”, do Spandau Ballet.

Erros e acertos

O elemento musical, aliás, acabou direcionando uma contratação muito interessante para o projeto. Como a diretora queria incluir um show dos Titãs durante a trama, calhou que um dos integrantes do grupo, Paulo Miklos, acabou sendo convidado para fazer o papel do pai da protagonista. No fim, apesar de não ter conseguido realizar seu sonho e colocar os músicos para tocarem na produção, a ex-VJ não perdeu muito na jogada: ganhou um artista veterano para a empreitada e conseguiu uma série de canções da banda para incrementar o pacote de época.

Sobre o resto do elenco, Marina falou de como o fato de querer atores novinhos para interpretarem os jovens do filme – evitando que atores mais velhos “fingissem” ser adolescentes – acabou fazendo com que “Califórnia” contasse com uma boa leva de atores iniciantes, como é o caso de Clara Gallo, a intérprete de Estela, e Caio Horowicz, que faz o papel de JM. Apesar disso, a presença do experiente Caio Blatt dá bastante peso ao rol de participantes. Vale notar que Blatt foi escolhido por seu tipo físico esguio e pela habilidade de emagrecer e parecer debilitado para compor seu personagem, o tio Carlos.

Fechando a apresentação, a dupla que representava o longa-metragem comentou sobre as dificuldades de levar a empreitada adiante. Para Marina, é preciso se acostumar a levar um “não” na cara no estágio de arrecadação de financiadores para o produto e também vencer a burocracia de se inscrever em editais públicos. Gustavo Rosa acrescentou, sobre isso, que o Brasil não é o país mais difícil para se fazer filmes – “há como viabilizar [financeiramente] os projetos” –, mas que é realmente complicado conseguir que seu trabalho chegue até as pessoas.

Serviço

A Comic Con Experience ocorre de 3 a 6 de dezembro no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center, próximo à estação Jabaquara do Metrô. Para mais informações sobre a programação e as regras do evento, visite o site oficial da CCXP e não deixe de conferir as notícias por aqui.

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