Apesar de o transplante de cabeça ser uma ideia que parece ter saído de livros de ficção científica — ou do clássico “Frankenstein” —, não é de hoje que os cientistas vêm pensando a respeito de como tornar esse procedimento realidade. Aliás, não pense que não ocorreram tentativas de realizar a cirurgia: o primeiro transplante de cabeça a ter relativo sucesso ocorreu nos anos 70 em Ohio, nos EUA, e foi feito por uma equipe liderada por Robert White.

Na ocasião, os cirurgiões conseguiram transplantar a cabeça de um macaco no corpo de outro e, apesar de os médicos não terem tentado interligar as medulas dos dois animais — o que significa que o bichinho transplantado não podia se mover —, o macaco permaneceu vivo durante nove dias, até que o sistema imunológico do corpo do doador rejeitou a nova cabeça.

Frankenstein moderno

Conforme revelamos há algum tempo em uma matéria no Mega Curioso — que você pode acessar através deste link —, um neurocientista italiano chamado Sergio Canavero veio a público para explicar que os transplantes de cabeça em humanos poderiam ser realizados com sucesso em breve.

Mas não pense que a intenção de Canavero é a de realizar experimentos sinistros, dignos de cientistas malucos. A proposta dele é, na verdade, oferecer uma alternativa a pessoas com doenças degenerativas ou desenganas por conta do câncer, por exemplo, para que elas possam ter suas vidas prolongadas após terem suas cabeças transplantadas em corpos saudáveis.

Pois disso já se passaram mais de dois anos, e Canavero se manifestou novamente, garantindo que a cirurgia poderá ocorrer em 2017. Aliás, de acordo com Helen Thomson do portal New Scientist, a primeira tentativa experimental deve acontecer ainda este ano, durante um importante congresso de cirurgia que será realizado nos EUA.

Desafios do passado

Segundo Helen, apesar de não terem ocorrido muitos transplantes experimentais desde o que foi conduzido pela equipe de White, Canavero explicou que de lá para cá muitos dos procedimentos cirúrgicos e aspectos técnicos relacionados com esse tipo de operação progrediram bastante.

Um dos maiores desafios com esse tipo de procedimento — sem considerar as implicações éticas de “pregar” uma cabeça em um corpo decapitado — eram a questão da rejeição, uma preocupação comum em todos os transplantes, e a fusão da medula espinhal.

Mas, como?

Sergio Canavero

Recentemente Canavero publicou o protocolo que deverá ser seguido durante a cirurgia e, conforme explicou, o procedimento envolverá resfriar tanto a cabeça como o corpo do doador para que seja possível prolongar o tempo que as células permanecerão vivas sem oxigênio. Depois, os cirurgiões deverão dissecar os tecidos ao redor do pescoço de ambos — doador e receptor —, e artérias e grandes vasos serão interligados por meio de pequenos tubos.

O próximo passo envolve seccionar as medulas — que, depois de cortadas, se parecem com um pacote de espaguete — e posicionar a cabeça do recipiente no corpo do doador. E para fundir as medulas, Canavero aposta no emprego de uma substância chamada polietilenoglicol, que deverá ser aplicada repetidamente durante várias horas após o procedimento.

Segundo Helen, o polietilenoglicol faz com que a gordura das membranas das células “grudem” — da mesma forma como a água quente torna o espaguete cru grudento depois de cozido. O uso desse material já foi testado com sucesso em animais, e Canavero pretende iniciar experimentos com pacientes que sofreram morte cerebral para comprovar sua eficácia em humanos.

Por último, os cirurgiões devem interligar músculos e vasos sanguíneos e, uma vez finalizada a cirurgia, o paciente será mantido em coma por um período de 3 ou 4 semanas para evitar que ele se mova. Durante esse tempo, o transplantado terá alguns eletrodos implantados em seu corpo para estimular a medula espinhal por meio de descargas elétricas e, dessa, fortalecer as novas conexões nervosas.

Segundo Canavero, depois desse período de coma e estimulação elétrica, os pacientes serão capazes de acordar, sentir seus rostos e inclusive se comunicar com a mesma voz que tinham antes do transplante. Além disso, o neurocientista acredita que a fisioterapia permitirá que os transplantados possam recuperar os movimentos e voltar a caminhar no intervalo de um ano.

Alternativas

Caso o uso do polietilenoglicol não funcione, Canavero poderá introduzir na medula espinhal células tronco ou uma classe de células olfativas autorregenerativas que conectam a mucosa nasal ao cérebro. Outra opção seria inserir membranas estomacais para promover a fusão — lembrando que ambas as técnicas apresentaram resultados promissores em diversos experimentos.

Com respeito ao risco de rejeição, muita coisa progrediu desde a tentativa de Robert White — e seu macaco, cujo corpo rejeitou a nova cabeça —, e os especialistas acreditam que atualmente esse problema poderá ser facilmente evitado com o uso de medicamentos.

Será?

É claro que com um panorama como esse, várias pessoas já se voluntariaram a passar pela cirurgia. Por outro lado, de acordo com Helen, diversos especialistas se manifestaram alegando que não existem evidências de que a técnica proposta por Canavero realmente permitirá que os transplantados tenham sensibilidade em seus novos corpos ou voltem a apresentar movimento.

Outro problema que Canavero terá que enfrentar será o de encontrar um país que permita que esse tipo de procedimento seja realizado. Além disso, a questão de usar o corpo de um doador que receberá uma cabeça envolve uma enorme discussão ética. Afinal, quem garante que no futuro o procedimento não será utilizado por questões estéticas ou, ainda, que um indivíduo opte por um corpo novo simplesmente para substituir o seu que está ficando velho?

Opiniões divididas

De acordo com Helen, assim como existem defensores da empreitada — que consideram que a ciência e a humanidade só têm a ganhar com algo tão grandioso —, também existem os que pensam que, embora a proposta seja ambiciosa, a cirurgia só poderá ser realizada com sucesso no futuro. No entanto, muitos críticos simplesmente não acreditam que o transplante de cabeça pode ser realizado, e que os resultados jamais serão os esperados.

De qualquer forma, apesar das opiniões divididas, Canavero vai apresentar sua proposta durante o congresso e, segundo disse, se o procedimento não for bem aceito, ele engavetará o projeto. No entanto, o especialista adverte que, mesmo que o transplante não seja aprovado — para realização nos EUA ou na Europa, por exemplo —, isso não significa que o procedimento não será conduzido em outros lugares do mundo. É só uma questão de tempo.

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